Primeira pessoa

            O texto de hoje começa com uma ideia que acaba de me ocorrer. Abandonar o texto que já está pronto e abraçar outra reflexão/provocação aos quarenta e oito do segundo tempo. Por alguma razão, resolvi olhar para dentro e tentar entender de onde vem a inquietude que tornou-se minha companheira fiel nas últimas semanas. Tantas coisas têm acontecido, que achei por bem falar sobre isso e, ao escrever, percebo que me expressar na primeira pessoa será o maior desafio nesta manhã de domingo.

            Para entender o hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Há exatos três anos, quando decidi compartilhar minhas ideias, não tinha certeza de coisa alguma. Se alguém teria interesse em ler meus textos, onde eu poderia publica-los, como dar asas aos pensamentos que só existiam dentro da minha cabeça. O medo me fez pensar e repensar, até que, em um dia de outubro de 2016, me libertei das amarras da insegurança e realizei o parto do que conhecemos hoje como o aqui pensando.

            Mas, como filho feio não tem paternidade assegurada, enviei alguns textos para amigos próximos para, sorrateiramente, colher algumas impressões. E foi aí que as coisas começaram a acontecer. Momentos que precedem a exposição de nossa intimidade, sempre são tensos, mas o que me chamou a atenção, foi uma certa estranheza compartilhada pelos meus. “Por que escrever essas coisas nada a ver com a sua trajetória profissional? Como assim você vai falar sobre reflexões? Ah, gostei, mas não entendi o porquê de começar a escrever isso”… Diante de tantas dúvidas, achei que essas reações eram a gota necessária para sufocar qualquer medo ou insegurança.

            Do primeiro texto até hoje, eu percebi que a escrita é como atividade física. Quanto mais eu exercito, mas forte ela se torna… e me fortalece. Hoje, depois de muito relutar, me aceito como escritor. E isso não tem relação com as milhares de palavras que foram escritas até aqui. A aceitação do meu eu escritor só foi sedimentada a partir do instante em que percebi que não se tratava, apenas, de publicar textos semanais que alcançavam um número indefinido de leitores. O escritor nasceu quando percebi que, para além da escrita, eu havia criado conexões. E foram elas que me levaram do virtual para os livros.

            E foram essas conexões que me fizeram alçar muitos voos para longe dos meus domínios. Conexões que trouxeram o frescor do desafio e o frio na barriga provocado pela incerteza. Conexões que permitiram que um cara disperso e com dificuldades de realizar uma tarefa de cada vez, conseguisse, de forma quase religiosa, escrever uma coluna semanal a quase três anos. O sonho, a incerteza, a cara de pau, a coragem, a sorte, um pouco de talento, alguma angústia, alegrias indescritíveis e muito trabalho duro me trouxeram até aqui. E onde é esse lugar? Não sei. A única coisa que consigo dizer é que esse relato em primeira pessoa me permitiu um reencontro com aquele sonhador que não fazia ideia de onde estava se metendo, mas sabia que deveria seguir em frente.

            E, diante de um dia tão especial, onde faço a minha estreia como autor na Bienal Internacional do Livro, seria impossível não agradecer aos que leem e se conectam comigo há 150 semanas. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado por tanto.

Marco Rocha.

5 comentários em “Primeira pessoa”

  1. Lindo texto! Parabéns. Você merece! Sempre muito determinado naquilo que faz, não poderia ser diferente.
    Esse é a primeira de muitas! Só depende de você e suas ideias vulcânicas. Sucesso.

  2. Que legal, tio Prof! Estou muito feliz por mais uma conquista sua. Deve ser espetacular viver o que vc está vivendo, né? Parabéns pela coragem de escrever, pelos textos, pela bienal e pelo seu re-encontro.

  3. Um grande pensador não pode ficar escondido nas sombras da insegurança e incerteza! Ainda bem que o universo fez você despertar e florescer! Bendita sua florada meu amigo!

  4. Gente, até quase chorei.
    Não só por me identificar em vários textos. Não só por ter encontrado um lugarzinho aconchegante. Não só por ter adquirido toda uma ritualística em torno do sentar com calma pra ler e digerir suas palavras e arrumar minhas ideias diante de tantos gatilhos pras minhas confusas catarses. Não só por saber que de alguma forma faço parte dessas conexões e ler isso é um mimo (quem não gosta de mimos que atire a primeira pedra, não é mesmo? kkkkkk). Não só, mas é por tudo isso ao mesmo tempo e mais. É também por seus textos serem responsáveis por eu ter voltado a escrever algo ainda reluto a chamar de minhas poesias. E é sempre um momento meditativo e meio mágico quando nasce uma parte de mim no papel. Na maioria das vezes tem toda emoção e intensidade que não consigo dar vasão ao longo do dia e isso me ajuda a não pirar, sabe? Também me ajuda a olhar pra dentro e ter percepções bem interessantes de mim mesma. A ponto de hoje eu ter certeza de que preciso um dia dar mais prioridade pra o destino nos meus bebês ,”uma onda de amor de propagando no lago…” (Regina. T, texto anterior). kkkkkkkkkkk
    Saber que o medo que eu sentia (sinto) não é assim tão exclusivo, é outro mimo.

    Obrigada por todas as oportunidades de discordar (são sempre meus textos preferidos), chorar, surtar, gritar baixinho, olhar de novo pra algumas feridas, rir sozinha, ficar em choque e, em seguida, não conseguir dizer uma palavra sequer por alguns longos minutos…

    Parabéns, Marco. Vida longa ao aqui pensando! Esse lugar que fui entrando de mansinho, aprendi a amar e me instalei definitivamente.

  5. Parece que ter encarnado a sina do poeta (escrever o que sente) foi uma boa escolha, Marco.
    Obrigada por partilhar mais do que textos semanais.
    Desejo que a escrita continue acolhendo teus sentimentos, desconfortos, denúncias, sonhos, fantasias, ideias, ficções…
    Parabéns!

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