Amar é barra pesada

Há uma receita padrão espalhada por aí, que diz a todos que, amar, será a coisa mais incrível que poderá acontecer em suas vidas. Isto cria uma legião de perseguidores da fórmula mágica, que os fará amar e, ao mesmo tempo, receber o mesmo amor em troca. Como em um belo e clássico conto de fadas.

O amor é, de fato, o sentimento que tem a seu favor, a maior estratégia de marketing de todos os tempos. Desde o nascimento, ouvimos  que só o amor constrói a felicidade. Elegemos dias especiais para comemorá-lo. Admiramos casais apaixonados em propagandas, livros, novelas e filmes. O que significa dizer que somos, praticamente, obcecados pelo amor. Não como um sentimento natural que é construído a partir da união de vários outros sentimentos, mas como uma espécie de estilo de vida. Tenha amor, seja amor, ame e seja feliz.

Ah o amor romântico… Tão idealizado e, ao mesmo tempo, tão inacessível. Até mesmo para nós, os seus criadores. O que é, no mínimo, curioso. Valorizamos o amor a tal ponto, que o transformamos em algo quase divino. Resultado: passamos anos e anos em busca de algo que se afastará de nós, todas as vezes que tentarmos alcançá-lo.

O grande problema é que leva-se muito tempo para perceber que o amor, sublime amor, não passa de um pote de ouro enterrado sobre um arco-íris imaginário. E, mesmo quando nos damos conta disso, pouca coisa muda. Afinal, é preferível se envolver pelo ideal de amor, a constatar que, sem ele, aquele romantismo que adoramos tanto, nunca passou de um mito.

O mundo é árido demais para não acreditarmos no amor. Concordo. Mas é preciso aprender que o amor cotidiano é como uma tela impressionista. Quanto mais distante estamos dele, mais belo e sublime ele fica. Porém, para que a mágica aconteça, é necessário estar próximo, só que, de perto, esta mesma tela, apresenta cores mais fortes e formas mais confusas, nada fáceis de entender. Assim como são todas as coisas no mundo real.

Então, amar não é ouvir sinos e receber flechadas de cupidos marotos? Claro que não. Mas essa é uma imagem mental muito mais agradável do que dizer: o amor é taquicardia, noites sem dormir e um certo descontrole emocional, certo? É aí é que entra a grande jogada de mestre.

Se o amor é barra pesada e nos coloca de ponta cabeça, mas, ainda assim, não vemos sentido em não sentí-lo, por que não mexer um pouco nessa imagem? Criando a ideia de que amar requer sacrifícios, mas que, apesar disso, nada pode superar o êxtase que sentimos por termos sido agraciados pela dádiva do amor romântico. Resumindo: me engana, que eu gosto…

Perseguir o amor ideal, reforça a ideia de que amar é algo raro e precioso. Logo, quando acreditamos que finalmente nos tornamos parte do seleto grupo daqueles que amam, desenvolvemos uma nova característica: o apego.

Só em imaginar o trabalho que tivemos para alcançar o amor, é completamente compreensível que queiramos aquele amor dentro e perto de nós sempre e, se for possível, para sempre. Só que, como diz a canção: o para sempre, sempre acaba. E é neste ponto que a nossa capacidade de perceber a realidade se confunde.

Uma vez que conseguimos sentir o mais nobre dos sentimentos e gostamos da ideia, não vamos querer abrir mão dessa sensação. Porém, em muitos momentos, é preciso perceber que o amor transformou-se, deixou de existir ou, simplesmente, não nos serve mais.

É nesta hora que encaramos a mais complexa das facetas do amor: o seu fim. É nessa hora que o amor, seja ele idealizado ou cotidiano, dá lugar ao apego e nos impede de enxergar, com clareza, a melhor saída. O que nos deixa paralisado em um dilema dificílimo. Se, de um lado está tudo aquilo que vivemos, do outro, tudo aquilo que não viveremos mais…

Por isso, todas as vezes que se sentir apegado à alguém, pense no que valerá mais a pena: guardar as lembranças de uma bela história de amor ou destruir as boas memórias românticas, se apegando a um presente triste e decadente? Independente da resposta, a escolha sempre será sua.

Olhares diferentes

Outro dia, observando as pessoas em um vagão lotado, enquanto tentava vencer o sono, percebi com mais cuidado, àquela multidão de desconhecidos, vindos não sei de onde e indo para os mais diferentes destinos. Naquele cenário, o que mais chamou a atenção foi ver tantas pessoas juntas, expressando-se da mesma forma. Todos juntos expressando uma certa indiferença coletiva. Uma espécie de solidão cercada de gente.

Isso, obviamente, não significa que aquelas pessoas eram, de fato, solitárias. Mas, à primeira vista, a forma como se portavam, demonstrava um enorme distanciamento entre elas, apesar da proximidade física. Um segundo olhar permitiu perceber ansiedades que escapavam em gestos, consultas apressadas ao relógio, olhares perdidos e uma apatia quase generalizada.

