Quando o fim chegar

Ciclos. Somos regidos por incontáveis mecanismos com começo, meio, fim e recomeço. Sejam eles particulares ou não, nascemos com uma única certeza: todo ciclo tem seu fim. Exercemos controle temporário sobre alguns deles, mas na grande maioria das vezes, as peças movidas nesse tabuleiro pré-programado somos nós. Dessa forma, seguimos ávidos por ciclos que se iniciam, empolgados por novas jornadas, mesmo sem ter a menor noção de como será quando o fim chegar.

Nascer, crescer, reproduzir e morrer… essa é a cascata de eventos que aprendemos nas aulas de ciências e que acreditamos acontecer com todas as outras espécies do planeta, menos conosco. Agimos como se fossemos imunes aos efeitos do mais previsível de todos os ciclos. Nós, simplesmente, não aceitamos essa programação prévia, estabelecida e comum a absolutamente todos os seres que já passaram por esta terra.

Criamos delírios de eternidade para quase tudo que pensamos ou fazemos. Talvez este seja o maior reflexo da nossa incapacidade em aceitar a finitude de tudo o que nos cerca e, principalmente, da nossa inabilidade em enxergar o nosso próprio fim da linha. Traçamos planos a perder de vista, fazemos amizades sem data de validade, marcamos encontros que nunca acontecem e, quase sempre, fazemos juras de amor eternas, projetando a nossa existência para além dos limites conhecidos, apesar de sabermos, desde sempre, que o para sempre, sempre chega ao fim.

Então, como não conseguimos lidar com a certeza do fim, apostamos em nossas memórias para que, assim, seja possível prolongar indefinidamente os nossos ciclos, mesmo depois do ponto final. O que pode ser uma armadilha que nos mantém presos a momentos, pessoas e situações que há tempos não existem mais. Ciclos imaginários permitem um controle que nos dá a falsa impressão de que estamos no comando quando, na verdade, somos reféns de um mundo irreal, que restringe a nossa capacidade de reagir aos estímulos da realidade.

É difícil perceber as etapas de um ciclo. Começamos relações com laços muito sutis, que não deixam claro que, de fato, iniciamos um processo sem volta. Mas, basta perceber que estamos diante de algo importante para que, imediatamente, passemos a acreditar que aquilo será para sempre. Muitos diriam que isso nos torna otimistas. Será? Vislumbrar relações duradouras e repletas de felicidade, pode até ser um desejo, mas está longe de ser uma realidade. Ciclos reais não são suaves.

Voltando as relações. Quando percebemos que um novo amor começou, ficamos tomados por uma plenitude tão arrebatadora que, pensar no fim daquele êxtase, é a última coisa que se quer. Momento perfeito para juras de amor eterno, não é? Certamente, mas conforme o tempo passa e os ciclos avançam, tudo muda, independente do nosso desejo inicial. Paixões ardentes dão lugar ao amor constante e esse, por sua vez, requer atenção e paciência para continuar existindo. E se, por acaso, deixarmos de seguir o manual de cuidados do amor eterno, ele certamente chegará ao fim.

Mas, como fazer para aceitar o fim? Diante desse fato, temos dois caminhos. Um deles é não aceitar e tentar, de todas as formas, retardar as etapas de um ciclo, mesmo sabendo que isso não é possível. Apegar-se a memórias de um passado feliz é, normalmente, a escolha da maioria. Porém, a dificuldade em aceitar o fim não pode ser pior do que manter-se preso a relações terminais, disfarçadas com uma capa de ilusões de felicidade.

O outro caminho é compreender que nada dura para sempre. Só que para alcançar esse nível de lucidez, é preciso passar por vários ciclos imaginários cheios de armadilhas criadas por nós mesmos. Independente de qual será a escolha, em algum momento seremos obrigados a encarar o fim, sem retoques e sem possibilidade de retorno. Nesse momento, o vazio se estabelece, mas isso não é ruim. É apenas o anúncio de que estamos preparados para, enfim, iniciar um novo ciclo.

Nada pode ser mais triste…

Ódio… ódio e mais ódio. Estamos imersos em uma zona muito escura onde qualquer movimento, por mais simples, parece aumentar ainda mais a sensação de que não somos capazes de replicar nada, além de ressentimento, raiva e amargura. E nada pode ser mais triste que isso… ou será que pode?

