O maior amor do mundo

Sim, o texto deste domingo será sobre e para elas. Seria muito lugar comum abordar esse tema no dia de hoje? Claro que sim, mas não existe lugar melhor nesse mundo para ficar e se aconchegar devagar, sem pressa para chegar e sem urgência para sair.

Elas simplesmente são. São únicas e ao mesmo tempo coletivas. Falar sobre elas é exaltar as coincidências e os pontos em comum a todas. As frases feitas carregadas de drama e teatralidade que ora servem para nos contrariar, ora para nos afagar profundamente, sempre nos indicarão caminhos seguros para seguir, apesar da inevitável carga dramática.

Longe de mim tentar romantizar o trabalho árduo que as torna tão essenciais. Certamente nenhuma delas faz ideia de como nos criar, transferir valores importantes, afastar do sofrimento e das inevitáveis pancadas da vida. Elas vão lá e fazem. E não é acertando que aprendem, é errando… e muito. Porém, como todas possuem um olhar muito especial que sempre enxerga além, os erros tornam-se menores. Sua visão vê nuances e definições que passam despercebidas pela grande maioria, então, se for preciso errar para que no fim suas crias estejam a salvo, tudo bem.

Podem ser jovens ou nem tanto. Podem ser bravas ou pelo menos tentam nos fazer acreditar que são. Podem parecer indiferentes e distantes e também podem nos sufocar de atenção. Não importa se vivem em grandes cidades ou em vilarejos, todas são donas de uma obviedade tão surpreendente que, muitas vezes, não nos permite prever o seu próximo passo. Mas, independente do exemplo que você tem em casa, todas têm como ponto de convergência, a capacidade de sentir o maior amor do mundo.

É difícil compreender isso. Esses seres são tão diversos e tão particulares que chegam a apresentar características super-humanas. Ao mesmo tempo que querem nos esganar por que não seguimos suas ordens em detalhes, são capazes de, no instante seguinte, olhar para nós com ternura e perguntar se estamos felizes ou não. São responsáveis por ameaças quase fatais que vão desde esfregar nossas faces em objetos que teimam em se esconder, até alardear o seu desaparecimento repentino, uma vez que ninguém percebe o seu real valor. Caprichos deliciosos que só nos deixam mais apaixonados por elas.

A natureza nos mostra como as fêmeas são capazes de desafios impossíveis para proteger suas crias. Conosco não é diferente. Lembro de quando era criança e, vez ou outra, sofria com febres frequentes e alucinantes que impediam um sono tranquilo por muitas noites. Lembrança um tanto gasta pelo passar do tempo, mas que serve para trazer de volta a memória de quando eu abria os olhos e percebia, sem muita nitidez, que alguém me segurava nos braços por horas seguidas, velando meu sono e minha saúde, me abrigando e me curando com seu amor sem limites. Ela estava lá.

É impressionante constatar a sua capacidade de armazenar amor. Imagino que todas as vezes que o estoque de amor está perto do limite, elas simplesmente estabelecem novos parâmetros para o amar, criando infinitas possibilidades e combinações. Muitas dividem seus genes como os filhos, outras agregam filhos sem semelhanças físicas óbvias, mas todas, sem exceção, compartilham seu imenso amor sem se importar com a genética. Elas amam e ponto. Seu amor não segrega, agrega.

Por que existe um dia só para elas? Para comprar presentes aleatórios e sem muita utilidade? Possivelmente. Mas, já que essa data existe, vamos tirar proveito dela. Usar esse momento para lembrar, estar e, acima de tudo, dizer a elas que não se preocupem e não se culpem. Sabemos que a jornada não foi fácil e que as vimos errar e acertar incontáveis vezes, mas tudo bem, sobrevivemos juntos. Dê beijos e abraços apertados se puder, senão, apenas olhe para ela da forma mais sincera que conseguir. Isso já será o suficiente para dizer o quanto ela foi e sempre será fundamental. Olhe para ela mais uma vez e diga, mesmo que sem palavras: eu te amo, mãe.

Solidão não é castigo

Solidão. Aquela parceira sempre presente, seja nos detalhes ou em grandes momentos do cotidiano de muita gente. Há muitas coisas a dizer sobre ela, porém, chama a atenção perceber que, para muitos, a solidão é repleta de drama e melancolia. Será que é apenas isso?

Inúmeras vezes ouvimos as queixas de pessoas próximas sobre o quanto se sentem solitárias, como é difícil se envolver com alguém ou ainda, o que uma pessoa tão legal está fazendo sozinha? A solução para isso é pessoal e intransferível mas, acima de tudo, é preciso sinceridade para encontrar as respostas…

A grande questão é que, geralmente, relacionamos nossas carências de afeto à solidão, o que é um grande equívoco. O ritmo alucinante em que vivemos nos impõe situações em que, via de regra, estamos completamente sozinhos, mesmo cercados por um mar de gente. Até aí, tudo dentro da normalidade.

