Surpresas da vida

A maioria de nós está sempre pronta para programar tudo, desde um cineminha durante a semana, até um casamento com anos de antecedência. Mesmo aqueles que não se consideram organizados neste sentido, também estão programados para programar.

Apesar do esforço feito para seguir o nosso roteiro, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os rumos daquilo que traçamos previamente. Queremos muitas vezes que o inesperado, de fato, traga uma surpresa. Não importa o tamanho ou o momento, se ela for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será bem-vinda.

Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Não é à toa que as surpresas serão sempre classificadas como agradáveis para alguns e bem desagradáveis para outros tantos. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante.

Surpresas, invariavelmente, vêm sempre acompanhadas por outras sensações e sentimentos, que formam um inusitado jogo de cena em que, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este salto no escuro que torne o surpreendente tão instigante.

Mas, surpresas nem sempre estão relacionadas a novidade. Somos capazes de viver por anos ao lado de pessoas, formar opiniões rígidas sobre sua forma de ser e agir, sem sequer nos permitir conhecê-las de verdade. Porém, quando baixamos a guarda e deixamos o acaso agir, podemos ser recompensados com gratas surpresas que sempre estiveram próximas, esperando apenas um sorriso acolhedor para se mostrar.

Seja em família, no trabalho ou entre vizinhos e amigos, teremos sempre aqueles que se mostram mais próximos, disponíveis e abertos e, por isso, serão os escolhidos para formar laços mais justos e relações mais estreitas. Por conta disso, acabamos deixando muitas pessoas à margem do nosso círculo de confiança e isso não segue um planejamento, simplesmente acontece.

E é justamente nesses limites, onde mora a surpresa. É ela que, de forma bem silenciosa, resolve ligar pontos, restabelecendo vínculos antigos ou simplesmente criando novas conexões de onde menos esperamos. E, literalmente, nos pega de surpresa, deixando a maioria de nós com aquela cara de bobo e o leve desconforto de quem não sabe o que fazer quando perde as rédeas da situação. E isso, quase sempre, nos coloca sob os holofotes e nos obriga a enxergar pessoas e situações sob uma ótica diferente. Tarefa fácil para alguns e terrível para outros.

Poucas coisas substituem a euforia provocada por um gesto ou notícia fora de hora. Encontrar um semi-desconhecido de longa data em uma fila demorada permite que, com calma, seja possível conhecer sua história, seus desejos e particularidades e que, ao final desse encontro, brote um sorriso em seus lábios e você pense em como, depois de tanto tempo, nunca percebeu o quanto aquela pessoa era legal. Ou ainda, como aquele irmão chato, que te irritou por décadas, pode, num estalar de dedos, mostrar uma face que a sua miopia não foi capaz de enxergar e se transformar em alguém que merece toda a sua admiração. Deliciosas surpresas que a vida nos dá, sem sombra de dúvida.

De todo modo, a surpresa estará sempre acompanhada de alguma coisa que nos move. A felicidade de um sim, a ansiedade por um aceite que demorou muito para acontecer ou a dor em descobrir algo que nos fará sofrer. Seja qual for o resultado, jamais deixaremos de desejar que aquele algo a mais apareça sem avisar e bagunce a nossa monótona programação diária. Deixando claro que, apesar de todos os nossos planos, é na surpresa que a vida se revela.

Por que eu continuo sozinho?

Ser jovem, lindo e estar pronto para tudo. Estes são desejos mais que cobiçados por uma legião de pessoas ao redor do mundo. Todos ávidos por novidades de todas as formas e jeitos. Queremos conhecer pessoas, ficar, amar, desistir e começar tudo de novo, estabelecendo um looping interminável e viciante que atende aos nossos anseios imediatos, mas que, a longo prazo, também é capaz de nos confundir. E muito.

Não é novidade que o ritmo alucinante que a vida imprime ao nosso cotidiano acaba, muitas vezes, encobrindo detalhes impossíveis de serem vistos se estivermos com pressa. Isso se aplica para toda e qualquer coisa, especialmente quando se trata de amor. A todo tempo queremos ou conhecemos alguém que quer alguém. Mas com tanta gente no mundo, por que essa tarefa é tão difícil?