Multidões de indivíduos convivendo lado a lado, sem sequer notar a presença do outro. Como colônias formadas por células auto-suficientes que, apesar da semelhança, não mais se reconhecem como um coletivo. Criando, assim, representantes de universos bem particulares, capazes de voltar seus olhares apenas para si. Como isso é possível? Usando os portais dimensionais que carregamos no bolso. Nossos celulares fornecem acesso irrestrito a mundos que vão, muito além, dos limites físicos impostos pelos diversos vagões de onde entramos e saímos diariamente.

Cabeças baixas, polegares velozes e expressões faciais fortuitas, denunciam a nossa forma mais recente de interação com aquilo que nos rodeia. Passamos a enxergar coisas e pessoas através de filtros, onde tudo é genuinamente montado e pensado para agradar aos olhos alheios. E gostamos disso, cada vez mais.

Dessa forma, vamos deixando de lado, algo que sempre foi muito caro às relações humanas: o olhar. Perdemos tantas horas observando imagens estáticas e vídeos vazios, que esquecemos de admirar olhares, sorrisos e paisagens reais. Assim, pouco a pouco, um comportamento até então individual, ganha ares de coletividade, o que estabelece um paradoxo curioso: a socialização da individualidade.

Mas o que isso significa? Que caminhamos, a passos largos, em direção a virtualização da realidade que conhecemos. E para viver nesse novo lugar, criamos avatares de nós mesmos, que irão interagir com uma infinidade de alter egos cheios de virtudes e sem defeitos comprometedores. Dessa maneira, fica estabelecido um fluxo invertido, onde o mundo real torna-se refém de uma realidade virtual, cheia de padrões difíceis de seguir, mas que apresentam desafios diários, que nos instigam a sair de um mundo cheio de verdades absolutas, duras e sem maquiagem.

Nesta realidade, é comum perder-se entre downloads, posts, likes, streamings, lives e stories. Somos apresentados a uma nova forma de comunicação muito particular, de compreensão restrita e excludente. Apesar do interesse pelo mundo virtual aumentar vertiginosamente, há aqueles que não estão prontos ou interessados em desbravar essa fronteira. Estes formam uma turma, não de excluídos digitais, mas de incluídos na boa e velha vida real.

Pode parecer estranho, mas é cada vez mais atual essa duplicidade. Nunca fomos tão solitários no mundo real e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos amigos não presenciais. E, desse jeito, criamos muitos laços sem toque, damos abraços sem calor, chegamos ao êxtase sem suar e ouvimos declarações de amor através de áudios frios e estéreis. Assim, sem perceber, substituímos, pouco a pouco, a nossa tumultuada, porém deliciosa, humanidade, por algo que ainda não sabemos nomear.

Flutuar em realidades virtuais sempre será tentador, afinal, muitos querem mostrar o que têm de melhor, o tempo todo. Tarefa praticamente impossível de realizar em um mundo onde a realidade não se preocupa  em agradar a ninguém. O que é ótimo. Perceber as pessoas à nossa volta e admirar os lugares por onde passamos, desperta diferentes emoções e sensações absolutamente verdadeiras e isso, só é possível, quando enxergamos a vida através dos nossos próprios olhos.

Vou te contar um segredo

Vou te contar um segredo. Mas só se você jurar que não vai contar a ninguém… Quantas vezes iniciamos conversas oferecendo este contrato de confiança,  mesmo tendo a certeza que o pedido de sigilo não será mantido? Tudo bem, acreditar que segredos ficarão guardados, mesmo quando deixam de ser secretos, faz parte deste acordo fictício.

Mas se a intenção é divulgar uma informação, por que apelar para o silêncio do outro? Simples. Saber de alguma coisa que ninguém mais sabe, nos coloca em situação de vantagem de alguma forma ou, pelo menos, acreditamos que sim. Dessa maneira, quando divulgamos algo que fazemos questão de demonstrar sua exclusividade, também nos tornamos únicos, afinal, ser o portador de informações preciosas, transforma pessoas comuns, em privilegiados ocasionais.

A grande questão está em saber o que, de fato, é uma informação única e importante ou apenas uma situação irrelevante, que é maquiada, até tornar-se interessante o suficiente para ser guardada à sete chaves, mas sem nenhum cadeado.

Na grande maioria das vezes valorizamos a manutenção dos segredos até que se tornem moedas de troca. Compartilhamos intimidades, particulares ou alheias, em troca de confiança e fidelidade o que, com frequência, não costuma ser uma transação bem sucedida. Deste modo, aquilo que tentamos reter, escorre em alta velocidade entre bocas e ouvidos, ganhando mais cores e contornos. A fluidez de segredos mal guardados, transforma o íntimo em exposto, a confiança em inconfidência e o sigilo em fofoca.