Vivemos tempos duros, onde opiniões não são debatidas, são impostas. Tempos onde diálogos dão lugar a convicções particulares elevadas a categoria de verdades absolutas. Estamos sufocados por um cotidiano áspero, denso e nauseante, que tenta, a todo custo, silenciar murmúrios, lamentos e gritos. Tentamos sair do mesmo lugar mas nossas pernas pesam e nossos braços não alcançam saídas de emergência. Vidas aprisionadas, limitadas a ver o mundo sob a ótica do medo e do ódio. Tem como dar certo?

Saímos de casa cheios de dúvidas e com um único desejo: retornar com dignidade. Infelizmente, não há garantias para que isso aconteça. Estamos como crianças brincando em uma piscina onde, o primeiro a encostar na borda, estará eliminado do jogo. Porém, no nosso caso, as bordas aproximam-se do centro, encurralando a todos, deixando a clara mensagem: retirem-se, vocês não são bem vindos aqui. Por quanto tempo é possível aguentar?

Amigos revelam posições divergentes e apoiam causas que colidem violentamente com valores que prezamos tanto. O que seria normal, se não fossem tempos de cólera. Todos têm razão ou pelo menos querem ter. Nessa busca pela afirmação das causas próprias, formam-se facções que disputam território onde possam plantar suas certezas e suprimir seus contrapontos que, a esta altura, transformam-se em desafetos. Vale a pena lutar por isso?

E sob o domínio de um medo tão consistente, seguimos sem muitos planos, apenas reagindo aos estímulos que a vida nos dá. Perdidos em uma sequência de sobressaltos que aceleram o nosso coração e amolecem as nossas pernas. À mercê de toda a sorte de riscos que só uma sociedade adoecida é capaz de oferecer. Hoje, para provocar pânico não é preciso vislumbrar uma ameaça real, basta apenas enxergar o diferente como algo ameaçador. Foi para isso que evoluímos tanto?

O medo, o ódio e a ignorância são forjados do mesmo material, fluido e maleável, que pode crescer indefinidamente, sem apresentar nenhuma rachadura. Basta que seja inflado com cuidado até que tomem corpo e englobem tudo a sua volta. Criando uma cobertura dissimulada que envolve a todos com uma película impossível de ser detectada. Assim, lutas fervorosas são travadas, acusações graves são feitas e relações são desfeitas, mas nenhum dos lados consegue enxergar essas camadas, o que torna impossível perceber quem, de fato, comanda toda essa batalha. Até quando ficaremos tão cegos?

A compaixão, algo tão inerente a humanidade, torna-se cada vez mais supérflua. Uma perfumaria cara, um artigo de luxo. Não podemos acreditar, por nem um segundo, que isso é verdadeiro. Sentir-se conectado a quem está ao nosso redor, é sentir suas alegrias, angústias, medos, é perceber seus defeitos e qualidades. Se privar disso é escolher não entender o próprio mundo, a própria realidade. Sentir o outro é, também, se ver refletido. Abraçar o outro, é sentir o mesmo abraço. Ouvir as experiências alheias, é vivencia-las também. A isso, chamamos de empatia. De que vale usar um termo da moda, sem saber o seu significado?

Morremos cada dia mais. Grupos morrem aos milhares. Mas pouco importa, enquanto isso não nos afetar diretamente, são apenas estatísticas arremessadas em nossa direção diariamente. Em cidades onde o medo e a ignorância são os pais do ódio, ninguém deveria se sentir indiferente a dor do outro. Talvez este seja o maior desafio dos tempos atuais: curar corações repletos de horror para que, só assim, seja possível resgatar e transformar em realidade a empatia presente apenas no discurso. Vale a pena tentar? Nunca valeu tão a pena resgatar a nossa própria humanidade.

O peso das nossas escolhas

O que eu faço agora? Essa pergunta é feita todas as vezes em que o chão desaparece sob nossos pés e ficamos à deriva, sem referências e sem a menor ideia do que fazer. Não paramos para pensar sobre isso, a não ser que sejamos vítimas dessa súbita falta de base que, ao contrário do que parece, não nos deixa sem opções. Sofremos exatamente por não saber escolher diante de tantas possibilidades que se abrem a nossa frente mas, principalmente, sofremos por não saber qual será o peso das nossas escolhas.