Podemos culpar o outro por não ser capaz de preencher a nossa detalhada lista de pré-requisitos e, na verdade, fazemos isso com frequência. Assim, criamos uma desculpa aqui e outra ali, para continuarmos dizendo que a busca por um amor não está fácil para ninguém. Dessa forma, seguimos em frente e em velocidade máxima, olhando para os lados vez ou outra, buscando perfis aleatórios que podem, quem sabe, se candidatar ao posto de grande amor das nossas vidas. Enquanto isso…

Mesmo sendo complicado, a maioria de nós já perseguiu o modelo de amor idealizado e, certamente, quebrou a cara. O que é ótimo pois, se não te fez entender que o ideal só existe em romances, com certeza serviu para criar uma memória sobre o que não fazer no próximo relacionamento. Por vezes, na ânsia de encontrar alguém para chamar de seu, deixamos aquela lista surreal de lado e só focamos no que vemos superficialmente. Se gostarmos, muito bem, vamos ver onde vai dar. Só que, com isso, não percebemos todos os sinais de alerta que indicavam: Pare! Não siga em frente! Pegue a próxima saída… Bom, o resultado disso já sabemos bem qual é.

A grande questão é que não estamos falando apenas sobre como as oportunidades, ou a falta delas, podem passar discretamente por nós. O que não nos damos conta, é que o tempo também passa por cima de nós, como um rolo compressor implacável e, com ele, não podemos brincar de roda gigante. Isso cria um estilo de vida, no mínimo, intrigante. Juntamos na mesma equação a nossa urgência pelo quero e quero agora, com o tempo que corre a passos muito largos e isso cria um desafio monumental para todos nós. Talvez seja essa a grande cilada. Sentir-se livre para todas as experiências possíveis, mas esquecendo que a realização de todas elas, é apenas, uma ilusão.

Em algum momento, você irá se perguntar o porquê de estar sozinho e milhares de respostas irão surgir. Estar, de alguma forma, ligado a um amor antigo, ter algum receio de novas experiências ou simplesmente não querer compromisso, uma vez que seu bem mais precioso é a liberdade de escolher onde, quando e com quem estar. Independente do motivo, estar sozinho não significa estar abandonado. Longe disso. É possível que se tenha muito a aprender sobre essa nova forma de viver e, não é por acaso, que frequentemente nos sentimos num limbo onde, a obrigação de ter alguém é tão forte quanto o desejo pela liberdade de estar só.

Contradições à parte, o que todos nós queremos é estar bem e compartilhar explosões de felicidade. Dito dessa forma parece simples, o problema é escolher quais são os caminhos que nos conduzem até lá. Nesse meio tempo, vamos experimentando diversos estilos, que variam entre estar a sós, pessimamente acompanhados, bem acompanhados e solitários e, até mesmo, estarmos muito bem acompanhados e felizes. Definitivamente não há formula certa, por isso, se até agora você não conseguiu responder por que continua sozinho, tudo bem. Vamos seguir tentando, afinal, ninguém disse que seria fácil.

Respeito é bom e eu gosto!

Muito se fala sobre o respeito à diferença nos dias atuais. O que é um caminho cheio de espinhos, uma vez que estamos afundados em um período onde a intolerância e indiferença se esparramam de forma sorrateira em grande parte das relações. O que torna bastante difícil saber o que os outros pensam de fato. Se agem de forma verdadeira ou se passam a vida fazendo pose.

Entendo que ser intenso e muito elaborado o tempo todo é difícil e, por vezes, cansativo, mas o contrário também não parece ser atraente. Ser superficial, tampouco é garantia de uma vida sossegada. A grande questão aqui, está relacionada aos extremos. Nos encaminhamos, cada vez mais, para os frios pólos de comportamento, esquecendo que o caminho do meio é sempre mais morno, agitado e diverso.

Com isso, vemos intelectuais achando a massa ignorante, enquanto os bem informados pelas redes sociais juram que sabem demais e, assim, seguimos apontando o dedo para tudo e todos, cobertos de razões muito particulares, mas que quase sempre fazem muito pouco sentido, uma vez que só o seu lado da moeda é o correto.

Essa polarização cria um efeito dominó bem perverso. Se por um lado, nos tornamos radicais na forma de pensar e agir, por outro, passamos a desmerecer tudo que é diferente da nossa forma de ver o mundo. Isso pode ser o combustível que não apenas inflama, mas traz à tona sentimentos e emoções que passamos a vida inteira tentando negar e que, não por acaso, nos surpreendemos ao constatar que, apesar de não admitir, também somos afetados por eles. Com isso, damos forma e força a pensamentos e práticas que excluem e isolam, desprezando algo que temos de precioso, a nossa capacidade de amar.

Levantar bandeiras e defender causas em que acreditamos faz parte do nosso papel na sociedade, porém, usar esses direitos para suprimir opiniões e ideias alheias, como se fossem menos importantes, além de leviano, é tolo.