Ter o que contar pode abrir caminhos, normalmente reservados aos que tem como objetivo, descobrir e armazenar informações para, então, valorizá-las até que transformem-se, enfim, em segredos fadados a revelação. Mas, se de um lado, alguém se favorece com o vazamento deliberado de segredos frágeis, do outro, estarão aqueles que depositaram informações valiosas em caixas de fundo falso. Segredos podem ser degraus ou baús. Depende de quem escolhemos para guardá-los.

Porém, se há quem revele segredos a todo instante e sem qualquer critério, também há aqueles que compreendem que nem tudo deve ser divulgado de forma irrestrita.

Todos nós guardamos informações, experiências ou sentimentos em pequenas, porém, bem protegidas, caixinhas de segredos. Que são abertas, somente, em situações de absoluto conforto e entrega. Isso pode, eventualmente, resultar em corações partidos e decepções em diferentes níveis, o que, à primeira vista, dos como um castigo, revela-se um grande aprendizado à medida que o tempo passa.

Segredos são ótimas armas para aguçar a curiosidade alheia mas, também são essenciais para nossa autopreservação. Eles são responsáveis por nos mostrar quem somos de fato, de onde viemos e como chegamos até aqui. É claro que essa trajetória é compartilhada por muitos, mas, todas as experiências, mesmo as mais simples, possuem singularidades que fazemos questão de guardar em locais onde apenas a nossa mente consegue acessar.

As características únicas que mantemos a salvo do mundo, deveriam ser presentes raros que ofertamos, de tempos em tempos, para poucos e bons. Segredos jamais devem ser fardos pesados que sufocam e impedem de ser quem realmente somos. Essas são linhas tênues que sempre nos acompanham.

Segredos são fundamentais. Às vezes nos transformam em pedras e por vezes em vidraça mas, quase sempre, são eles que formam um banco com informações únicas e preciosas, que só serão reveladas àqueles que, de antemão, prometerem jamais contá-los a ninguém…

O surpreendente mora nos detalhes

Pare um pouco e olhe à sua volta. Como você definiria este exato momento da sua vida? Difícil responder a esse desafio, não é? De fato não há uma resposta padrão para isso, mas uma característica é comum para a maioria das pessoas. Todos pensam sobre aquilo que não têm: amores, dinheiro, emprego, amizades… Tudo nos falta. Porém, mesmo quando o acaso sorri para nós e somos agraciados com tudo isso, continuamos preenchidos por ausências que não sabemos classificar.

É confortável pensar que a nossa eterna insatisfação, seja a única responsável por nos fazer seguir em frente querendo, cada vez mais, algo que sequer sabemos ao certo o que é. Mas, talvez seja a nossa voracidade por quantidade, o combustível que alimenta o nosso desenfreado querer. Sem julgamentos sobre isso, afinal, o querer faz parte de nossa essência. Porém, frequentemente, nos perdemos entre vontades e deixamos de festejar os desejos e sonhos que já foram realizados. O que é um grande e recorrente equívoco.

Ouvimos o tempo todo que é preciso ser grato mas, ainda assim, deixamos a gratidão de lado no instante em que saciamos a nossa fome de querer. Isso nos faz perder em todos os aspectos. Detalhes relevantes ficam de fora do nosso restrito campo de visão o que, quase sempre, nos impede de valorizar conquistas, independente do seu grau de importância.

Passamos uma vida inteira estabelecendo conexões com objetos e pessoas. A grande questão é que não percebemos que todas essas relações, são alicerces fundamentais na construção de quem somos no presente e, principalmente, de quem seremos no futuro.

O surpreendente mora nos detalhes e, aceitar a sua importância, nos transporta de um lugar comum onde somos pessoas que querem ter, para o posto especial onde estão aqueles que escolheram, acima de tudo, ser.

O maior significado disso, está na forma como olhamos o universo à nossa volta e de que maneira ele retribui esse olhar. Entender que cada detalhe vivido é importante, não determina que teremos que lembrar de todos eles. Mas é fundamental aceitar que, quanto maior for a nossa sensibilidade para reconhecer o que de fato é importante, estaremos mais disponíveis para as experiências que viveremos adiante.

A vida nos apresenta a infinitos caminhos e nunca sabemos ao certo, por onde devemos seguir. Mesmo assim, seguimos. Mas, dentre todas as escolhas que podemos fazer, existe uma que fará toda a diferença: a forma como enxergamos a vida. A leveza no olhar permite ver além, permite enxergar verdades sutis. O que nos obriga a dar valor a cada degrau que subimos, a cada amigo que fizemos e a todas as conquistas que tivemos.

