A difícil arte da escolha

Todos os dias somos obrigados a tomar decisões. Levantar ou dormir por mais cinco minutinhos? Pegar o trem ou o metrô? Terminar um relacionamento? Trocar ou não de emprego? Experimentamos múltiplas sensações a cada vez que precisamos dizer sim, não ou talvez. Às vezes pode ser fácil decidir entre casar ou comprar um bicicleta, porém, em vários outros momentos, as decisões podem virar sua vida de ponta-cabeça.

Independentemente do desejo de cada um, as decisões pairam sobre as nossas cabeças, implorando por definições de nossa parte. O que provoca uma certa ansiedade, pois sabemos que as decisões mudam de acordo com o tempo que levam para serem tomadas. Nesse caso, é importante saber o quanto estamos disponíveis e interessados em lidar com as inevitáveis mudanças que acompanham as escolhas.

Ao jogarmos pedras em um lago, observamos a formação de pequenas ondas circulares e, dependendo da força do arremesso, essas ondas serão maiores e chegarão mais longe. O mesmo acontece quando fazemos escolhas. Algumas decisões podem criar movimentos bastante abrangentes, enquanto outras sequer são sentidas, mas é importante ter em mente que decisões tomadas são capazes de mudar rumos, opiniões e pessoas… sempre.

Quem dera fosse apenas a nossa pedra a ondular o espelho d’água. Um sem número de pessoas executa a mesma ação, o tempo todo. O que significa dizer que nós também somos afetados pelas ondas provocadas por decisões alheias. E isso nos faz viver dilemas diários onde precisamos conciliar aquilo que decidimos com os reflexos das decisões de outros.

Esta é uma equação dificílima e seu resultado pode pautar não apenas as escolhas que fazemos, mas também, a vida que levamos. Decidir-se nem sempre é algo que se aprende voluntariamente. Os pais fazem escolhas por seus filhos, professores por seus alunos e parceiros de vida também o fazem com frequência. O que me parece normal, mas a grande questão é: qual é o limite entre controlar suas decisões ou deixar que outros façam isso por você?

Definitivamente, este não é um horizonte claro e definido. Por vezes decidimos. Por vezes decidem por nós. Simples assim? Talvez seja, mas é difícil afirmar, uma vez que mudamos muito à medida que o tempo passa. Normalmente erramos muito nas escolhas e, quando jovens, isso até pode ser um problema mas, lá na frente, seremos gratos por muitas das decisões tortas que tomamos ou que permitimos que outros tomassem por nós.

Essa também é uma época onde nos arriscamos com frequência. Assumimos riscos, não apenas nas escolhas que fazemos, mas também na forma como autorizamos a influência de outras personalidades sobre as decisões que deveriam ser apenas nossas.

O tempo passa e as escolhas ruins deixam marcas. Passamos a perceber, com mais cuidado, aqueles que interferem no ir e vir de nossas decisões e assim nos tornamos mais autônomos e conscientes do que pode ser melhor ou pior para nós. O que de forma alguma, significa dizer que a maturidade só trará boas decisões. A maturidade traz, inclusive, a segurança para escolher aquilo que aparentemente pode ser uma grande roubada, mas que agora podemos, conscientemente, pagar para ver.

Não importa se é uma pessoa proativa e cheia de certezas ou aquela que usa a previsão do signo para definir a cor da roupa que usará, uma verdade única une estes dois perfis: ambos precisam escolher de que forma irão encarar a vida e isso, independente da trajetória de cada um, sempre será uma decisão pessoal e intransferível.

 

Vida de gente grande

Durante a infância, queremos que o tempo passe depressa mesmo sem saber ao certo o porquê. Quando adolescentes, continuamos impacientes, criamos fantasias sobre como será a vida adulta e mil ideias românticas acerca da tão desejada independência tomam conta dos nossos pensamentos.

Até que um dia a tal vida de gente grande chega com o pé na porta e, como um rolo compressor, anuncia que as regras irão mudar a partir daquele momento. Alguns sonhos terão de esperar, desafios surgirão diariamente, corações serão partidos com certa frequência e que o seu tempo será seu maior e mais precioso bem.

Visto dessa forma, crescer parece um pesadelo, mas não é. Ser gente grande pode até não ser um conto de fadas feliz, mas está longe de ser um sonho ruim. Transformações deixam marcas, mas quem disse que isso não é bom?

Sem perceber, nos tornamos adultos. Isso nos obriga a atuar em tantas frentes que a sensação de estar em muitos lugares ao mesmo tempo é constante. Somos um original capaz de se multiplicar em inúmeras cópias por uma única razão: não damos conta do recado o tempo todo. Por este motivo, voltamos a ficar impacientes com o tempo, agora pelo motivo oposto. Desejamos desesperadamente que ele diminua seu compasso e que não passe tão depressa.