Nesse mundo onde as conexões não conhecem mais limites, é praticamente impossível ouvir, ler e apreender todas a informações que nos bombardeiam segundo a segundo. O que nos força a fazer pequenos recortes da realidade que, infelizmente, estabelecemos como verdade absoluta. Dessa maneira, ficamos em meio a um fogo cruzado onde todos falam, falam mas, no fim, tem muito pouco a dizer.

O que não significa, com isso, que tenhamos que elaborar teses sobre qualquer assunto, afinal, a vida não nos permite acesso irrestrito a tudo, mas podemos começar pelo básico. Saber ouvir e querer ouvir. E, só então, decidir qual rumo seguir. É um exercício difícil, mas urgente em tempos de imediatismo dominante.

Voltando ao ponto de partida, como é possível perceber e respeitar as diferenças se, sequer damos chance para conhecer o que está fora da nossa, muitas vezes limitada, zona de conforto? Simples. Basta estar disponível. Gostar de tudo não é uma meta a ser batida. Fazemos escolhas que mudam com o passar do tempo, mas se há algo que não deveria ser suscetível a mudanças, é o respeito pelas escolhas do outro.

Este talvez seja o nosso maior desafio futuro. Perceber que aquilo que nos diferencia não pode, de forma alguma, ser um problema. A ignorância, preconceito e a intolerância são alimentadas pelo desrespeito. Por isso, todas as vezes que, sem nenhum motivo ou razão, julgarmos alguém com base no nosso desconhecimento, devemos sempre ter em mente que, se hoje somos o arco e flecha, qualquer dia desses, certamente, seremos o alvo.

Não sou obrigado a nada

Não sou obrigado a nada! Perdi as contas de quantas vezes disse ou ouvi essa, que não é, uma simples frase. Por trás dessa exclamação há um enorme desejo de libertação.

Dizer isso, na grande maioria das vezes, não muda em nada as nossas rotinas. Continuamos a seguir uma série de obrigações, algumas compulsórias, outras nem tanto, mas quando a pressão aumenta demais, negamos imediatamente as nossas regras, buscando por um certo alívio para a pesada rotina do dia a dia.

Quando jovens, repetimos à exaustão que só faremos algo quando e como quisermos… Doce ilusão juvenil. De qualquer forma, é nessa etapa que encaramos um sem número de obrigações que vão desde a arrumação do quarto, passando por tarefas escolares, até chegarmos ao mercado de trabalho onde, fora da tutela familiar, seremos massacrados por muitos mandos e alguns desmandos de toda parte.

Cada um de nós vai aprender, do seu jeito, a lidar com essa realidade. Alguns sofrem mais, outros menos, mas, sem dúvidas, esse é um processo para lá de pedagógico e que nos permite enxergar com mais clareza que, independente da nossa vontade, as obrigações serão nossas parceiras frequentes e habituais até o nosso fim.

E isso é ruim? Não acho. Temos por hábito, relacionar nossas obrigações a algo negativo, sem graça ou emoção. O que não é verdade. Quem nunca, ao tentar demonstrar que fez algo incrível, esperava receber um elogio mas, ao invés disso, ouviu: você não fez mais do que a sua obrigação! Nesse exato instante, somos levados a crer que tudo aquilo que fomos obrigados a fazer, jamais será reconhecido ou premiado. Talvez seja por isso que dificilmente associamos o prazer da conquista as nossas atitudes rotineiras. O que é um grande equívoco.

É comum ouvir algumas pessoas reclamando sobre suas obrigações diárias, estejam elas relacionadas a casa ou ao trabalho. Entretanto, muitos outros celebram o trabalho que executam e, quase sempre, afirmam sentir muito prazer ao desempenhar suas funções. Mas o que há de diferente nos dois casos? Ambos seguem cartilhas semelhantes que incluem acordar cedo, trabalhar duro e tocar as coisas boas e ruins que a vida os oferece. Então, o que os diferencia?

Me permito um palpite. Quanto mais cedo aprendemos que é possível, sim, ter êxito ao desempenhar ações comuns, sem maiores emoções, torna-se mais fácil compreender que o prazer da realização também está presente nas obrigações que repetimos por anos e anos.

Por outro lado, quando gritamos aos quatro ventos que não somos obrigados a nada, mesmo que não seja uma verdade absoluta, estabelecemos limites importantes para nós e para quem nos cerca. O que significa dizer que barreiras como o respeito, consideração e amor próprio, estarão sempre prontas para impedir que sejamos forçados a fazer o que não queremos. E isso é maravilhoso.

No fim das contas, sempre teremos inúmeras obrigações e, à medida que as compreendemos como parte de nós, seu peso se torna bem mais leve e a caminhada, mais suave. Dessa forma, sempre que alguém disser que não fazemos nada além de nossas obrigações, tudo bem, afinal, se há uma coisa da qual não somos obrigados, é acreditar que somos limitados.