Observar a vida através de lentes desfocadas, nos impede de ver à distância e, assim, acreditamos que só aquilo que está por perto é importante. Esta miopia nos leva a enxergar, apenas os pontos de uma grande pintura quando, na verdade, só uma visão panorâmica é capaz de iluminar detalhes escondidos, que demonstram o quão precioso pode ser o olhar sobre tudo aquilo que nos cerca.

Talvez agora, se nos perguntassem como definiríamos as nossas vidas neste exato momento, fosse possível dizer que continuaremos a querer aquilo que não temos. Porém, agora, é possível ir um pouco além. Como? Compreendendo que as coisas e pessoas que já conquistamos não podem ser vistas como medalhas sem importância e, sim, como tesouros inestimáveis que devem ser preservados, admirados e compartilhados. Isso nos permitirá entender que, ter a consciência de que somos formados por detalhes, é o que nos torna genuinamente especiais.

A vida e seus ciclos

A vida é simples. De verdade. O que não quer dizer, de forma alguma, que viver é fácil. Pode parecer a constatação do óbvio mas, nem por isso, deixa de ser fascinante tentar entender essa relação que coloca o simples e o fácil em lados opostos do mesmo ringue e, de que maneira, ambos interferem nos ciclos que nos regem.

Somos compostos por ciclos que começam e terminam sob a implacável ação do tempo. No momento em que nascemos, o relógio começa uma jornada sem escalas, rumo aos ciclos de 365 dias. Períodos que irão imprimir marcas, acumular vivências, mudar nossos pontos de vista e comandar nossa existência até o fim.

Quando somos jovens, não percebemos a suavidade de seu avanço e nos interessamos especialmente por seu início. Um novo ciclo que começa, traz em sua bagagem, sentimentos de esperança e sonhos de renovação, como se, a cada novo período, um fôlego extra nos permitisse seguir além.

Dias, semanas, meses e anos… Estes são aqueles ciclos compulsórios sobre os quais não temos nenhum controle ou poder. Nos restando, apenas, obedecer às regras de um jogo conhecido. Porém, como somos insubordinados por natureza, achamos por bem tentar mudar essas regras. É aí que começam os nossos problemas…

Queremos dias mais longos e agitados, semanas menos corridas, bons momentos mais demorados e freios que diminuam a velocidade dos anos. Reparem que, à medida que não controlamos esses ciclos, mergulhamos em uma eterna contradição onde, ora precisamos ter pressa, ora desejamos sossego. Uma batalha completamente perdida, mas que adoramos acreditar que a venceremos um dia.

Nosso eterno cabo de guerra com o tempo influencia, intimamente, os ciclos que podem ser criados e controlados por nós, com alguma segurança. Quando ingressamos na vida social, um longo caminho, repleto de ciclos sobrepostos, se abre à nossa frente. Nele, amizades serão feitas e desfeitas, turmas serão formadas ano após ano, trazendo ganhos, expondo perdas e sedimentando experiências. Isso nos ensinará que, apesar de imutáveis no formato, os ciclos serão absolutamente transitórios e imprevisíveis.

Os anos passam e tornam a chegar. Renascemos a cada aniversário, abrindo e fechando ciclos vão muito além da idade cronológica. Os novos anos dizem adeus aos felizes anos velhos, que os saúdam e transferem bastões carregados de sorrisos, amores, lágrimas, problemas e toda sorte de situações vividas. Isto significa que as experiências acumuladas ao longo da vida, nos transformam. Por vezes com gentileza, por vezes com a delicadeza de um coice.

As relações que estabelecemos nessa caminhada, formam nossos ciclos particulares, onde podemos decidir sobre seu início, meio e fim. Analisando desta forma, parece simples e talvez seja mas, certamente, está longe de ser fácil.

Nessa estrada, as direções nem sempre estão muito claras, o que nos leva a repetir alguns trajetos conhecidos, que revivem ciclos que teimam em aceitar os seu fim. Amizades unilaterais e amores egoístas são ótimos exemplos. Quem nunca percebeu a sua aproximação, sentiu o sinal de alerta ser acionado mas, ainda assim, permitiu-se, uma vez mais, dar uma nova chance a um ciclo dissimulado que parece eternamente inacabado?

Não importa quando. Em algum momento, todos nós fazemos um balanço das experiências que vivemos em diferentes ciclos da vida. Olhamos para trás, buscando no que foi vivido, respostas para novos desafios que teremos à frente. Nem sempre conseguimos as soluções que esperamos, mas podemos observar, a uma certa distância, as nossas boas e ruins contidas em ciclos de importância e tamanho distintos. Isso nos confere uma enorme oportunidade de escolha sobre os erros e acertos que queremos repetir ou evitar. Queremos seguir por ciclos tortuosos e estreitos, difíceis de encontrar a saída ou entrar em caminhos amplos e suaves? Escolhas importantes que podem até não ser fáceis, mas que, com certeza, são mais simples do que imaginamos.