Nesse ritmo intenso, os dias passam como se fossem minutos e os anos parecem fluir como se fossem semanas. Isso cria uma espécie de ciclone cronológico que nos confunde imensamente e de tal forma, que chega a alterar a nossa percepção sobre o tempo, estabelecendo confusões mentais que nos fazem questionar o que passamos, quando e com quem. Coisas do tipo: Aquele encontro com os amigos aconteceu há um mês, certo? Errado. Foi há três meses. A melhor viagem da sua vida foi há dois anos. Não, foi há 4 anos. Seu filho, que nasceu “outro dia desses”, se transforma em uma pessoa diferente a cada dia e bem diante dos seus olhos… Estas são provas incontestáveis do poderoso ritmo que a vida adulta nos impõe.

Para ser gente grande é preciso fazer parte de um esquema complexo. Entender que seu ritmo e seu tempo avançam com passadas bem largas, fazem algumas pausas que permitem um descanso rápido para, em seguida, retomarem sua jornada acelerada e sem rumo certo.

Às vezes tenho a impressão de que o tempo acelera sempre que tomamos decisões. Pense em todas as vezes que decidiu começar alguma coisa, um curso novo ou um novo trabalho. Basta iniciar algo para perceber que o tempo corre mais rápido e, quando nos damos conta, anos se passaram e sequer somos capazes de distinguir o que de fato aconteceu naquele período.

A espera e a dúvida que precedem decisões criam um estado de animação suspensa. A tomada de decisão libera as amarras do tempo. Dessa forma, seguimos apressados, tentando entender o que houve conosco desde que nos tornamos “donos do próprio nariz”. Raramente temos a sorte de compreender esse processo, mas de um jeito ou de outro, sabemos que, independente do que conseguimos apreender da vida, seguiremos em frente, ansiosos pela próxima surpresa.

Crescer e aprender a viver é, sem sombra de dúvida, uma daquelas aventuras que conhecemos apenas o ponto de onde partimos. Por isso fazemos planos sem saber se serão realizados. Nos apaixonamos sem garantias. Sonhamos inúmeras vezes. Abandonamos alguns sonhos pelo caminho, mas realizamos outros tantos. Ser adulto requer, acima de tudo, resistência.

Sabemos que o tempo muitas vezes levará consigo informações preciosas, mas não podemos perder de vista que a correria, em algum momento, se transformará em caminhada, que as imagens borradas por conta do excesso de velocidade, voltarão a ter forma, textura e definição. Neste momento finalmente percebemos que tudo aquilo que vivemos ficou registrado, que nada foi em vão e que, a partir desse ponto, as experiências acumuladas nos permitirão, enfim, entender como foi boa a vida de gente grande.

Nem tudo que reluz é ouro

O que de fato enxergamos quando olhamos ao nosso redor? Incontáveis detalhes de coisas e pessoas, certamente. Mas por que não conseguimos reter essas imagens por muito tempo? Difícil dizer, porém, sabemos que nem tudo nos passa despercebido. Alguns detalhes acabam preenchendo a nossa vista, provocam sensações agradáveis e, por conta disso, criamos uma seletividade no olhar e na forma de interagir com o mundo.

Sim, desenvolvemos um olhar seletivo para tudo e para todos desde sempre, embora muitos sequer percebam que, cotidianamente, fazem uso de inúmeras lentes, prontas para um ajuste de foco, de acordo com a paisagem à sua frente. Trocando em miúdos, só enxergamos com cuidado, aquilo que instantaneamente julgamos como belo e interessante. O que cria um padrão de comportamento, no mínimo, peculiar.

Compramos livros e revistas pela capa e veneramos as imagens perfeitamente alteradas de celebridades. Perseguimos o ideal de beleza que, como todo e qualquer conceito idealizado, não existe. Julgamos as pessoas apenas por seu modo de vestir e queremos, quase sempre, fazer parte do elenco que frequenta as festa onde só encontraremos gente bonita…

Esse modo de agir estabelece uma polarização onde o que considero bonito, quero por perto e o que for feio, por favor, mantenha uma distância segura. E, entre um pólo e outro, há um milhão de coisas e pessoas buscando um grupo para chamar de seu. Adivinhem em qual lado a maioria desejará estar?

Se o nosso olhar parcial e seletivo cria focos e interesses bastante estreitos, é preciso ter em mente que deixaremos de perceber um universo de possibilidades à nossa volta e que, nós também seremos ignorados pelo radar de tantos outros. Nesse jogo, estaremos sempre incluindo e sendo incluídos, excluindo e sendo deixados de fora do campo de visão de outras pessoas.