A curiosa era dos 140 caracteres

Vivemos em uma época onde praticamente tudo deve ser pensado, explicado, discutido e concluído em poucas linhas, poucos parágrafos, textos curtos e, para citar o famoso passarinho azul, melhor ainda que tudo se encaixe em 140 caracteres.

Os textos modernos são como pílulas. Informações em dose única que tem a dificílima tarefa de prender a nobre atenção de criaturas capazes de executar pelo menos cinco tarefas diferentes e simultâneas. Esse furor não permite fixar o olhar em nenhuma matéria ou artigo por mais de dois segundos, ainda mais se for considerado um textão… mesmo que tenha apenas uma página.

Por que falar sobre isso, se todo mundo está cada vez mais feliz e adaptado a esse modelo de expressão onde o menos é mais? Para que perder tempo lendo ou escrevendo “longos” textos se a idéia principal pode ser transmitida em palavras abreviadas, que praticamente estabelecem um novo idioma próprio do mundo virtual? Talvez seja melhor se acostumar…

O que se vê é um mundo de personalidades virtuais cheias de teorias e opiniões sempre carregadas de verdades absolutas. Mas que gente sábia é essa, capaz de saber tanto sobre tantas coisas? Onde nascem tantas informações? E as fontes? Será que alguém verifica de onde veio a bola antes de repassá-la? As perguntas são muitas, mas nem sempre vêm acompanhadas de respostas… Independente do que é dito, ter algo a dizer sobre tudo oferece uma certa visibilidade ao interlocutor, mesmo que, na maioria das vezes, suas ideias originais não sejam nada autênticas.

Falar. Ser lido. Visualizado. Comentado. Curtido. Parece que é isso o que importa. Dizer qualquer coisa, seja legal ou não, ofensiva ou não, é fácil, muito fácil quando se está protegido pelo confortável anonimato do mundo virtual. Para que discutir um assunto quando é possível se tornar o senhor da razão e da verdade, decretando àqueles que discordarem ou rebaterem a sua opinião, o bloqueio sumário, sem direito a apelação. Tempos democráticos… #sqn!

Viva o direito de expressão! Afinal, um número assustador de pessoas pode ser visto/ouvido/lido através de diferentes tipos de mídia, em qualquer lugar do planeta como nunca foi possível antes. E, por conta dessa explosão dos portões da comunicação digital, onde todos podem dizer o que pensam, um fato chama muita atenção. Nos tornamos juízes implacáveis da vida alheia, capazes de  apontar os erros de quem quer que seja, mesmo que esses erros sejam, quase sempre, compartilhados por nós em modo privado…

Quantas pessoas no mundo real são pacatas, gente boa, amigas dos amigos que, ao se transportarem para o universo virtual, transformam-se em seus alter egos bizarros e invertidos? Expressando um comportamento que seria impensável na organização social formal, sujeita a julgamentos e punições. Antes, dizia-se que para conhecer alguém bastava dormir com ela ou conduzi-la ao poder. Acho que podemos atualizar essa afirmativa. Para conhecer alguém, basta dormir com ela, lhe dar poder e permitir acesso irrestrito as redes sociais.

Estamos em um momento curioso onde a vontade de falar sem pensar, parece mais importante e inclusiva que elaborar, explicar e concluir um ideia própria e relevante. Ler o imenso número de manchetes de jornais e revistas e ouvir as chamadas de telejornais tornou mais fácil deglutir a informação. Isso provocou um efeito adverso estranho onde, ler longos textos sem figuras a partir da página dois, tornou-se uma grande perda de tempo para alguns. Para alguns…

É a informação líquida, difícil de reter por maior que seja a sua quantidade. É como verter líquido sobre uma esponja. Não importa se é um copo ou uma caixa d’água. No fim, o volume retido é pequeno, disperso e sem conexão.

O fato é que nunca tivemos tanto acesso a informação como nos tempos atuais. É possível também que essa onipresença virtual nos transforme nos sábios com o maior poder de síntese da história. É esperar para ver…

E, para os que curtem aquele ditado super pop, repetido por celebridades de todos os escalões, que diz que “menos é mais”, é bom ter cuidado. Muitas vezes o menos, não é nada demais.

Dias de folia

Folia. Muitas são as definições relacionadas e essa palavra, mas me chamou a atenção aquela que diz que a folia é uma antiga dança portuguesa, bem animada, acompanhada por cantos e pandeiros e executada por homens vestidos de mulher. Isso ajuda a entender muitas coisas.