 

O dia em que me tornei medroso

Não faça isso! Não fale com estranhos! O bicho vai te pegar! Se comer assim, vai passar mal! Quem nunca ouviu estas e outras tantas exclamações que, acima de tudo, têm a clara função de nos amedrontar diante daquilo que não conhecemos bem? O que é bastante eficiente, uma vez que estamos aqui para constatar que a estratégia tem o seu valor.

Somos embalados por essas frases de alerta desde antes de entendermos o que é um alerta. Isso, obviamente, possibilitou que a vida se prolongasse para além da primeira infância, afinal, crianças e medo são figuras absolutamente antagônicas. Essa regra, talvez, esteja relacionada à percepção de mundo que tentamos construir à medida que crescemos e, durante esse processo, criamos e desconstruímos inúmeros medos, que serão os grandes responsáveis por muitas das escolhas que faremos ou deixaremos de fazer ao longo da vida.

Pode parecer estranho afirmar isso, mas, imagine-se criança em uma piscina. Essa memória vem em ecos que berram avisos como “não vá para o fundo, senão irá se afogar!” ou ainda, “desce daí senão você vai cair!” Ação; possibilidades; tragédia e… medo. Uma receita de bolo que nos mantém a salvo pois não permite que esqueçamos uma das regras mais importantes da nossa existência: limites existem e merecem respeito. Assim, a vida segue seu fluxo, enquanto nós tentamos acompanhar seu ritmo inconstante. Mas, para seguir esse compasso, é necessário escolher entre ultrapassar ou obedecer os próprios limites.

Sobre essa escolha pesam muitos fatores, mas poucos exercem tanto poder sobre quem somos e de que formas o mundo nos enxerga, quanto o medo. Não me refiro ao medo estereotipado, mas sim, daquele receio cotidiano que nos faz escolher entre levar um casaco na bolsa em uma manhã ensolarada, até dizer não a um comportamento abusivo sofrido em seu lugar de trabalho. Mudar situações estabelecidas, assusta. Mudar situações requer um confronto com limites internos. Mudar nos dá medo.

Mas é preciso estar atento aos sinais. Temer demais paralisa e nos impede de experimentar e, o que somos, senão o conjunto de nossas experiências? Por esta razão, não se pode perder de vista que, o medo, dentre outras coisas, nos ensina a ser cautelosos. Mas essa é uma linha muito tênue. É necessário ouvir os nossos medos, sem jamais nos tornarmos seus reféns. Esse é um desafio.

Conheço muitas pessoas que dizem-se imunes ao medo e exibem esta característica como um troféu. É provável que, para elas, admitir senti-lo, seja o seu maior medo. Perceber que nos amedrontamos diante de incontáveis situações, é tão normal quanto aceitar que iremos nos apaixonar, fazer amigos, perder e ganhar, sofrer e sorrir. Emoções e sensações que nos incomodam ou confortam, independente da nossa vontade, mas que serão nossas companheiras sempre e para sempre.

Medos. Limites. Cautela. Não estamos falando sobre equações com resultados esperados. Falar sobre e aceitar a sua presença constante, não transforma o medo em algo que devemos negar, ao contrário. Deveríamos imaginá-lo como balizas que mostram caminhos e não como muros que aprisionam. Caminhos estes que desafiam limites, criam novas metas e nos apresentam novas possibilidades.

O medo cria limites que são superados, logo, não é exagero dizer que, diariamente, vencemos desafios que nos amedrontam e, isso, nos permite a conquista de territórios onde jamais imaginaríamos chegar.

A coragem afronta o medo e nos mostra que, sim, é preciso ter cautela, porém, isso não basta. Precisamos fazer parcerias com nossos medos para que eles não sejam capazes de nos paralisar. Superar aquilo que tememos, é o nosso grande desafio.

Começo, meio e…fim.

Começo. Meio. Fim. Esse é o roteiro que seguimos para quase tudo na vida. Três etapas que não possuem data de validade ou formatos definidos, mas que pautam nossa trajetória, influenciando desde as pequenas coisas do dia a dia, até as decisões que irão impactar nossa existência por anos e anos. Porém, por mais que façamos planos racionais sobre o que e de que forma viveremos, na prática, não temos a menor ideia do que encontraremos à frente.

O começo. Algumas coisas estão marcadas para acontecer desde o dia em que nascemos e é a partir desse momento, que damos a largada para a série de inúmeras relações que teremos ao longo da vida. Como em todo bom início, acreditamos piamente que os novos laços serão eternos. E serão, até que cheguem ao fim.