Aparências. Vivemos em uma roda viva moderna onde a embalagem se estabelece como um modelo a ser seguido. Já o conteúdo… Bom, este torna-se, cada vez mais, um produto secundário. Em épocas onde belas imagens sem significado e relevância são a chave para o sucesso, qualquer coisa que tome mais de cinco minutos de atenção, não parece ter muita graça.

Então, como fazer para ser notado? De acordo com as forças que regem os dias de hoje, se o seu objetivo é ter audiência, torne-se quem você não é. Para isso não é preciso muito esforço. Basta ter fotos bem estudadas, filtros milagrosos e horários certos para postagens. Pronto! Está criado um avatar bem sucedido que viverá eternamente feliz entre curtidas e compartilhamentos.

Porém, o mundo virtual não é o único a viver de aparências. Puxem pela memória que, certamente, se lembrarão daqueles personagens que contam vantagens imaginárias ou são capazes de sacrifícios desnecessários, que tem como único objetivo, ser um rascunho mal feito de uma obra original. E isso é bem triste.

Para ser, é preciso ter verdade. Não há mal algum ter espelhos para mirar, o problema é desejar que eles reflitam uma imagem que não é a sua. Perde-se muito tempo e energia tentando ser quem não é.

É impossível estar atento a tudo que se passa diante dos nossos olhos e, tomar decisões baseadas apenas em um primeiro olhar, pode ser muito raso. É preciso se permitir segundos olhares. Estes sim são capazes de enxergar, sem pressa e sem padrões, a verdade sobre as coisas e pessoas que nos cercam.

Sobre influências e escolhas

Existem poucos momentos em nossa jornada onde conseguimos olhar ao redor e perceber onde estamos, o que estamos fazendo, como fazemos e quem são as pessoas que escolhemos para dividir experiências. Geralmente engatamos a primeira marcha e iniciamos uma subida sem saber muito bem onde chegaremos.

A nossa personalidade e as escolhas que fazemos sempre determinam a forma e o ritmo de vida que teremos. Algumas vezes seremos os responsáveis por isso, mas na grande maioria, o meio em que vivemos dá o tom da música que vamos dançar.

Eu sempre fiz tudo aquilo que quis, sem me deixar influenciar por ninguém… Você até pode pensar assim, mas fique certo de uma coisa: você está equivocado.

Influência. Talvez seja a ação mais difundida e sentida por todos nós. Às vezes de forma clara e impositiva, mas é em sua face velada e disfarçada que ela se expressa sem limites. Ainda não acredita? Então imagine aquele diálogo com seus pais onde, dentre outras coisas, ouve-se que não podemos comer de boca aberta e falar palavrão. Que meninas usam rosa e meninos, azul. Que o filho da vizinha ganhou um brinquedo novo porque é mais obediente e comportado que você…

Se identificou? Não? Tudo bem. Vamos relembrar a adolescência, a grande época das influências. É nesse período onde somos postos à prova de mil formas, o que significa que somos bombardeados por informações das mais variadas, que irão, sem dúvidas, ditar o nosso comportamento.

Quantas vezes ouvimos que fulano não é boa influência ou que aquela é a pessoa certa para você? As escolhas são, muitas vezes, produtos coletivos pensados por outros, mas executados por nós. O que provoca a falsa sensação de que a palavra final sobre as decisões coube exclusivamente a nós. Doce engano.

Quando adultos, percebemos que a nossa subida torna-se mais íngreme e difícil. Somos levados a escolher precocemente os nossos caminhos profissionais sem saber ao certo o porquê. Possivelmente, aquele conselho nada ingênuo, o professor incrível, o escritório da família, o teste vocacional ou a simples vontade de confrontar os anseios alheios, serão os responsáveis por indicar trajetórias a seguir.

Porém, à medida que o tempo passa, nos damos conta do papel que desempenhamos e, enfim, percebemos o peso das influências que tivemos com o passar dos anos. Nesse jogo aleatório, às vezes tiramos a sorte grande e transformamos nossas escolhas em grandes realizações. O que está longe de ser uma regra.

Quase sempre, ser mal influenciado e, por conta disso, fazer escolhas ruins é um bom aprendizado e nos força a traçar novas rotas sempre que nos deparamos com um beco sem saída. Entender e aceitar que não somos senhores absolutos de nossas escolhas não é tarefa fácil.

Ser influenciado é um fato. Todos nós somos. O tempo todo. Mas é preciso avaliar e discutir seus impactos. Influência sem crítica e contestação é, acima de tudo, manipulação.