Ah, o carnaval! Época esperada por muitos, tolerada por uns e execrada por outros tantos. Independente do seu amor ou ódio pelos dias de folia, é inegável a transformação coletiva observada ao longo destes quatro dias e, não se engane, mesmo que não seja um folião profissional, seus hábitos e certezas sempre mudarão durante as festas de momo.

Mas, se você é um folião inveterado, daqueles que programam com antecedência para onde ir, o que fazer e quais serão as fantasias da vez, este é, sem dúvidas, o melhor momento do ano. É hora de festejar e colocar para fora angústias e frustrações como se o mundo tivesse uma data de validade de apenas quatro dias… Isso pode ser bem perigoso.

Quais serão os motivos que nos levam a reprimir desejos e vontades por tanto tempo? Provavelmente não teremos uma resposta elaborada capaz de atender a essa pergunta, mas seguimos acompanhados de uma certeza: O carnaval vai chegar! E vai trazer as chaves que libertam todas as feras que deixamos adormecidas por meses em nossas caixas de pandora e que, apenas agora, liberamos seu acesso ao mundo, sem maiores restrições, ou quase isso.

Há quem diga que é um período de excessos. Não discordo. Tudo no carnaval é superlativo. Brincamos demais, bebemos demais, amamos repetidas vezes e experimentamos uma felicidade em estado bruto, livre das amarras morais que o cotidiano nos impõe.

Isto significa dizer que estamos livres para explodir toda a irresponsabilidade e inconsequência que mora em nós, durante a folia? Longe disso. Diversão é um ritmo que necessita de parceiros para que a dança seja bem executada e errar o passo, pode, quase sempre, pôr a perder toda a expectativa de felicidade, acalentada por meses a fio. Exageros podem, infelizmente, levar a excessos que destoam do espírito da festa.

Para muitos, o carnaval serve como refúgio silencioso, mas isso não é menos transformador. Mesmo que a escolha seja ficar em casa assistindo aos festejos pela televisão, algum sentimento será despertado pelas imagens que são vistas. A admiração pela beleza das fantasias, a alegria provocada pela irreverência dos foliões ou a vergonha alheia causada pela falta de figurino de alguns. Não importa o que se sente, mas como se sente. Os dias de folia chegam, alteram a nossa rotina e podem nos presentear com prazer e cansaço ou com reflexão e relaxamento, afinal, poucas datas são tão democráticas quanto a festa pagã.

O carnaval estará sempre presente nossas vidas. Para muitos, essa data traz liberdade para ser quem se é de verdade e permite que sejam retiradas as pesadas máscaras que carregam o ano todo, deixando à mostra suas alegorias reais, sem adereços. É por isso que, para muitas pessoas, as fantasias escolhidas para o carnaval são, de fato, as suas verdadeiras personas.

O carnaval existe para ser apreciado por todos os nossos sentidos, o que não significa que não devemos refletir sobre todas ilusões e armadilhas que ele nos oferece e, acima de tudo, não podemos ignorar os efeitos que todos nós, em algum grau, sentimos diante deste impressionante espetáculo.

As fantasias podem nos revelar, esconder ou projetar quem gostaríamos de ser. Isso é compartilhado por milhões de pessoas durante frenéticos quatro dias. Talvez esteja aí a grande força desta festa. Todos unidos pelo desejo de mostrar ao mundo, aquilo que mantém escondido e que poucos conhecem e, à medida que todos dividem o mesmo sonho, não há julgamento, não há culpa. Há folia! Bom carnaval a todos!

Vivendo fora da caixa

Quando eu crescer, quero morar sozinho. Adoro festas onde só tem gente bonita. Preciso de um carro só para mim. Quero ser amigo das pessoas mais populares e interessantes…

Nossa mente, vez ou outra, é visitada por estes pensamentos que projetam uma vontade quase irresistível de inclusão em algum tipo de padrão. Buscamos, com afinco, cenário e personagens que julgamos adequados e que trazem algum sentido a nossa existência. Isso significa que precisamos eleger um grupo para chamar de nosso. Será?

Ao mesmo tempo que queremos pertencer a alguma tribo, não nos agrada a ideia de sermos mais um na multidão, dessa forma, começamos a percorrer um caminho que nos mostra que também somos únicos, apesar da massa a nossa volta.

Quando crianças, vivemos sempre cercados pela família, amigos da escola, do bairro e isso ajuda a desenvolver, em algum grau, o ser social e coletivo que somos. À medida que crescemos, passamos a pensar e agir em bandos que quase sempre reúnem integrantes com características muito próximas e, assim, criamos um modelo de interação com o mundo que irá se repetir incontáveis vezes. Um formato que nos direciona na maioria das vezes, para os mesmos lugares, as mesmas pessoas e situações em fases diferentes da vida.