Algumas horas perdidas em engarrafamentos, outras tantas dedicadas aos estudos, trabalho, atividades físicas, sono… Se contabilizarmos os dias, semanas e meses em que nos dedicamos, simplesmente, a viver nossas vidas, iremos perceber que o tempo que passamos exclusivamente na companhia de nós mesmos é consideravelmente maior do que os períodos em que nos entregamos ao convívio social. E isso é estar só.

A solidão, ao contrário do que alguns podem imaginar, traz consigo momentos de paz e reflexão, típicos daqueles dias preguiçosos em que ficamos observando a chuva bater na janela, desfrutando da companhia de muitos pensamentos e de e uma boa xícara de café. Pode parecer um cenário poético e idealizado, mas independente do panorama, sempre arrumaremos um escape terapêutico que nos ajudará a seguir em frente.

Se estar só faz parte do nosso jeito de ser e de viver, não faz sentido falar mal dos momentos solitários, certo? Meu palpite é que a solidão é como um parente distante, daqueles que conhecemos, mas nunca falamos ou lembramos de sua existência até que ele  resolva aparecer sem avisar. Neste momento, nos damos conta que a vida segue seu fluxo normal mas que, em alguns momentos, somos obrigados a tomar consciência de que caminhamos sozinhos por tempo demais.

Talvez seja no instante em que notamos nossa solitude, que passamos a buscar pares, companhias e parcerias que ajudem a preencher espaços considerados vazios. Muitas das vezes sequer pensamos em como ou com quem essas lacunas devem ser preenchidas. Dessa forma, trazemos para o nosso convívio, elementos que podem parecer adequados, mas que na verdade, são apenas rascunhos de desejos um tanto confusos.

Isso acaba por abrir brechas para aquelas relações fragmentadas, porém muito comuns, onde a intimidade dá lugar a solidão a dois. Muitas coisas foram feitas para serem compartilhadas e a solidão certamente não é uma delas. Por isso é preciso ficar atento aos sinais que a vida nos dá e aos conselhos que ouvimos desde sempre. Estar só e em paz é muito melhor do que fazer parte de um mau encontro, sem sombra de dúvidas.

É possível que agora fique mais fácil pensar que estar só é, também, uma escolha. O que não implica em uma vida sofrida e marcada por privações sentimentais. Quem disse que ir ao cinema sozinho ou sentar à mesa de um restaurante sem um par é sinal de abandono? Essas são distorções muito comuns com as quais nos habituamos, mas que de forma alguma, devem ser consideradas como um padrão a ser seguido.

Estar só pode ser apenas um querer. Estar só não é sinal de tristeza, derrota ou abandono. O olhar do outro pode colocá-lo no lugar do pobre coitado, isolado e sofrido. Mas isso, definitivamente, não deve ser levado em conta. Não se pode depositar o nosso próprio bem-estar sobre os ombros de quem quer que seja. É preciso ter em mente que a solidão não é castigo.

Amar é bom. Ter família e amigos é melhor ainda. Mas é primordial entender que na maioria das vezes, estar só, também é estar em excelente companhia.

Mudar é preciso

Mudanças… poucas coisas na vida são tão desejadas e, ao mesmo tempo, tão difíceis de realizar. Quando criança, pensamos em como será nossa vida quando nos tornarmos grandes. Adolescentes pensam em como será quando alcançarem a maioridade. Jovens adultos querem se formar, ganhar dinheiro e consumir tudo o que puderem. Quando mais velhos, cuidaremos dos filhos e de um ou dois cachorros. E, quando finalmente começarmos a esquecer as nossas memórias, mais vontade teremos de lembrar de todas as transformações que a vida nos proporcionou.

Parece um tanto contraditório, mas é um fato. Nascemos e crescemos desejando mudanças e, à medida que envelhecemos, não temos mais tanta clareza se as nossas transformações foram reais ou apenas desejos não realizados. De toda forma, a ânsia por mudanças nos movimenta. Não fomos talhados para fazer parte de uma cena onde o cenário e os personagens à nossa volta não mudam. Precisamos sempre de novas cores e sabores.

Então, por que passamos por situações onde sabemos que a mudança é um caminho óbvio, mas, ainda assim, é dificílimo romper certos laços? Muitas vezes, as barreiras que temos à nossa frente são, na verdade, caprichos egoístas da nossa mente que, por não conseguir escolher uma rota de fuga, decide se manter inserida em uma incômoda zona de conforto.