Quando, finalmente, alcançamos o topo de nossa montanha particular, o horizonte se torna mais claro. Tomamos consciência sobre quem fomos e, sobretudo, sobre quem queremos ser daquele ponto em diante. É neste momento que constatamos que outros também foram e serão influenciados por nossos passos e assim, damos sequência a um dos ciclos mais permanentes da vida.

Influências direcionam escolhas e escolhas têm seu preço. Sabemos disso, mesmo que de forma inconsciente. Por esta razão, é preciso ter atenção aos conselhos e ideias alheias, às críticas rasas, ao que se lê nos jornais e ao que se vê na tevê. Todos nos influenciam, mas não podemos, de forma alguma, deixar que escolham por nós.

Vamos falar a verdade?

A verdade é aquilo que todos desejam saber. Brigam por ela e se desesperam quando percebem que muitas de suas conquistas foram construídas sobre pilares repletos de inverdades. Seja nas relações de trabalho, amor ou amizade, a verdade sempre é posta como um prêmio a ser disputado, conquistado e cobrado… do outro.

Vivemos tempos sombrios onde ser verdadeiro virou artigo de luxo. O que abre espaço para a criação de artigos mais acessíveis que funcionam como genéricos de baixa qualidade e eficácia: as verdades instantâneas. Elas costumam ser usadas sempre que uma atitude transparente é cobrada… pelo outro.

Você é invejoso? Já quis xingar alguém que nunca te valorizou? Traiu a confiança de quantas pessoas? Já mentiu para quem ama? Estas perguntas foram respondidas, certamente, mas fica uma dúvida. Você foi profundamente verdadeiro em suas respostas ou apenas respondeu rapidamente para satisfazer a vontade do outro, se livrar da pressão e seguir em frente?

Se seu desejo foi sair pela tangente, com respostas curtas que dão conta de corresponder as expectativas alheias, parabéns, você é mais um usuário daqueles atalhos que são ditos e que até podem ser verdadeiros, mas que não comprometem mais que o necessário.

Ser verdadeiro assumiu patamares desafiadores. Desde criança fomos ensinados a sempre dizer a verdade, doa a quem doer. Porém, em paralelo, também fomos apresentados ao estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O melhor exemplo disso é quando pegamos um deslize de nossos pais e ouvimos um “não conte isso ao seu pai” ou “a sua mãe não pode saber, ok?” Neste momento entendemos que, o que antes era absoluto, se transformou em relativo e que verdades podem ser facultativas de acordo com a ocasião.

Ao mesmo tempo que somos doutrinados a dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, também aprendemos que ela não precisa ser dita o tempo todo. Isso explica muitas coisas sobre o comportamento das pessoas…

Saber a verdade sobre o outro satisfaz a nossa curiosidade e, de certa forma, nos deixa em vantagem. Contar a nossa verdade sem filtros pode, com frequência, expor fragilidades. Assim, baseados nesse eterno jogo de xadrez, tocamos a vida fazendo escolhas. Ora queremos verdades dolorosas, ora desejamos mentiras sinceras.

Sem juízo de valor, é fato que circulamos entre dois pólos e a escolha entre ser verdadeiro ou mentiroso, dependerá de como cada um de nós conduz a própria vida. Encaramos o desafio diário que nos mostra que ser um mentiroso contumaz e viver em uma realidade distorcida, pode provocar danos severos. Assim como, expressar verdades absolutas sobre tudo e todos também provoca alguns estragos.

O que fazer então? Escolher o caminho do meio e assumir que somos dúbios na essência e, por isso, levamos os extremos dentro de nós? É uma boa saída e talvez seja a única possível. Mas é preciso cuidado. Desvios de caráter normalmente alteram a percepção do real e podem transformar pequenas verdades escondidas em desgraças monumentais.

A noção sobre ser verdadeiro foi alterada de alguma maneira. O que antes era uma forma de encarar a vida, tornou-se uma atitude quase leviana que se ocupa em dar respostas furtivas a perguntas aleatórias. O que na prática, significa dizer que só seremos verdadeiros se houver uma demanda.

A verdade não pode ser uma moeda de troca. E não é. É preciso ser verdadeiro com as posições que assumimos diante da vida. É preciso ser verdadeiro com a pessoa que decidimos ser e, acima de tudo, é necessário ser coerente nas escolhas e estar sempre atento aos caprichos da verdade.

O maior amor do mundo

Sim, o texto deste domingo será sobre e para elas. Seria muito lugar comum abordar esse tema no dia de hoje? Claro que sim, mas não existe lugar melhor nesse mundo para ficar e se aconchegar devagar, sem pressa para chegar e sem urgência para sair.

