Por isso eu corro demais

Acorde cedo. Trabalhe muito. Divirta-se como se fosse a última vez. Seja bom amigo. Embriague-se com frequência. Persiga a felicidade. Pratique esportes. Seja saudável e lindo. Durma um pouco, se for possível… Reparem que esta é uma lista de como devemos nos comportar em tempos moderníssimos. Só em ler essa sequência, já é possível sentir uma ansiedade sufocante. Nesta proposta, não há espaço para nada que fuja a esse insano padrão qualidade. Ficar triste ou cansado não é legal. É comum, é sem graça. Por isso eu corro demais. Para tentar ser o melhor, nem que seja, apenas, aos olhos dos outros. Será que este é o caminho?

Nunca fomos tão pressionados como agora. Mas também, nunca precisamos cumprir tantos pré-requisitos para sermos aceitos, apesar de caminharmos para um mundo onde a inclusão é uma pauta definitiva. Para entender melhor, basta olhar a sua volta. Sempre haverá um expoente em alguma tribo. Aquele que desperta, não apenas a nossa admiração, mas também, a de uma legião disposta a segui-lo e a copiar gestos, roupas, falas e posturas. À medida em que isso ocorre, cria-se uma padronização de comportamento. E, para todo padrão criado, nasce, ao mesmo tempo, uma massa de excluídos.

Sempre que miramos em algo ou em alguém que nos interessa, imediatamente pensamos em como seria se estivéssemos naquela posição. Em alguns casos, essa vontade de ser como o outro, desperta ansiedades difíceis de conter. Quando isso ocorre, entramos em uma frequência que diz que, para ocupar aquele lugar, é preciso abrir mão de algumas particularidades para tornar-se um rascunho de alguém que jamais seremos. E, assim, caminhamos em direção ao arriscado caminho daqueles que escolhem um padrão para chamar de seu.

Padrões estão por toda parte, dizendo o que devemos fazer, quando fazer e com quem fazer. Alguns conseguem ignorar essas correntes com tranquilidade, mas, para a grande maioria, é impossível resistir ao desejo de se aproximar de uma fórmula de sucesso, perseguida por muitos e privilégio de poucos. Fórmulas que não passam de armadilhas muito bem pensadas para atrair o maior número de admiradores que, tentarão a todo custo, apagar traços próprios e adequar suas medidas para que possam caber em fôrmas alheias e desconfortáveis.

Mas, se sabemos previamente que padrões existem e que, invariavelmente, seremos tragados por eles, por que não relaxar e aproveitar? Afinal, o que há de tão ruim em acordar todos os dias e travar batalhas com poucas chances de vitórias? Por que não seguir acreditando que sem dor não há ganho? O que há de errado em querer ser melhor, mais inteligente e mais bonito? Qual é o problema em querer mostrar que, além de sexy, somos saudáveis e bons de cama? E por que não fazer isso tudo ao mesmo tempo? Não há nada de errado com absolutamente nada disso, a não ser que isso cause, por menor que seja, algum tipo de dor ou sofrimento aos que tentam, incessantemente, alcançar marcas inalcançáveis.

A vida é feita de muitos ritmos e nem sempre conseguimos seguir o seu compasso. Especialmente quando tudo parece acelerar demais e distorcer as imagens a nossa volta. Corremos o mais rápido que conseguimos, na busca por padrões que funcionem como atalhos que nos levem a lugares que nem sabemos direito se queremos ir. E. no caminho, encontramos verdades nada fáceis de engolir.

Não aceitamos o fato de vivermos tão pouco e, talvez por isso, tenhamos tanta dificuldade em aceitar quem realmente somos e quais são os nossos limites. Sucumbimos a padrões tolos porque, supostamente, facilitam a nossa convivência. Corremos demais. Mas, ao contrário do que pensa, isso não faz ninguém experimentar a vida ao máximo. A pressa, por si só, exclui a calma necessária para aproveitar detalhes, trazendo consigo uma única certeza: quanto maior for a nossa velocidade, mais próximos estaremos do fim.

4 pensamentos em “Por isso eu corro demais”

  1. Engraçado, um dia desses escrevi um texto chamado itinerário, ele fala sobre isso, vou descrevendo o caminho que faço todos os dias pra ir trabalhar ou estudar e explicando que não há pressa em viver os momentos.
    Como sempre suas letras entram na mente e coração e falam como se você estivesse perto. Obrigado por isso!

  2. Tenho tido a ligeira impressão de que há pinceladas de fatos os quais tenho ciência colorindo de leve seus textos. Pode ser só coincidência… kkkkkkkk Enfim…
    O fato é que dessa vez me lembrei de uns dias atrás. Me dei conta que não tenho visto a cidade. Logo na minha época do ano preferida não tenho visto as vistas que mais gosto na cidade. Eu amo essa época pq a luz é sempre tão perfeita, incide nas folhas fazendo elas brilharem e o mar fica com um rajado prata meio dourado lindo, lindo. Não vejo nada disso há meses. Andando de metrô direto pra não pegar trânsito, também mal vejo as pessoas me entretendo com celular ou arrumando um jeito de estudar espremida. Bem, nesse tal dia decidi pegar um ônibus e passar pelo Aterro. Há muito tempo não achava ruim o trânsito estar tão fluido. Tinha chovido à noite, sei lá, só sei que os morros da Urca estavam com um mosaico espalhado e toda aquela paisagem me deixou com cara de gente apaixonada, tenho certeza. kkkkkkkkkk
    Acho que a gente vai se permitindo deixar levar por essa correria doida sem consciência nenhuma dela. Quando vê já tá lá correndo. Quando vê… Pra mim é muito importante sair disso um pouco pra não pirar tão fácil. E pensando nisso, eu venho num crescente de hábitos de contrafluxo. Coisas que aparentemente nem têm muito a ver,como cuidar do meu cabelo. Demanda um tempo (muito tempo) e pra assumir isso eu tive que me permitir encaixar esse momento, que não há como ser corrido, no meio dessa correria. Meditar e contemplar me dão um respiro gigante também.
    O ruim nisso tudo nem são tanto os padrões, de fato. Quem se sintonize com eles, que os procure. Quem se sentir obrigado, que os siga. Mas, independente de qualquer situação, acho que não pode deixar de existir o momento de parar por um instante e fazer as coisas de um modo diferente, permitindo-se ser transparente consigo mesmo e aproveitar isso ao máximo. Deixar nosso interior tomar conta de uns minutos do nosso dia pode trazer uma experiência simples mas maravilhosa.

  3. Tio Prof, varias passagens desse texto eu queria colocar na minha cabeceira. E na de varias pessoas que eu amo, e estou vendo perder a saúde mental mesmo com o imenso potencial, só por não estar seguindo literalmente o que algum louco um dia disse que era certo.
    E, como sempre, complementando o seu texto de forma doce e linda, Tati Reginaaaaaa!!!! (Aplausos, pessoal!)
    Adorei as reflexões!

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