É difícil saber como será o meio do caminho e muito menos onde será o fim da estrada, mas o início é diferente. Ele sempre nos dá algumas pistas do que iremos encontrar. Os começos são arrebatadores, cheios de vigor, euforia e incertezas. Sensações quem anunciam novidades como: no primeiro dia de aula, o primeiro amor, a estreia no mundo das decepções, o primeiro emprego, as primeiras perdas…

Todos esses acontecimentos marcam nossas vidas e ficam gravados para sempre na memória, determinando quem seremos e como vamos agir a partir daquele instante. Começos podem ser bons ou nem tanto, mas eles sempre serão responsáveis pelo tempo de duração das nossas experiências, assim como pelo caminho que iremos percorrer até conhecermos o fim.

Meio. É neste ponto que, aquilo que iniciamos, transforma-se em histórias de verdade, ganham cores e contornos mais fortes, mudam de rumo e ficam cheias altos e baixos. O caminho do meio sempre guarda muitas surpresas. Talvez seja por isso que as pessoas costumam desejar trilhar essa estrada, mesmo sabendo que não faltarão pedras nessa caminhada.

Por mais que o meio termo seja o caminho de escolha da maioria, curvas e abismos costumam ser deliciosos e, além de nos fascinar, são responsáveis por experiências que se transformarão em ótimas estórias para contar. Ninguém quer seguir sempre o mesmo caminho o tempo todo.

Imprevistos são bem vindos, uma vez que é a partir deles que ocorrem as mudanças de rota que nos permitem, não apenas conhecer mais e melhor aquilo que já temos, mas também possibilitam novos começos e novas vivências. Porém, o caminho do meio vai muito além das novidades. É nesta etapa que aprendemos o que nos faz bem ou mal. É nesta etapa onde aprendemos a importância dos pontos finais.

Fim. Este é, talvez, o mais injustiçado dos personagens retratados nesse texto. Se o início é representado pela euforia, o fim sempre carrega a fama de ser triste e melancólico. Talvez seja, mas não completamente. À medida que vivemos nossas histórias, não imaginamos como será quando o fim chegar. Tocamos a vida e seguimos garimpando, catalogados e analisando experiências, pessoas e sentimentos e não nos preocupamos em finalizar algo que ainda tem muito a oferecer.

Dessa forma, acumulamos impressões que sinalizam quando e como, algumas situações devem chegar ao fim da linha. E isto não é, de maneira alguma, motivo de tristeza. Perceber a chegada de um final é, sobretudo, uma habilidade quase rara. Encarar o fim pode ser algo comum mas, saber o que fazer a partir disso é que são elas…

Finais provocam rupturas em zonas de conforto e isso não é fácil. Finais transmitem mensagens claras que dizem, sem cerimônias que, o que se tinha até então, não nos serve mais e que novos rumos precisam surgir. É neste ponto que os vértices se tocam e mostram que pontos finais nada mais são que pausas sem pressa mas que, quando terminam, nos conduzem, invariavelmente, a novos começos, meios e fins…

 

 

Chega de saudade?

Chega de saudade, já dizia a canção. Mas como seria a vida se não sentíssemos que algo nos falta? Difícil até imaginar uma situação como essa. Sentir falta é um hábito que nos acompanha desde sempre. Quando crianças, choramos se não desfrutamos o colo dos nossos pais demonstrando, de forma instintiva, que precisamos ter por perto aquilo que nos é caro.

À medida que crescemos, ampliamos a dimensão que temos do mundo e das pessoas que nos cercam. Quando percebemos os diferentes níveis de importância daquilo que temos a nossa volta, começamos a dar significado ao que era, até então, apenas uma ausência . O que antes era sentir falta, passa a ser considerado um dos sentimentos mais intensos, frequentes e interessantes que conhecemos: a saudade.

E, como toda sensação poderosa, podemos senti-la em diferentes intensidades. Ao contrário de outros sentimentos que começam brandos e ficam mais encorpados com o tempo, a saudade não se preocupa com ordens crescentes e pode ser sentida em sua plenitude, de forma quase imediata, basta que algo ou alguém preciosos sejam retirados de nós , sem aviso ou consentimento prévios.

A ausência pode assumir diversas dimensões, que podem durar o tempo de um pensamento ou se tornar uma companheira incômoda por anos a fio. Nesse caso, a ausência adquire uma personalidade muito particular, que varia de acordo com aquilo que nos falta.

Sentimos falta do que vimos poucas vezes, das brincadeiras de rua durante a infância, de amigos de adolescência que perdemos de vista e somos capazes, até, de sentir saudades de lugares e situações que nunca vivemos de fato. Somos preenchidos por saudades.

Muitos momentos são responsáveis por reacender memórias que aquecem o nosso peito, trazendo saudades que se assemelham à visitas queridas, mas que raramente recebemos. De todo modo, só sentimos falta daquilo que não temos mais ou do que nunca vivemos.