Elas simplesmente são. São únicas e ao mesmo tempo coletivas. Falar sobre elas é exaltar as coincidências e os pontos em comum a todas. As frases feitas carregadas de drama e teatralidade que ora servem para nos contrariar, ora para nos afagar profundamente, sempre nos indicarão caminhos seguros para seguir, apesar da inevitável carga dramática.

Longe de mim tentar romantizar o trabalho árduo que as torna tão essenciais. Certamente nenhuma delas faz ideia de como nos criar, transferir valores importantes, afastar do sofrimento e das inevitáveis pancadas da vida. Elas vão lá e fazem. E não é acertando que aprendem, é errando… e muito. Porém, como todas possuem um olhar muito especial que sempre enxerga além, os erros tornam-se menores. Sua visão vê nuances e definições que passam despercebidas pela grande maioria, então, se for preciso errar para que no fim suas crias estejam a salvo, tudo bem.

Podem ser jovens ou nem tanto. Podem ser bravas ou pelo menos tentam nos fazer acreditar que são. Podem parecer indiferentes e distantes e também podem nos sufocar de atenção. Não importa se vivem em grandes cidades ou em vilarejos, todas são donas de uma obviedade tão surpreendente que, muitas vezes, não nos permite prever o seu próximo passo. Mas, independente do exemplo que você tem em casa, todas têm como ponto de convergência, a capacidade de sentir o maior amor do mundo.

É difícil compreender isso. Esses seres são tão diversos e tão particulares que chegam a apresentar características super-humanas. Ao mesmo tempo que querem nos esganar por que não seguimos suas ordens em detalhes, são capazes de, no instante seguinte, olhar para nós com ternura e perguntar se estamos felizes ou não. São responsáveis por ameaças quase fatais que vão desde esfregar nossas faces em objetos que teimam em se esconder, até alardear o seu desaparecimento repentino, uma vez que ninguém percebe o seu real valor. Caprichos deliciosos que só nos deixam mais apaixonados por elas.

A natureza nos mostra como as fêmeas são capazes de desafios impossíveis para proteger suas crias. Conosco não é diferente. Lembro de quando era criança e, vez ou outra, sofria com febres frequentes e alucinantes que impediam um sono tranquilo por muitas noites. Lembrança um tanto gasta pelo passar do tempo, mas que serve para trazer de volta a memória de quando eu abria os olhos e percebia, sem muita nitidez, que alguém me segurava nos braços por horas seguidas, velando meu sono e minha saúde, me abrigando e me curando com seu amor sem limites. Ela estava lá.

É impressionante constatar a sua capacidade de armazenar amor. Imagino que todas as vezes que o estoque de amor está perto do limite, elas simplesmente estabelecem novos parâmetros para o amar, criando infinitas possibilidades e combinações. Muitas dividem seus genes como os filhos, outras agregam filhos sem semelhanças físicas óbvias, mas todas, sem exceção, compartilham seu imenso amor sem se importar com a genética. Elas amam e ponto. Seu amor não segrega, agrega.

Por que existe um dia só para elas? Para comprar presentes aleatórios e sem muita utilidade? Possivelmente. Mas, já que essa data existe, vamos tirar proveito dela. Usar esse momento para lembrar, estar e, acima de tudo, dizer a elas que não se preocupem e não se culpem. Sabemos que a jornada não foi fácil e que as vimos errar e acertar incontáveis vezes, mas tudo bem, sobrevivemos juntos. Dê beijos e abraços apertados se puder, senão, apenas olhe para ela da forma mais sincera que conseguir. Isso já será o suficiente para dizer o quanto ela foi e sempre será fundamental. Olhe para ela mais uma vez e diga, mesmo que sem palavras: eu te amo, mãe.

Solidão não é castigo

Solidão. Aquela parceira sempre presente, seja nos detalhes ou em grandes momentos do cotidiano de muita gente. Há muitas coisas a dizer sobre ela, porém, chama a atenção perceber que, para muitos, a solidão é repleta de drama e melancolia. Será que é apenas isso?

Inúmeras vezes ouvimos as queixas de pessoas próximas sobre o quanto se sentem solitárias, como é difícil se envolver com alguém ou ainda, o que uma pessoa tão legal está fazendo sozinha? A solução para isso é pessoal e intransferível mas, acima de tudo, é preciso sinceridade para encontrar as respostas…

A grande questão é que, geralmente, relacionamos nossas carências de afeto à solidão, o que é um grande equívoco. O ritmo alucinante em que vivemos nos impõe situações em que, via de regra, estamos completamente sozinhos, mesmo cercados por um mar de gente. Até aí, tudo dentro da normalidade.