Que mal há nisso, uma vez que é agradável estar com nossos pares, que pensam e agem como nós? Independente da resposta, uma coisa é certa, estar sempre voltado para a mesma paisagem, exclui a possibilidade de interagir, sem restrições, com o ambiente que nos cerca.

À medida que desejamos um mundo mais exclusivo e que atenda aos nossos anseios, acabamos por criar alguns labirintos onde conhecemos a entrada, mas apenas imaginamos como será a saída. Passamos repetidas vezes por situações semelhantes que, no fim, não somos mais capazes de distinguir se vivenciamos algo novo ou apenas mais do mesmo. Isso provoca um efeito adverso muito comum quando vivemos sempre no mesmo quadrado. Passamos a desejar aquilo que está do lado de fora do nosso limite imaginário.

Uma vez que seguimos por essa estrada, criamos códigos muito pessoais que podem, com alguma frequência, nos isolar, já que não nos permitimos novas experiências em áreas distantes de nossa zona de conforto. Eliminamos grandes chances de aprendizado por não saber como lidar com situações que extrapolam as fronteiras que levamos anos para criar, sem saber muito bem o porquê.

Quando amadurecemos, passamos a perceber que organizamos pessoas e momentos em caixas iguais, mas com tamanhos distintos, criando barreiras sobrepostas que dificultam a chegada de qualquer coisa que não seja compatível com o nosso belo, exclusivo e monocromático mosaico de caixas empilhadas. E isso pode, com alguma intensidade, nos empobrecer, limitar, isolar e emburrecer. Criando um terreno fértil para a ignorância, toda sorte de preconceitos e solidão.

Em algum ponto da nossa jornada iremos, certamente, olhar com cuidado para a pessoa que fomos, para a pessoa que nos tornamos e para quem queremos ser. Para isso, é preciso transpor nossos próprios obstáculos e, assim, perceber que os sonhos de individualidade podem até nos satisfazer por um tempo, mas nunca o tempo todo.

Olhar para trás nos permite mirar a criança que fomos e lembrar que vivíamos rodeados por pessoas diferentes na forma e no conteúdo. Essas memórias ajudam a constatar que as barreiras que criamos nos limitam e que, quanto mais amplas forem as nossas fronteiras, corremos sérios riscos de nos tornarmos mais diversos, mais completos e mais felizes.

O amor e seus parceiros

O amor é plural. Independente do que cada um de nós pensa sobre o amor, uma coisa não se pode ignorar, ele sempre vem acompanhado de outros tantos sentimentos e sensações que, muitas vezes, fica difícil definir o seu verdadeiro significado. Talvez por isso, estejamos sempre relacionando esse sentimento a sujeitos diferentes. Amor de mãe, de irmão, de amigo… Assim, dependendo de quem se ama, conseguimos orbitar emoções diferentes e complementares, que conferem exclusividade para cada relação que criamos vida a fora.

As parcerias do amor variam de acordo com nosso momento, experiências, disponibilidade para possíveis desilusões e vontade de dividir espaços. Muitas são as variáveis dessa equação maluca que, normalmente, nos achamos capazes de resolver sempre que nos deparamos com ela, porém, à medida que o tempo passa, chegamos a centenas de resultados finais e que nunca batem com o nosso, ingênuo e idealizado, gabarito original.

Costumamos entender melhor essa questão quando pensamos nos grupos sociais ao nosso redor. A família, por exemplo, sempre será a maior referência de quando se trata de amor sólido e que, mesmo turbulento, é capaz de se perpetuar para sempre. Talvez isso seja possível por que, dentre todas as relações que teremos na vida, é a partir de nossos familiares que conhecemos o amor em forma bruta, plena e poderosa como uma força da natureza.

É na família onde temos mais tempo para lapidar o amor, permitindo que nossas emoções se aproximem dele, criando parcerias inesperadas que constroem, de forma muito particular e com vínculos muito fortes, as nossas relações familiares.

Muitos dizem que os amigos são a família que escolhemos. Concordo. Amizade também é uma construção, mas neste caso, o amor não é o primeiro elemento a chegar. Os parceiros como confiança e empatia, estabelecem um terreno seguro para a chegada do amor que, uma vez estabelecido, nunca abandona o seu posto.

A maioria de nós tem aquele amigo querido que, por circunstâncias alheias a nossa vontade, não conseguimos desfrutar de sua companhia frequentemente. Entretanto, independente desse lapso temporal, ao encontrar-los, sentimos uma torrente de felicidade que chega para anunciar que o amor continua lá, indiferente a passagem do tempo.