Esse questionamento, que precede uma escolha rápida e sem ensaios, cria um desconforto em vários sentidos. Ora por demonstrar nossas fragilidades, ora por expressar ansiedade ou, simplesmente, porque nos faz constatar que não estamos preparados para tudo. Mas isto está longe de ser algo ruim. Ser pego de surpresa, exige uma capacidade de reação veloz e, normalmente, sem segundas chances. Erros nas escolhas são bem mais comuns que acertos, mas, como quase tudo na vida, tomar decisões mais assertivas, também depende de experiência e aprendizado.

Há momentos onde o mundo passa por cima de nós como um rolo compressor, exigindo respostas para perguntas que sequer entendemos, sem oferecer tempo para reflexões ou buscas por novos caminhos. Diante desse beco sem saída, só nos resta procurar soluções onde elas são mais difíceis de encontrar: dentro nós. Neste cenário, somos obrigados a voltar o olhar para nosso interior, nem que seja por uma fração de segundo,  e tentar achar forças em lugares que jamais acessamos. Dessa forma, adentramos em áreas nebulosas e desconhecidas, perdidas em nossas gavetas internas.

Pensando dessa maneira, não saber como agir em determinadas situações, tem o seu lado bom. Fincar raízes muito profundas pode restringir nossos reflexos e comprometer a nossa capacidade de reagir as surpresas que a vida nos oferece. Perguntar-se o que fazer, quase nunca traz as respostas certas e, muito menos, aquelas que esperamos. Por uma simples razão: Não há certezas, erros ou acertos. Existem apenas possibilidades que serão criadas de acordo com as nossas decisões.

Ser confrontado por situações desconcertantes, reduz a nossa possibilidade de escolha, permitindo que fiquemos entre o não, que nos deixa estagnados no mesmo porto seguro, ou o sim, que pede uma dose extra de coragem para navegar por mares desconhecidos. Mas, independente da escolha, algumas perguntas são impacientes e pedem respostas instantâneas. É esta fração de segundo que nos faz seguir em frente e, pouco importa, se vamos dizer sim ou não, o importante no momento de decisão, é a forma como teremos que lidar com as nossas certezas, inseguranças, verdades, mentiras…

O imprevisível caminha ao lado desses momentos. Nunca saberemos ao certo quando ou porque será necessário pular mais alto e decidir algo de primeira. Muito menos saber o quão difícil será tomar decisões que não estavam em nossos planos e que podem, com frequência, afetar as pessoas ao nosso redor, de formas que não podemos prever. É sempre bom não perder de vista que as nossas decisões, por mais simples que sejam, jamais serão individuais.

É claro que a vida nos coloca em situações onde há muito pouco ou nada a ser feito mas, ainda assim, é possível decidir se nos conformamos ou não com essa situação. Vivemos as decisões que tomamos, sejam elas repentinas ou não. Porém, sempre que exercitamos a nossa capacidade de escolha, conhecemos um pouco mais de nós e reconhecemos limites. Por vezes colocamos esses limites à prova, o que nos ajuda a compreender que existem linhas que não devem ser ultrapassadas.

Decisões são desafiadoras e nos testam de formas que nem imaginaríamos possíveis. O ato de escolher impõe mudanças, quer você queira ou não.  É difícil dizer se escolhemos os caminhos corretos, mas podemos afirmar que somos a síntese das escolhas que fizemos. O que faremos daqui em diante? Escolhas. Qual a melhor maneira de fazê-las? Aprendendo com elas…

A difícil arte da despedida

Que encontraremos muitas dificuldades pela vida afora, ninguém duvida, mas algumas são particularmente indigestas. É o caso das despedidas. Estas estão, certamente, no topo da lista, até por conta da sua natureza. Dizer adeus não é uma simples fala, é uma atitude que, dependendo da ocasião, pode ser algo difícil de entender e aceitar.

Não é fácil precisar quantas vezes nos vimos obrigados a dizer até logo, tchau ou adeus. Afinal, como é possível que algo que fazemos todos os dias, possa ser tão complicado? Simples. Despedidas são pessoais, intransferíveis e não dependem apenas do nosso consentimento. Dessa forma, seja para dizer ou ouvir os sinais de afastamento, sempre precisaremos da participação e da vontade de outros atores, talvez por isso seja tão complicado vivenciá-los.