Mudar requer alguns complementos importantes como: coragem, vontade, decepção, necessidade… Independente do estímulo, mudar é preciso. Alguns conseguem com mais facilidade, outros enlouquecem só de imaginar uma mudança, por menor que seja, em seu rígido planejamento de vida. É compreensível. Mudanças não trazem apenas uma alteração de rota. Algumas exigem que coisas ou pessoas que já foram muito importantes no passado sejam retiradas de cena, permanentemente. E isso pode doer… mas passa.

De uma maneira geral, mudar promove transformações que enchem o peito de emoções que se misturam em doses e intensidades não programadas. Daquelas que vão desde o frio na barriga por algo novo e desafiador, até a tristeza por não saber como será o futuro após uma perda inesperada. Escolhas provocam mudanças. A falta delas também.

Pensar em mudar nos possibilita trocar de lugar e identidade, nem que seja por alguns instantes. Criamos cenas, escolhemos trilhas sonoras e companhias especiais para dar vida a alguém que poderíamos ter sido se, por acaso, tivéssemos seguido por caminhos diferentes daqueles que escolhemos tempos atrás. Nada além de projeções abstratas, mas que cumprem o importante papel de nos mostrar que, apesar da realidade em que vivemos, o mundo está cheio de possibilidades e novos caminhos, basta transformá-los em mudanças.

Porém, mudar não está restrito apenas a anseios individuais. Muitas mudanças são mais desejadas e mais festejadas quando são partilhadas por muitos. Nossas escolhas individuais não afetam apenas o nosso pequeno grande mundo. Coisas que pensamos podem impactar o cotidiano de um número imprevisível de pessoas, como votar, doar roupas, ir ao cinema com as crianças, atrasar uma reunião. De um jeito ou de outro, as nossas ações provocam mudanças em outras histórias, assim como o desejo de outras pessoas também mexe com nossos planos pré-estabelecidos.

Quando mudamos, todos à nossa volta sentem. Pequenos gestos podem parecer insignificantes para alguns, mas podem criar um fluxo capaz de conduzir nossas vidas por caminhos impensados. O que cria um movimento aleatório que promove mudanças em todas as direções, possibilitando encontros, desencontros, surpresas e decepções.

De todo modo, mudanças, mesmo que sejam necessárias, só acontecem quando, finalmente, sentimos o desconforto em ocupar um lugar que, definitivamente, não é mais nosso.

Mais amor, por favor

Os últimos tempos não têm sido fáceis para nenhum de nós. Somos bombardeados por um sem número de atrocidades dia após dia. Perdemos espaços e direitos. Perdemos pessoas. Perdemos amor. Estamos estacionados em uma época onde as perdas parecem ser maiores do que tudo aquilo que ganhamos. Independente da nossa percepção sobre isso, uma coisa é certa, sofremos todos.

O mundo nos desafia a todo instante, colocando limites à prova, nos mostrando que a tolerância ao sofrimento pode ser sempre um pouco mais flexível. Vivemos imersos em uma escala que mede, de forma perversa, a nossa capacidade em sentir medo, tristeza e dor. É difícil dizer como cada um de nós percebe isso, mas há algo que, aos poucos, vamos deixando de sentir e de aplicar em nosso cotidiano. Ser demasiadamente tolerantes pode provocar efeitos colaterais devastadores que só nos damos conta quando percebemos que nos falta amor para compartilhar.

Estamos endurecendo, apesar de falarmos o tempo todo que o bom da vida é ser feliz e que esse é um bem a ser conquistado a todo e qualquer custo. A felicidade fabricada em comerciais de tevê impõe que estejamos sempre cercados por pessoas lindas e incríveis, que ostentam sorrisos brilhantes e congelados. O ser feliz acima de tudo não permite reflexões ou perturbações.

À medida que o complicado mundo real nos apresenta um sofrimento diário que parece não conhecer limites, nos vemos obrigados a desenvolver subterfúgios que nos permitam seguir em frente. Talvez seja por isso que aceitamos com facilidade a ideia de vivermos em um mundo irreal onde tudo é divino e maravilhoso. Dessa forma, ficamos tão envolvidos com as nossas escolhas que, provavelmente, deixaremos de entender cada vez mais,  sobre aquilo que se passa atrás dos muros do nosso frágil castelo de cartas.