Então, isso significa que amaremos todos aqueles que encontrarmos pela frente? De forma alguma. O amor também se cerca de emoções que dificultam sua chegada, por vezes de forma permanente. Dificilmente amaremos alguém se os parceiros antipatia e rejeição forem os responsáveis pelos primeiros contatos. Isso ajuda a criar um controle de qualidade que filtra, naturalmente, os tipos de relacionamentos que teremos do início ao fim da vida. Ainda bem!

Se as relações são forjadas a partir da interação entre o amor e seus parceiros, por que será que temos tanta dificuldade em compreender isso, quando se trata de outras maneiras de amar? Pode facilitar o entendimento, se compararmos com a forma como construímos outros tipos de relações.

Quando conhecemos alguém, sentimos um misto de emoções que podem, ou não, conduzir a uma grande história de amor. Mas nesse caso em particular, diferente do caminho que usamos para construir outras relações, o amor e todas as outras emoções se misturam em altas doses, de forma aleatória e imprevisível. O resultado disso pode, muitas vezes, determinar os rumos dessa história. Leve, divertida, intensa, possessiva, indiferente ou carregada de cobranças. No momento em que as relações criam-se rapidamente e as emoções se fundem ao acaso, é dificílimo perceber quando amamos de fato, quando não temos tanta certeza disso, ou ainda, quando sabemos que o amor se foi, mas as demais emoções juntas, criaram laços quase indissolúveis.

De modo geral, acreditamos que só o amor nos traz a plenitude. Amar sem parceiros é apenas um conceito. Amar traz consigo o sorrir, dançar, chorar, sofrer, doar, comprometer e uma infinidade de sensações que, em conjunto, o tornam sublime. Por isso, se deixarmos seus parceiros de lado, o amor uma vez sentido, pode se transformar em amor ressentido e deixar, para sempre, de fazer sentido.

Mosaico de nós mesmos

Vivemos tempos superlativos. Amamos demais, choramos demais, somos super felizes, odiamos intensamente e nos compadecemos pouquíssimo pela dor do outro. Não é necessário passar muito tempo próximo a alguém para que nossas emoções aflorem em grau máximo.

Talvez possa parecer exagerado afirmar isso, mas é inegável que há algo de inusitado e desconcertante nas relações dos tempos modernos. Seja no trabalho, no amor, ou até mesmo em um desentendimento no trânsito, estamos sempre prontos, inteiros e cheios de razão sobre alguma coisa. Pelo menos tentamos demonstrar que sim…

Mas como isso é possível? Simples. Uma vez que assumimos que falta tempo para nos dedicarmos às relações, criamos tipos prontos e pré-moldados que mostram sempre o melhor que há em nós. Profissionalmente, usamos o personagem eficientíssimo e proativo, disposto a resolver questões com a competência de um super funcionário.

Quando nos aventuramos em um relacionamento, seguimos um roteiro prévio que nos diz o que, quando e como agir. Demonstramos ao outro o quanto somos incríveis e como valemos à pena, afinal, somos muito especiais.

Corremos tão intensamente atrás das nossas escolhas, que sobra pouco tempo para elaborar melhor como vamos nos relacionar com quem nos cerca. Talvez seja por este motivo, que passamos a viver em modo automático, padronizando nosso comportamento, a fim de mostrar ao mundo que somos especiais e pronto. Sem perda de tempo. Sem maiores explicações.

Estar sempre nessa estratosfera nos impede, muitas vezes, de perceber os pequenos, porém interessantes, detalhes em parceiros de trabalho, vizinhos de porta ou até mesmo naqueles com quem dividimos a vida. E isso tem grandes chances de se transformar em armadilhas. À medida que oferecemos o melhor de nós, estaremos sempre esperando uma contrapartida igual ou maior. Uma tarefa nada fácil de realizar.

Achar que somos incríveis e importantes é muito bom, mas pode, em muitos momentos, gerar uma expectativa exagerada sobre tudo. Muitas são as vezes em que não conseguimos realizar aquilo que desejamos, da forma como planejamos. Resultado? Nos frustramos e reclamamos cada vez mais sobre tudo e todos.

O outro lado dessa moeda também é carregado de intensidade. Quantas vezes conhecemos alguém e, em minutos, ganhamos um amigo de infância? Porém, se a criatura não corresponder ao nosso ideal de amizade, teremos alguém novo para odiar.