Algumas horas perdidas em engarrafamentos, outras tantas dedicadas aos estudos, trabalho, atividades físicas, sono… Se contabilizarmos os dias, semanas e meses em que nos dedicamos, simplesmente, a viver nossas vidas, iremos perceber que o tempo que passamos exclusivamente na companhia de nós mesmos é consideravelmente maior do que os períodos em que nos entregamos ao convívio social. E isso é estar só.

A solidão, ao contrário do que alguns podem imaginar, traz consigo momentos de paz e reflexão, típicos daqueles dias preguiçosos em que ficamos observando a chuva bater na janela, desfrutando da companhia de muitos pensamentos e de e uma boa xícara de café. Pode parecer um cenário poético e idealizado, mas independente do panorama, sempre arrumaremos um escape terapêutico que nos ajudará a seguir em frente.

Se estar só faz parte do nosso jeito de ser e de viver, não faz sentido falar mal dos momentos solitários, certo? Meu palpite é que a solidão é como um parente distante, daqueles que conhecemos, mas nunca falamos ou lembramos de sua existência até que ele  resolva aparecer sem avisar. Neste momento, nos damos conta que a vida segue seu fluxo normal mas que, em alguns momentos, somos obrigados a tomar consciência de que caminhamos sozinhos por tempo demais.

Talvez seja no instante em que notamos nossa solitude, que passamos a buscar pares, companhias e parcerias que ajudem a preencher espaços considerados vazios. Muitas das vezes sequer pensamos em como ou com quem essas lacunas devem ser preenchidas. Dessa forma, trazemos para o nosso convívio, elementos que podem parecer adequados, mas que na verdade, são apenas rascunhos de desejos um tanto confusos.

Isso acaba por abrir brechas para aquelas relações fragmentadas, porém muito comuns, onde a intimidade dá lugar a solidão a dois. Muitas coisas foram feitas para serem compartilhadas e a solidão certamente não é uma delas. Por isso é preciso ficar atento aos sinais que a vida nos dá e aos conselhos que ouvimos desde sempre. Estar só e em paz é muito melhor do que fazer parte de um mau encontro, sem sombra de dúvidas.

É possível que agora fique mais fácil pensar que estar só é, também, uma escolha. O que não implica em uma vida sofrida e marcada por privações sentimentais. Quem disse que ir ao cinema sozinho ou sentar à mesa de um restaurante sem um par é sinal de abandono? Essas são distorções muito comuns com as quais nos habituamos, mas que de forma alguma, devem ser consideradas como um padrão a ser seguido.

Estar só pode ser apenas um querer. Estar só não é sinal de tristeza, derrota ou abandono. O olhar do outro pode colocá-lo no lugar do pobre coitado, isolado e sofrido. Mas isso, definitivamente, não deve ser levado em conta. Não se pode depositar o nosso próprio bem-estar sobre os ombros de quem quer que seja. É preciso ter em mente que a solidão não é castigo.

Amar é bom. Ter família e amigos é melhor ainda. Mas é primordial entender que na maioria das vezes, estar só, também é estar em excelente companhia.

Mudar é preciso

Mudanças… poucas coisas na vida são tão desejadas e, ao mesmo tempo, tão difíceis de realizar. Quando criança, pensamos em como será nossa vida quando nos tornarmos grandes. Adolescentes pensam em como será quando alcançarem a maioridade. Jovens adultos querem se formar, ganhar dinheiro e consumir tudo o que puderem. Quando mais velhos, cuidaremos dos filhos e de um ou dois cachorros. E, quando finalmente começarmos a esquecer as nossas memórias, mais vontade teremos de lembrar de todas as transformações que a vida nos proporcionou.

Parece um tanto contraditório, mas é um fato. Nascemos e crescemos desejando mudanças e, à medida que envelhecemos, não temos mais tanta clareza se as nossas transformações foram reais ou apenas desejos não realizados. De toda forma, a ânsia por mudanças nos movimenta. Não fomos talhados para fazer parte de uma cena onde o cenário e os personagens à nossa volta não mudam. Precisamos sempre de novas cores e sabores.

Então, por que passamos por situações onde sabemos que a mudança é um caminho óbvio, mas, ainda assim, é dificílimo romper certos laços? Muitas vezes, as barreiras que temos à nossa frente são, na verdade, caprichos egoístas da nossa mente que, por não conseguir escolher uma rota de fuga, decide se manter inserida em uma incômoda zona de conforto.

Mudar requer alguns complementos importantes como: coragem, vontade, decepção, necessidade… Independente do estímulo, mudar é preciso. Alguns conseguem com mais facilidade, outros enlouquecem só de imaginar uma mudança, por menor que seja, em seu rígido planejamento de vida. É compreensível. Mudanças não trazem apenas uma alteração de rota. Algumas exigem que coisas ou pessoas que já foram muito importantes no passado sejam retiradas de cena, permanentemente. E isso pode doer… mas passa.