O significado disso é muito simples. Estamos nos tornando insensíveis. Crimes hediondos, corrupções grandes e pequenas, desrespeitos por toda parte. Nada disso parece surtir efeito sobre a maioria das pessoas. Caminhamos anestesiados sem saber bem para onde vamos. Nos habituamos a conviver com a frequência do mal em nosso dia a dia. O que acaba por alterar nossa percepção sobre o que é bom e ruim. Banalizamos a dor e os problemas do outro e, em contrapartida, exaltamos tudo que supostamente nos faz feliz. Esse padrão de comportamento cria um universo paralelo que é, ao mesmo tempo, liberdade e prisão. E isso é terrível…

Tudo isso me faz pensar sobre a empatia. Muitas são as nossas virtudes, mas a empatia é, sem dúvidas, uma da mais incríveis. É ela que nos permite trocar de lugar com quem é diferente de nós. Que não nos deixa esquecer que as posições mudam, que as ideias mudam e que, acima de tudo, somos capazes de mudar a partir das experiências do outro. Perder essa capacidade nos cega e empobrece imensamente.

Vivemos tempos que exigem que estejamos sempre plenos. Praticamente nos obrigando a, sempre que possível, exibir com orgulho, a forma como queremos ser vistos e admirados. É bem provável que por conta disso, a felicidade egocentrada tenha se transformado em um status quase obrigatório. Se sou feliz, a dor alheia não me interessa. Se sofro, a felicidade dos outros não me importa. Assim, a ausência de empatia, se torna um caminho fértil para a apatia. O que é uma pena.

Olhar o mundo através de uma máscara de indiferença, ao contrário do que se pensa, nos impede de ser verdadeiramente felizes. Porém, quando escolhemos enxergar sem filtros, percebemos que, à altura dos nossos olhos, os detalhes são mais vivos, as pessoas são mais próximas e que os problemas, assim como a felicidade, fazem parte do caminhar. Que amar e ser bom fazem diferença, assim como se interessar por quem é diferente de nós. Amar é bom e, ser bom é, sim, melhor que ser, ordinariamente, feliz.

Não espere tanto de mim

Desde muito, muito cedo, seguimos planos que alguém traçou para nós. E esse alguém, por sua vez, também segue uma cartilha que é compartilhada por muitos outros que vieram antes dele. Isso significa que, mesmo sem perceber, mantemos um padrão pré-determinado que, de acordo com a época, pode ser chamado de tendência, modinha ou estilo de vida. Não importa. O fato é que nossas atitudes, geralmente, seguem um roteiro prévio e socialmente estabelecido.

Muitos poderão pensar, “comigo, não!”, certos de que fazem parte de uma minoria capaz de romper com um sistema e tocar suas vidas segundo suas próprias convicções… Será possível?

De um jeito ou de outro, todas as vezes que desempenharmos papéis que já foram encenados por outros atores, estaremos eternamente sujeitos a comparações e, acima de tudo, seremos alvos certeiros da expectativa alheia. E isso pode ser bem chato.

Alguns exemplos são clássicos. Se estamos na escola, esperam que sejamos os melhores e que passemos de ano com louvor. Na faculdade, precisamos escolher as melhores profissões, o que na verdade é sinônimo de “escolha uma coisa que te faça ganhar dinheiro”. Se é um solteiro convicto, será motivo de piadas. Se passou dos trinta e não tem filhos, certamente tem problemas. Se troca de amores com frequência é… bem, é alguém que não é sério. Se muda de profissão, é instável e, se não se enquadra em nenhum padrão, é um caso perdido.

O peso dessas cobranças varia de acordo com a resistência de quem as suporta, mas é inegável que, em muitos momentos, o olhar do outro sobre quem somos e sobre o que fazemos pode ser massacrante. O lado curioso dessa situação é que só nos damos conta dessa patrulha quando nós somos o alvo mas, convenientemente, nos esquecemos que, por várias vezes, pode ser nosso, o dedo que aponta e faz cobranças.

Mas por que se ocupar tanto com a vida alheia, cobrando posturas e fazendo projeções sobre coisas com as quais não temos nada a ver? Difícil responder porque simplesmente não existe uma razão sensata para isso. Talvez isto se deva ao conjunto formado pela admiração, frustação e inveja que sentimos pelo outro, aliado a um bocado de tempo sobrando.

Acima de tudo, gastamos tempo e energia esperando que os outros se comportem com base em nossos delírios e, assim, deixamos de prestar atenção ao que é realmente importante. Nossa própria vida. Nossos anseios. Nossas conquistas.

O que pode, com frequência, gerar um descontentamento que é só nosso, uma vez que idealizamos coisas, pessoas e comportamentos que são reais apenas em nossas cabeças. Isso, via de regra, cria uma certa confusão, pois cobramos de alguém, algo do qual ela não faz a menor ideia. Dessa forma, criamos linhas que dificilmente se encontram onde, de um lado temos a expectativa e do outro, a realidade.