Saudade. A simples menção dessa palavra nos tranporta para muitas épocas e lugares, proporcionando encontros impossíveis ou improváveis. Reler uma carta ou sentir o perfume de alguém que não podemos ver mais, abre canais tão íntimos que, muitas vezes, preferimos mantê-los fechados e bem protegidos e, assim, preservar memórias inestimáveis.

Perdas podem provocar dor. Perdas podem promover saudade. Isso é inegável, porém, a saudade nem sempre significa dor e sofrimento, ao contrário. Sentir falta de casa, de alguém ou de algum lugar especial, causa sensações agradáveis que nos fazem pensar em como será único o momento em que, finalmente, iremos rever ou reencontrar a razão da nossa saudade.

Infelizmente, nem sempre é possível revisitar o que nos faz falta. À medida que o tempo passa e envelhecemos, somos apresentados à perdas permanentes e isso nos força  conviver com a dor em qualquer circunstância. E o que nos resta? Nada além de administrar essa saudade com paciência para que ela, um dia, se transforme em força.

Viver não é, de forma alguma, ter tudo o que se quer. Viver é um grande aprendizado que nos mostra o tempo todo que, só levamos da vida, aquilo que sentimos a partir de experiências diárias, boas ou ruins e, sentir falta, faz parte desse processo.

A saudade é a personificação da ausência. Talvez seja por isso que saudade tem forma, nome, endereço e é sentida em ondas com diferentes intensidades. Ela pode aparecer eventualmente ou ser presença frequente, tanto faz… Não importa quando a saudade nos visita e sim, de que maneira ela nos toca.

E se…

A todo momento, alguém, em algum lugar do mundo, começa um pensamento com a pergunta: “e se…?” Iniciando, dessa forma, uma projeção que, apesar de ser compartilhada por todos é, também, muito particular. Sonhamos os mesmos sonhos, mas cada uma à sua maneira.

Ah, se eu… você pode completar essa frase de mil maneiras diferentes mas, independente do objeto desejado, uma coisa é certa: sua história será alterada, mesmo que por alguns instantes e apenas em pensamento. É neste momento que criamos um mundo paralelo, onde podemos ser quem ou o que quisermos, sem dificuldades, culpas ou receios.

Mas, por que será que fazemos uso deste artifício com tanta frequência? Milhares de respostas podem ser dadas, mas acredito que, assim como viver o cotidiano é inevitável, projetar-se para uma realidade distante da qual estamos acostumados, também é. O que nos dá um alento necessário para aliviar a tensão que é viver no implacável mundo real.

Na maioria das vezes, desejamos ser bem diferentes da nossa versão original, o que faz todo sentido. E se eu ficasse rico? Ah, se fosse comigo… E se fosse com você? Se eu ainda estivesse casado… Cada uma dessas possibilidades abre espaço para inúmeras respostas abstratas que serão guiadas por sua imaginação à lugares surpreendentes e inesperados.

Quando desejamos, por exemplo, ganhar na loteria, disparamos um gatilho que nos arremessa em direção a um mundo de felicidade absoluta e idealizada, onde teremos o que quisermos, viajaremos para os melhores destinos e faremos parte de um olimpo onde tudo reluz, onde tudo é perfeito.

Sabemos que tudo não passou de um sonho mas, quando um pensamento encantado acaba e a realidade volta a se iluminar, ainda restam suspiros efêmeros e sorrisos abobalhados como provas da nossa tremenda capacidade de buscar a felicidade, usando apenas a imaginação.

Esses pensamentos encantados também são responsáveis por transformar nossos sonhos profissionais. Quem nunca olhou para trás e pensou que talvez fosse melhor ter escolhido artes ao invés de engenharia ou que a comunicação hoje, faz muito mais sentido que a biologia? Ninguém precisa chutar seus baldes ou mudar de rota bruscamente se não quiser, mas não se pode negar que imaginar como teria sido viver em ambientes diferentes do seu, com pessoas e histórias inusitadas é, no mínimo, intrigante.

Projeções sonhadoras também nos permitem segundas chances. Quando pensamos “se fosse hoje, teria sido diferente” ou “ah, se fosse comigo…”, é porque gostaríamos de mudar o final de alguma estória. Mas, será que realmente mudaríamos de atitude? Talvez sim, talvez não. Não há como saber, mas esse exercício mental provoca reflexões que podem, no futuro, mudar a forma como percebemos a realidade em que vivemos.

E os amores? Estes certamente ocupam um precioso tempo em nossos pensamentos. Gastamos bastante energia imaginando como teria sido se tivéssemos escolhido o amor B ao invés do A. Se seria mais feliz solteiro ou se tivesse casado, como seria? Essas projeções, diferente das demais, podem trazer saudades, boas lembranças, alguns arrependimentos ou até certezas de que escolhas certas foram feitas. Mas, estamos falando de amor, certo? E amor que não vem acompanhado de um turbilhão de emoções, não é de verdade, nem na imaginação.