De uma maneira geral, mudar promove transformações que enchem o peito de emoções que se misturam em doses e intensidades não programadas. Daquelas que vão desde o frio na barriga por algo novo e desafiador, até a tristeza por não saber como será o futuro após uma perda inesperada. Escolhas provocam mudanças. A falta delas também.

Pensar em mudar nos possibilita trocar de lugar e identidade, nem que seja por alguns instantes. Criamos cenas, escolhemos trilhas sonoras e companhias especiais para dar vida a alguém que poderíamos ter sido se, por acaso, tivéssemos seguido por caminhos diferentes daqueles que escolhemos tempos atrás. Nada além de projeções abstratas, mas que cumprem o importante papel de nos mostrar que, apesar da realidade em que vivemos, o mundo está cheio de possibilidades e novos caminhos, basta transformá-los em mudanças.

Porém, mudar não está restrito apenas a anseios individuais. Muitas mudanças são mais desejadas e mais festejadas quando são partilhadas por muitos. Nossas escolhas individuais não afetam apenas o nosso pequeno grande mundo. Coisas que pensamos podem impactar o cotidiano de um número imprevisível de pessoas, como votar, doar roupas, ir ao cinema com as crianças, atrasar uma reunião. De um jeito ou de outro, as nossas ações provocam mudanças em outras histórias, assim como o desejo de outras pessoas também mexe com nossos planos pré-estabelecidos.

Quando mudamos, todos à nossa volta sentem. Pequenos gestos podem parecer insignificantes para alguns, mas podem criar um fluxo capaz de conduzir nossas vidas por caminhos impensados. O que cria um movimento aleatório que promove mudanças em todas as direções, possibilitando encontros, desencontros, surpresas e decepções.

De todo modo, mudanças, mesmo que sejam necessárias, só acontecem quando, finalmente, sentimos o desconforto em ocupar um lugar que, definitivamente, não é mais nosso.

Mais amor, por favor

Os últimos tempos não têm sido fáceis para nenhum de nós. Somos bombardeados por um sem número de atrocidades dia após dia. Perdemos espaços e direitos. Perdemos pessoas. Perdemos amor. Estamos estacionados em uma época onde as perdas parecem ser maiores do que tudo aquilo que ganhamos. Independente da nossa percepção sobre isso, uma coisa é certa, sofremos todos.

O mundo nos desafia a todo instante, colocando limites à prova, nos mostrando que a tolerância ao sofrimento pode ser sempre um pouco mais flexível. Vivemos imersos em uma escala que mede, de forma perversa, a nossa capacidade em sentir medo, tristeza e dor. É difícil dizer como cada um de nós percebe isso, mas há algo que, aos poucos, vamos deixando de sentir e de aplicar em nosso cotidiano. Ser demasiadamente tolerantes pode provocar efeitos colaterais devastadores que só nos damos conta quando percebemos que nos falta amor para compartilhar.

Estamos endurecendo, apesar de falarmos o tempo todo que o bom da vida é ser feliz e que esse é um bem a ser conquistado a todo e qualquer custo. A felicidade fabricada em comerciais de tevê impõe que estejamos sempre cercados por pessoas lindas e incríveis, que ostentam sorrisos brilhantes e congelados. O ser feliz acima de tudo não permite reflexões ou perturbações.

À medida que o complicado mundo real nos apresenta um sofrimento diário que parece não conhecer limites, nos vemos obrigados a desenvolver subterfúgios que nos permitam seguir em frente. Talvez seja por isso que aceitamos com facilidade a ideia de vivermos em um mundo irreal onde tudo é divino e maravilhoso. Dessa forma, ficamos tão envolvidos com as nossas escolhas que, provavelmente, deixaremos de entender cada vez mais,  sobre aquilo que se passa atrás dos muros do nosso frágil castelo de cartas.

O significado disso é muito simples. Estamos nos tornando insensíveis. Crimes hediondos, corrupções grandes e pequenas, desrespeitos por toda parte. Nada disso parece surtir efeito sobre a maioria das pessoas. Caminhamos anestesiados sem saber bem para onde vamos. Nos habituamos a conviver com a frequência do mal em nosso dia a dia. O que acaba por alterar nossa percepção sobre o que é bom e ruim. Banalizamos a dor e os problemas do outro e, em contrapartida, exaltamos tudo que supostamente nos faz feliz. Esse padrão de comportamento cria um universo paralelo que é, ao mesmo tempo, liberdade e prisão. E isso é terrível…

Tudo isso me faz pensar sobre a empatia. Muitas são as nossas virtudes, mas a empatia é, sem dúvidas, uma da mais incríveis. É ela que nos permite trocar de lugar com quem é diferente de nós. Que não nos deixa esquecer que as posições mudam, que as ideias mudam e que, acima de tudo, somos capazes de mudar a partir das experiências do outro. Perder essa capacidade nos cega e empobrece imensamente.