De todo modo, é preciso ficar atento aos detalhes. As experiências de vida criam filtros que aumentam a nitidez do nosso olhar sobre o outro. Isso quer dizer que, quanto maior for a nossa percepção da realidade, menor será a ansiedade provocada por uma expectativa sem fundamentos. Isso pode nos poupar tempo e sofrimento e, o melhor de tudo, nos autoriza a dizer, para nós e para quem quer que seja, que, por favor, não espere tanto de mim.

A família que escolhemos

Amigos são a família que escolhemos… Essa definição circula sem cerimônias na cabeça de muita gente mas, de fato, o que isso significa? Que a família é algo sublime e que agregaremos a ela, todos aqueles que forem especiais? Ou que a família biológica não dá conta das diversas formas de amar que a vida nos apresenta? Difícil saber, uma vez que cada um de nós possui um ponto de vista sobre o que é família, amizade, amor…

A despeito da formação do nosso núcleo familiar original, somos forjados para viver em sociedade. Isso quer dizer que fomos, e ainda somos, criados não apenas para o encontro, mas também para o confronto. Independente da forma como vamos conduzir a vida, uma certeza se fará presente. Seja na arte de encontrar ou de confrontar, sempre precisaremos de parceiros. E essa é uma lição que aprendemos desde cedo.

Ainda muito pequenos, iniciamos uma busca por pares. As crianças com sua espontaneidade em estado bruto começam, entre tapas e beijos, a construir o que um dia chamaremos de amizade. Aprendem a conviver, amar e odiar, sentir inveja, formar parcerias e a entender aqueles que não fazem parte do seu pequeno mundo. Assim, passam a perceber que, ao longo da vida, conhecerão muitas pessoas. Que alguns passarão sem muito alarde. Outros serão deixados propositalmente para trás e que, alguns poucos, se tornarão presenças constantes em suas jornadas.

À medida que crescemos, nos damos conta que a vida é dividida em etapas e, se tivermos sorte, seremos capazes de criar alguns vínculos importantes. Essa não é uma tarefa fácil, uma vez que conhecemos tantas pessoas que sequer somos capazes de lembrar em detalhes. Isso nos permite garimpar, dentre tantas possibilidades, aqueles que proporcionam bons encontros conosco.

Acertamos sempre em nossas escolhas? De forma alguma, mas isso nem sempre será ruim. Conhecer pessoas e gostar delas imediatamente é simples, mas apenas a convivência, nos permite perceber que aquele suposto amigo de infância instantâneo não passava de um rascunho mal feito disfarçado de obra-prima.

Mesmo com os tropeços, a vida acaba sempre nos oferecendo presentes. Daqueles que, por vezes, vêm em embalagens meio tortas e mal acabadas, mas que guardam verdadeiros tesouros em seu interior. Uma riqueza diversa e ao mesmo tempo tão particular, mas que podemos resumir em uma palavra: Amigos.

Brincamos com eles, discutimos sobre tudo, discordamos sobre mil coisas, implicamos com frequência e, apesar disso, os amamos profundamente. Um amor imune a passagem do tempo, à distância e a correria diária.

Há aqueles que vemos sempre. Outros que fazem parte de grupos de aplicativos e os que, por inúmeros motivos, custamos a encontrar. Mas, de alguma forma, criamos laços invisíveis que, quanto mais o tempo passa, mais apertados se tornam. Amigos são delícias necessárias em um mundo de individualidades galopantes e, muitas vezes, tornam-se um refúgio onde depositamos nossas alegrias e frustrações, sem receio de julgamentos e reprovações apressadas.

Quem de nós nunca ficou anos sem olhar nos olhos de um amigo, mas, ao encontrá-lo novamente, se deu conta que o tempo deixou marcas superficiais, apenas? Estar entre amigos de verdade nos dá a chance de tirar as máscaras de autoproteção que usamos para enfrentar o mundo.

Para nossa sorte, nossos amigos sempre serão capazes de reconhecer, não importa a camuflagem utilizada, a nossa verdadeira face. E isso vai nos garantir colo, loucuras, sermões, viagens, desencontros, mas acima de tudo amor, muito amor. Amigos são responsáveis por unir amor sem culpa, cumplicidade sem chantagem e pertencimento sem amarras. Amigos são pequenos espelhos onde não temos medo de ver nossas faces refletidas.

Isso é ser família, certo? Talvez. Mas, amigos não são desejados ou programados como filhos, eles surgem em épocas diferentes, te pegam pela mão, dão um sorriso e começam a caminhar ao seu lado. E, dessa forma, criam laços para sempre, mesmo sem saber quanto tempo o para sempre vai durar.