Sempre que pensamos em situações como se fossem sonhos, nos enxergamos por ângulos diferentes, como se observássemos outras pessoas. É desta forma que a nossa imaginação manda recados para a nossa versão real. Todas as vezes que sonhamos acordados, recebemos mensagens deliciosas que dizem que podemos ir para onde quisermos e voltar, se preciso for. Que podemos ser todos aqueles que desejamos ser, desde que jamais se perca a capacidade de sonhar e seguir em frente.

Reclamar requer atitude

Reclamações. Elas estão por toda parte e em todas as latitudes. O mundo inteiro parece se queixar de alguma coisa, em algum momento. Tirando aquelas questões óbvias que impedem que tenhamos uma vida digna, quais serão as causas de tamanha insatisfação? Individualidades à parte, há em torno de todos, uma densa névoa formada por incômodos de naturezas diversas e que a cada dia se torna mais fortes, nublando a nossa visão, nos impedindo de ver saídas, mesmo que estejam bem ao nosso lado.

Se reclamar significa não estar satisfeito ou confortável com algo que se vê ou vive, é bem possível que estejamos todos, de alguma forma, querendo aquilo que não temos ou vivendo uma vida muito aquém dos nossos planos. Não há problema em reclamar, ao contrário, o incômodo normalmente nos obriga a mudar de lugar e, com isso, vislumbrar novos horizontes. A grande questão é para onde as nossas queixas nos levam.

À medida que as reclamações vão surgindo, pulamos de casa e, assim, seguimos na busca pelo que acreditamos ser o melhor para nós. Parece simples vendo desta forma. Basta reclamar para que as coisas à nossa volta melhorem. Quem dera… Em muitas das vezes, ficar parado, falando mal da situação vivida, traz mais dores de cabeça do que soluções.

Mas, voltemos ao porquê da insatisfação generalizada. É possível que uma das razões que nos faz reclamar com frequência, seja a padronização irrestrita de quase tudo o que conhecemos. O número de caixas onde devemos caber e de rótulos que devemos usar, cresce a uma velocidade espantosa. Logo, se alguns formatos ganham força, é porque existem muitos interessados em fazer parte deles. Com isso, os versos da música se tornam realidade: quem está fora quer entrar, mas quem está dentro, não sai. Resultado? Reclamações…

Padrão. Ainda estamos nos acostumando a entender seu significado. As revoluções da humanidade mostraram nos últimos séculos o que significa a padronização. Seja no regime de trabalho, no vestir, na liberdade de expressão ou na forma de comer e falar. Estamos sempre tentando fazer parte de algum clubinho.

Os pequenos reclamam de sua estatura, os altos demais, também. Gordos querem emagrecer e ricos nunca acham quem têm o suficiente. Ondulados querem ser lisos e lisos querem volume. Querer o que naturalmente não é seu pode fazer com que traços, gestos e talentos únicos se percam, anulando assim, personalidades tão ou mais incríveis do que aquelas a quem pretendemos copiar.

Esta gangorra entre o querer o que não se tem e o reclamar do que consideramos abaixo da média para nós, cria um hábito cada vez mais obvio e perigoso: a intolerância. As relações passam a se basear em comportamentos infantis do tipo: Se não conheço, não me interessa e, se conheço e não gosto, falarei mal… Dessa forma, excluímos uma quantidade enorme de possibilidades, deixamos de considerar a pluralidade e nos tornamos restritos, menores e intolerantes.

Talvez uma reavaliação das nossas prioridades possa ser um grande passo para diminuir as reclamações que carregamos conosco, nos tornando mais leves e satisfeitos. Todos nós temos interesses possíveis e desejos realizáveis. Basta olhar para dentro e querer transformá-los em realidade.

Quantas pessoas chegam ao trabalho e reclamam de suas vidas e, ao retornarem para casa, perdem horas preciosas com mais e mais reclamações sobre o dia que tiveram? Muitas, certamente. O que é muito triste, mas para tudo há uma razão possível. Nos vendem sonhos irrealizáveis desde que nascemos e alguns simplesmente não conseguem ver a realidade por trás das propagandas enganosas, o que gera muita frustração. Se nossos filhos não se parecerem com os bebês de comercial de fraldas, tudo bem. Se aquela calça dos sonhos não está mais entrando, ok, acontece. Mas, sentir-se inadequado o tempo todo, não pode e não deve ser uma regra.

O detalhe mora em nós. Todas as vezes em que reclamamos demais e tentamos imprimir características alheias em quem somos, apagamos traços genuínos que poderiam expressar o que temos de melhor. Por isso, reclame sempre que quiser e precisar, mas cuidado para não virar um hábito vazio, afinal, reclamar do que se tem não é difícil. Complicado é criar novos caminhos para mudar a própria situação.  Reclamar requer atitude.