Vivemos tempos que exigem que estejamos sempre plenos. Praticamente nos obrigando a, sempre que possível, exibir com orgulho, a forma como queremos ser vistos e admirados. É bem provável que por conta disso, a felicidade egocentrada tenha se transformado em um status quase obrigatório. Se sou feliz, a dor alheia não me interessa. Se sofro, a felicidade dos outros não me importa. Assim, a ausência de empatia, se torna um caminho fértil para a apatia. O que é uma pena.

Olhar o mundo através de uma máscara de indiferença, ao contrário do que se pensa, nos impede de ser verdadeiramente felizes. Porém, quando escolhemos enxergar sem filtros, percebemos que, à altura dos nossos olhos, os detalhes são mais vivos, as pessoas são mais próximas e que os problemas, assim como a felicidade, fazem parte do caminhar. Que amar e ser bom fazem diferença, assim como se interessar por quem é diferente de nós. Amar é bom e, ser bom é, sim, melhor que ser, ordinariamente, feliz.

Não espere tanto de mim

Desde muito, muito cedo, seguimos planos que alguém traçou para nós. E esse alguém, por sua vez, também segue uma cartilha que é compartilhada por muitos outros que vieram antes dele. Isso significa que, mesmo sem perceber, mantemos um padrão pré-determinado que, de acordo com a época, pode ser chamado de tendência, modinha ou estilo de vida. Não importa. O fato é que nossas atitudes, geralmente, seguem um roteiro prévio e socialmente estabelecido.

Muitos poderão pensar, “comigo, não!”, certos de que fazem parte de uma minoria capaz de romper com um sistema e tocar suas vidas segundo suas próprias convicções… Será possível?

De um jeito ou de outro, todas as vezes que desempenharmos papéis que já foram encenados por outros atores, estaremos eternamente sujeitos a comparações e, acima de tudo, seremos alvos certeiros da expectativa alheia. E isso pode ser bem chato.

Alguns exemplos são clássicos. Se estamos na escola, esperam que sejamos os melhores e que passemos de ano com louvor. Na faculdade, precisamos escolher as melhores profissões, o que na verdade é sinônimo de “escolha uma coisa que te faça ganhar dinheiro”. Se é um solteiro convicto, será motivo de piadas. Se passou dos trinta e não tem filhos, certamente tem problemas. Se troca de amores com frequência é… bem, é alguém que não é sério. Se muda de profissão, é instável e, se não se enquadra em nenhum padrão, é um caso perdido.

O peso dessas cobranças varia de acordo com a resistência de quem as suporta, mas é inegável que, em muitos momentos, o olhar do outro sobre quem somos e sobre o que fazemos pode ser massacrante. O lado curioso dessa situação é que só nos damos conta dessa patrulha quando nós somos o alvo mas, convenientemente, nos esquecemos que, por várias vezes, pode ser nosso, o dedo que aponta e faz cobranças.

Mas por que se ocupar tanto com a vida alheia, cobrando posturas e fazendo projeções sobre coisas com as quais não temos nada a ver? Difícil responder porque simplesmente não existe uma razão sensata para isso. Talvez isto se deva ao conjunto formado pela admiração, frustação e inveja que sentimos pelo outro, aliado a um bocado de tempo sobrando.

Acima de tudo, gastamos tempo e energia esperando que os outros se comportem com base em nossos delírios e, assim, deixamos de prestar atenção ao que é realmente importante. Nossa própria vida. Nossos anseios. Nossas conquistas.

O que pode, com frequência, gerar um descontentamento que é só nosso, uma vez que idealizamos coisas, pessoas e comportamentos que são reais apenas em nossas cabeças. Isso, via de regra, cria uma certa confusão, pois cobramos de alguém, algo do qual ela não faz a menor ideia. Dessa forma, criamos linhas que dificilmente se encontram onde, de um lado temos a expectativa e do outro, a realidade.

De todo modo, é preciso ficar atento aos detalhes. As experiências de vida criam filtros que aumentam a nitidez do nosso olhar sobre o outro. Isso quer dizer que, quanto maior for a nossa percepção da realidade, menor será a ansiedade provocada por uma expectativa sem fundamentos. Isso pode nos poupar tempo e sofrimento e, o melhor de tudo, nos autoriza a dizer, para nós e para quem quer que seja, que, por favor, não espere tanto de mim.