Surpresas da vida

A maioria de nós está sempre pronta para programar tudo, desde um cineminha durante a semana, até um casamento com anos de antecedência. Mesmo aqueles que não se consideram organizados neste sentido, também estão programados para programar.

Apesar do esforço feito para seguir o nosso roteiro, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os rumos daquilo que traçamos previamente. Queremos muitas vezes que o inesperado, de fato, traga uma surpresa. Não importa o tamanho ou o momento, se ela for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será bem-vinda.

Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Não é à toa que as surpresas serão sempre classificadas como agradáveis para alguns e bem desagradáveis para outros tantos. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante.

Surpresas, invariavelmente, vêm sempre acompanhadas por outras sensações e sentimentos, que formam um inusitado jogo de cena em que, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este salto no escuro que torne o surpreendente tão instigante.

Mas, surpresas nem sempre estão relacionadas a novidade. Somos capazes de viver por anos ao lado de pessoas, formar opiniões rígidas sobre sua forma de ser e agir, sem sequer nos permitir conhecê-las de verdade. Porém, quando baixamos a guarda e deixamos o acaso agir, podemos ser recompensados com gratas surpresas que sempre estiveram próximas, esperando apenas um sorriso acolhedor para se mostrar.

Seja em família, no trabalho ou entre vizinhos e amigos, teremos sempre aqueles que se mostram mais próximos, disponíveis e abertos e, por isso, serão os escolhidos para formar laços mais justos e relações mais estreitas. Por conta disso, acabamos deixando muitas pessoas à margem do nosso círculo de confiança e isso não segue um planejamento, simplesmente acontece.

E é justamente nesses limites, onde mora a surpresa. É ela que, de forma bem silenciosa, resolve ligar pontos, restabelecendo vínculos antigos ou simplesmente criando novas conexões de onde menos esperamos. E, literalmente, nos pega de surpresa, deixando a maioria de nós com aquela cara de bobo e o leve desconforto de quem não sabe o que fazer quando perde as rédeas da situação. E isso, quase sempre, nos coloca sob os holofotes e nos obriga a enxergar pessoas e situações sob uma ótica diferente. Tarefa fácil para alguns e terrível para outros.

Poucas coisas substituem a euforia provocada por um gesto ou notícia fora de hora. Encontrar um semi-desconhecido de longa data em uma fila demorada permite que, com calma, seja possível conhecer sua história, seus desejos e particularidades e que, ao final desse encontro, brote um sorriso em seus lábios e você pense em como, depois de tanto tempo, nunca percebeu o quanto aquela pessoa era legal. Ou ainda, como aquele irmão chato, que te irritou por décadas, pode, num estalar de dedos, mostrar uma face que a sua miopia não foi capaz de enxergar e se transformar em alguém que merece toda a sua admiração. Deliciosas surpresas que a vida nos dá, sem sombra de dúvida.

De todo modo, a surpresa estará sempre acompanhada de alguma coisa que nos move. A felicidade de um sim, a ansiedade por um aceite que demorou muito para acontecer ou a dor em descobrir algo que nos fará sofrer. Seja qual for o resultado, jamais deixaremos de desejar que aquele algo a mais apareça sem avisar e bagunce a nossa monótona programação diária. Deixando claro que, apesar de todos os nossos planos, é na surpresa que a vida se revela.

Por que eu continuo sozinho?

Ser jovem, lindo e estar pronto para tudo. Estes são desejos mais que cobiçados por uma legião de pessoas ao redor do mundo. Todos ávidos por novidades de todas as formas e jeitos. Queremos conhecer pessoas, ficar, amar, desistir e começar tudo de novo, estabelecendo um looping interminável e viciante que atende aos nossos anseios imediatos, mas que, a longo prazo, também é capaz de nos confundir. E muito.

Não é novidade que o ritmo alucinante que a vida imprime ao nosso cotidiano acaba, muitas vezes, encobrindo detalhes impossíveis de serem vistos se estivermos com pressa. Isso se aplica para toda e qualquer coisa, especialmente quando se trata de amor. A todo tempo queremos ou conhecemos alguém que quer alguém. Mas com tanta gente no mundo, por que essa tarefa é tão difícil?