Nos relacionamos em tempo real e virtual. Cada vez mais deixamos os detalhes de lado e só queremos saber do que realmente importa. Resumimos quem somos e mostramos, sob uma lente de aumento, apenas aquilo que julgamos importante sobre nós. Juntamos uma característica aqui e ali e formamos, com tintas fortes, um grande mosaico de nós mesmos mostrando, apressadamente, o que temos de melhor.

Em uma época onde o tempo é escasso e a pressa dá o tom das relações, acabamos por nos render ao exagero e abrimos mão das sutilezas que podem tornar a vida mais prazerosa.

Flertamos com a superficialidade frequentemente. Criamos o hábito de prestar atenção apenas ao que brilha mais, as pessoas mais bonitas, as melhores festas, ao filme que todos assistem… e por conta disso, muitas vezes, investimos nossa energia em experiências que só escolhemos viver porque outros decidiram que seria bom.

Tudo indica que este processo onde superestimamos muitas coisas, inclusive a nós mesmos, é fato consumado. Mas é possível sobreviver bem a tudo isso se decidirmos parar de olhar para tudo que nos é apresentado e começar a enxergar os detalhes e nuances que tornam a vida, de fato, muito mais interessante.

A inveja mora ao lado

Se eu fosse você não faria isso! Olha, não acho que essa roupa ficou boa em você! No seu lugar, eu não viajaria agora! Acho que esse novo amor não te serve… Todos nós já ouvimos coisas parecidas vida afora. Mas o que leva algumas pessoas a despejarem, sem dó, frases nada motivadoras sobre as outras, ao menor sinal de entusiasmo alheio? Acho que sabemos a resposta…

Ah, a inveja! Aquele sentimento sorrateiro que nos faz cobiçar o que não é nosso e querer o que é do outro. Até aí, tudo bem. Ouso dizer que somos todos invejosos em algum nível. Querer o que não se tem, significa dizer que nos interessamos pelo que é do outro, mas que, infelizmente, está fora de alcance.

A inveja nos impulsiona. Pode parecer estranho, mas somos movidos pela vontade de chegar a lugares conquistados por outros e a posições ocupadas por quem chegou antes de nós. Isso não nos torna maus, mas alimenta uma engrenagem que nos obriga a querer sempre mais daquilo que não temos.

De forma superficial, relacionamos a inveja com maldade. Claro que há uma correlação, mas de forma geral, os invejosos são algozes ocasionais que desempenham funções importantes. São eles os responsáveis por inesperadas puxadas de tapete, depreciação de nossas qualidades óbvias e por criar intrigas em círculos sociais.

Os livros, filmes e novelas adoram retratar os conflitos provocados pela inveja e, portanto, nos levam a crer que não sucumbimos a ela na vida real. Que grande equívoco! A ficção carrega nas tintas ao tratar o tema, mas é o cotidiano que nos apresenta a inveja com sutiliza e em silêncio.

Apesar da má fama, a inveja nos proporciona mudanças de comportamento que não seriam possíveis sem a sua influência. Por exemplo, ser passados para trás nos torna mais cuidadosos e vigilantes; ser alvo de intrigas promove um olhar mais seletivo sobre as pessoas ao nosso redor e, ouvir críticas negativas e gratuitas sobre nossas qualidades e planos, nos obriga a estar mais atentos e cautelosos.

Todas essas características são armas importantes na infinita batalha que travamos diariamente. Ficamos mais preparados para lidar com essas situações porque, à medida que somos expostos às várias formas de inveja, criamos anticorpos cada vez mais resistentes, o que é um efeito colateral muito bem vindo.

Considero a inveja e seus agentes, os grandes antagonistas em nossas vidas, uma vez que, a partir deles, muitos sentimentos e sensações difíceis podem aflorar e se contrapor às virtudes que tanto prezamos. Isso é, sem dúvidas, uma ferramenta essencial na formação do caráter e diz muito sobre quem somos. Ceder aos caprichos da inveja, normalmente, leva a caminhos tortuosos e um tanto cinzentos, já que o brilho perseguido pelos invejosos vem sempre da luz do outro.

É muito difícil perceber de onde vem e quem traz a inveja consigo. Muitos são capazes de viver anos a fio em contato direto com pessoas que, por vezes, são consideradas cuidadosas e amigáveis, mas que estão sempre dispostas a frear sonhos e, de forma discreta, vão minando desejos e esperanças.

O que nos transforma em invejosos perversos é a vontade de chegar a um lugar e depor, sem pudores, o ocupante daquela vaga. Não por merecimento, mas por pura vaidade. É importante saber onde se quer chegar, mas é primordial ter em mente por quais caminhos se pretende seguir para alcançar o que se deseja.