Podemos culpar o outro por não ser capaz de preencher a nossa detalhada lista de pré-requisitos e, na verdade, fazemos isso com frequência. Assim, criamos uma desculpa aqui e outra ali, para continuarmos dizendo que a busca por um amor não está fácil para ninguém. Dessa forma, seguimos em frente e em velocidade máxima, olhando para os lados vez ou outra, buscando perfis aleatórios que podem, quem sabe, se candidatar ao posto de grande amor das nossas vidas. Enquanto isso…

Mesmo sendo complicado, a maioria de nós já perseguiu o modelo de amor idealizado e, certamente, quebrou a cara. O que é ótimo pois, se não te fez entender que o ideal só existe em romances, com certeza serviu para criar uma memória sobre o que não fazer no próximo relacionamento. Por vezes, na ânsia de encontrar alguém para chamar de seu, deixamos aquela lista surreal de lado e só focamos no que vemos superficialmente. Se gostarmos, muito bem, vamos ver onde vai dar. Só que, com isso, não percebemos todos os sinais de alerta que indicavam: Pare! Não siga em frente! Pegue a próxima saída… Bom, o resultado disso já sabemos bem qual é.

A grande questão é que não estamos falando apenas sobre como as oportunidades, ou a falta delas, podem passar discretamente por nós. O que não nos damos conta, é que o tempo também passa por cima de nós, como um rolo compressor implacável e, com ele, não podemos brincar de roda gigante. Isso cria um estilo de vida, no mínimo, intrigante. Juntamos na mesma equação a nossa urgência pelo quero e quero agora, com o tempo que corre a passos muito largos e isso cria um desafio monumental para todos nós. Talvez seja essa a grande cilada. Sentir-se livre para todas as experiências possíveis, mas esquecendo que a realização de todas elas, é apenas, uma ilusão.

Em algum momento, você irá se perguntar o porquê de estar sozinho e milhares de respostas irão surgir. Estar, de alguma forma, ligado a um amor antigo, ter algum receio de novas experiências ou simplesmente não querer compromisso, uma vez que seu bem mais precioso é a liberdade de escolher onde, quando e com quem estar. Independente do motivo, estar sozinho não significa estar abandonado. Longe disso. É possível que se tenha muito a aprender sobre essa nova forma de viver e, não é por acaso, que frequentemente nos sentimos num limbo onde, a obrigação de ter alguém é tão forte quanto o desejo pela liberdade de estar só.

Contradições à parte, o que todos nós queremos é estar bem e compartilhar explosões de felicidade. Dito dessa forma parece simples, o problema é escolher quais são os caminhos que nos conduzem até lá. Nesse meio tempo, vamos experimentando diversos estilos, que variam entre estar a sós, pessimamente acompanhados, bem acompanhados e solitários e, até mesmo, estarmos muito bem acompanhados e felizes. Definitivamente não há formula certa, por isso, se até agora você não conseguiu responder por que continua sozinho, tudo bem. Vamos seguir tentando, afinal, ninguém disse que seria fácil.

Respeito é bom e eu gosto!

Muito se fala sobre o respeito à diferença nos dias atuais. O que é um caminho cheio de espinhos, uma vez que estamos afundados em um período onde a intolerância e indiferença se esparramam de forma sorrateira em grande parte das relações. O que torna bastante difícil saber o que os outros pensam de fato. Se agem de forma verdadeira ou se passam a vida fazendo pose.

Entendo que ser intenso e muito elaborado o tempo todo é difícil e, por vezes, cansativo, mas o contrário também não parece ser atraente. Ser superficial, tampouco é garantia de uma vida sossegada. A grande questão aqui, está relacionada aos extremos. Nos encaminhamos, cada vez mais, para os frios pólos de comportamento, esquecendo que o caminho do meio é sempre mais morno, agitado e diverso.

Com isso, vemos intelectuais achando a massa ignorante, enquanto os bem informados pelas redes sociais juram que sabem demais e, assim, seguimos apontando o dedo para tudo e todos, cobertos de razões muito particulares, mas que quase sempre fazem muito pouco sentido, uma vez que só o seu lado da moeda é o correto.

Essa polarização cria um efeito dominó bem perverso. Se por um lado, nos tornamos radicais na forma de pensar e agir, por outro, passamos a desmerecer tudo que é diferente da nossa forma de ver o mundo. Isso pode ser o combustível que não apenas inflama, mas traz à tona sentimentos e emoções que passamos a vida inteira tentando negar e que, não por acaso, nos surpreendemos ao constatar que, apesar de não admitir, também somos afetados por eles. Com isso, damos forma e força a pensamentos e práticas que excluem e isolam, desprezando algo que temos de precioso, a nossa capacidade de amar.

Levantar bandeiras e defender causas em que acreditamos faz parte do nosso papel na sociedade, porém, usar esses direitos para suprimir opiniões e ideias alheias, como se fossem menos importantes, além de leviano, é tolo.

Nesse mundo onde as conexões não conhecem mais limites, é praticamente impossível ouvir, ler e apreender todas a informações que nos bombardeiam segundo a segundo. O que nos força a fazer pequenos recortes da realidade que, infelizmente, estabelecemos como verdade absoluta. Dessa maneira, ficamos em meio a um fogo cruzado onde todos falam, falam mas, no fim, tem muito pouco a dizer.

O que não significa, com isso, que tenhamos que elaborar teses sobre qualquer assunto, afinal, a vida não nos permite acesso irrestrito a tudo, mas podemos começar pelo básico. Saber ouvir e querer ouvir. E, só então, decidir qual rumo seguir. É um exercício difícil, mas urgente em tempos de imediatismo dominante.

Voltando ao ponto de partida, como é possível perceber e respeitar as diferenças se, sequer damos chance para conhecer o que está fora da nossa, muitas vezes limitada, zona de conforto? Simples. Basta estar disponível. Gostar de tudo não é uma meta a ser batida. Fazemos escolhas que mudam com o passar do tempo, mas se há algo que não deveria ser suscetível a mudanças, é o respeito pelas escolhas do outro.

Este talvez seja o nosso maior desafio futuro. Perceber que aquilo que nos diferencia não pode, de forma alguma, ser um problema. A ignorância, preconceito e a intolerância são alimentadas pelo desrespeito. Por isso, todas as vezes que, sem nenhum motivo ou razão, julgarmos alguém com base no nosso desconhecimento, devemos sempre ter em mente que, se hoje somos o arco e flecha, qualquer dia desses, certamente, seremos o alvo.

Não sou obrigado a nada

Não sou obrigado a nada! Perdi as contas de quantas vezes disse ou ouvi essa, que não é, uma simples frase. Por trás dessa exclamação há um enorme desejo de libertação.

Dizer isso, na grande maioria das vezes, não muda em nada as nossas rotinas. Continuamos a seguir uma série de obrigações, algumas compulsórias, outras nem tanto, mas quando a pressão aumenta demais, negamos imediatamente as nossas regras, buscando por um certo alívio para a pesada rotina do dia a dia.

Quando jovens, repetimos à exaustão que só faremos algo quando e como quisermos… Doce ilusão juvenil. De qualquer forma, é nessa etapa que encaramos um sem número de obrigações que vão desde a arrumação do quarto, passando por tarefas escolares, até chegarmos ao mercado de trabalho onde, fora da tutela familiar, seremos massacrados por muitos mandos e alguns desmandos de toda parte.

Cada um de nós vai aprender, do seu jeito, a lidar com essa realidade. Alguns sofrem mais, outros menos, mas, sem dúvidas, esse é um processo para lá de pedagógico e que nos permite enxergar com mais clareza que, independente da nossa vontade, as obrigações serão nossas parceiras frequentes e habituais até o nosso fim.

E isso é ruim? Não acho. Temos por hábito, relacionar nossas obrigações a algo negativo, sem graça ou emoção. O que não é verdade. Quem nunca, ao tentar demonstrar que fez algo incrível, esperava receber um elogio mas, ao invés disso, ouviu: você não fez mais do que a sua obrigação! Nesse exato instante, somos levados a crer que tudo aquilo que fomos obrigados a fazer, jamais será reconhecido ou premiado. Talvez seja por isso que dificilmente associamos o prazer da conquista as nossas atitudes rotineiras. O que é um grande equívoco.

É comum ouvir algumas pessoas reclamando sobre suas obrigações diárias, estejam elas relacionadas a casa ou ao trabalho. Entretanto, muitos outros celebram o trabalho que executam e, quase sempre, afirmam sentir muito prazer ao desempenhar suas funções. Mas o que há de diferente nos dois casos? Ambos seguem cartilhas semelhantes que incluem acordar cedo, trabalhar duro e tocar as coisas boas e ruins que a vida os oferece. Então, o que os diferencia?

Me permito um palpite. Quanto mais cedo aprendemos que é possível, sim, ter êxito ao desempenhar ações comuns, sem maiores emoções, torna-se mais fácil compreender que o prazer da realização também está presente nas obrigações que repetimos por anos e anos.

Por outro lado, quando gritamos aos quatro ventos que não somos obrigados a nada, mesmo que não seja uma verdade absoluta, estabelecemos limites importantes para nós e para quem nos cerca. O que significa dizer que barreiras como o respeito, consideração e amor próprio, estarão sempre prontas para impedir que sejamos forçados a fazer o que não queremos. E isso é maravilhoso.

No fim das contas, sempre teremos inúmeras obrigações e, à medida que as compreendemos como parte de nós, seu peso se torna bem mais leve e a caminhada, mais suave. Dessa forma, sempre que alguém disser que não fazemos nada além de nossas obrigações, tudo bem, afinal, se há uma coisa da qual não somos obrigados, é acreditar que somos limitados.