Visto dessa forma, a despedida parece algo ruim e que sempre nos trará dor e sofrimento. Em alguns momentos sim, é verdade, mas sempre há um quê de renovação por trás de um simples até logo. Despedir-se dos amigos do trabalho após um dia exaustivo, pode significar um retorno feliz pra casa, uma ida ao cinema ou um encontro com amigos. Dizer tchau aos seus pais, depois de um bom domingo em família, nos permite retornar as nossas vidas particulares, repletos de amor e boas energias. Essas despedidas são quase uma forma de carinho, pois sabemos que são temporárias e que, todas as vezes em que for preciso dizer esse tipo de adeus, é porque voltaremos a viver aqueles bons momentos novamente.

Sair de casa, mudar de profissão, ver os filhos voando para fora do seu ninho ou terminar um relacionamento abusivo. Todas essas situações estão impregnadas de sentimentos como a saudade, rancor, amor, frustração e ansiedade. Despedir-se do que quer que seja, pressupõe um afastamento, o que irá provocar uma distância, maior ou menor, daquilo que estávamos tão acostumados a chamar de nosso.

Mas, dentre todas as formas de dizer adeus, nada supera a dificuldade que temos em aceitar as despedidas definitivas e inevitáveis. Aquelas em que nenhuma vontade é respeitada e nenhum desejo é levado em conta, pois elas irão acontecer independente do nosso querer e sem dar qualquer explicação. Deixando para trás uma estrada devastada por vazios preenchidos de silêncios e perguntas sem respostas…

Perder. Já repararam que as perdas, seja lá quais forem, são quase sempre precedidas por despedidas? Quando viajamos sem destino e sem data de retorno, significa que perderemos, por tempo indeterminado, aquilo que nos era garantido. Mas, nesta situação, houve a possibilidade de dizer até breve, mesmo que a despedida do que deixamos para trás, fosse definitiva. O grande problema é quando, por um capricho das circunstâncias, somos privados do direito de dizer adeus. É nesse ponto onde somos tomados pela impotência diante de coisas completamente fora do alcance na nossa compreensão. E isso incomoda.

Dizer adeus é como dar o último passo de dança ou pôr um ponto final de uma história. Quando isso não acontece, nos perdemos em passos aleatórios e textos desconectados que não nos levam a lugar algum. Então, apesar de todo o peso que algumas despedidas podem ter, é preciso dizer adeus para que novas etapas possam, enfim, começar. É difícil perceber quando, de uma hora para outra, aquilo que era nosso por direito, passa a ser algo deslocado e menos importante.

Nesses momentos, despedir-se é o melhor a ser feito. A sensação de posse pode, muitas vezes, mascarar a importância das coisas. Deixar para trás o que não precisamos, não significa que não sentiremos falta, mas sim, que é necessário buscar novos caminhos e experiências. Despedir-se é dizer adeus a ilusória sensação de pertencimento.

É permitido resistir

Resistência. Que sensação é essa que se estabelece em nós e que é capaz de nos forçar a seguir em frente, mesmo quando não temos forças para dar um passo sequer? Que sensação é essa que nos faz ignorar todas as adversidades, continuar caminhado e acreditando em mudanças, novas possibilidades e vitórias? Não sei dizer, mas uma coisa é certa, sempre será permitido resistir.

Resistir é, possivelmente, uma daquelas ações sobre as quais temos pouco ou nenhum controle, a partir do momento em que sucumbimos a ela. Sim, a resistência é tão arrebatadora quanto um tsunami que chega sem aviso e sem limites. E por uma razão muito simples. Resistir é o efeito colateral da insatisfação. Uma vez que conseguimos perceber que algo nos incomoda, reagimos. Com intensidades diferentes, é claro, mas é difícil se manter alheio a algo que nos perturba.

Seguindo as leis da física, toda ação gera uma reação contrária e na mesma intensidade… Porém, isso nem sempre se aplica ao nosso dia a dia. Amadurecemos e com isso, criamos uma certa tolerância as ações que sofremos ao longo da vida. Há aqueles que respondem prontamente a todo e qualquer sinal de incômodo e que não guardam desaforos para depois. Mas também existem os que não respondem prontamente e que guardam seus incômodos para outra hora. E  há, ainda, aqueles que simplesmente não reagem quando confrontados por algo que os desestabiliza. O que é uma pena…

A natureza nos forjou para reagir a tudo que nos cerca. Reagimos ao medo, ao prazer, a dor, a fome ou a sede. Mas a vida moderna nos bombardeia com uma quantidade tão grande de desafios, sufocando a todos de tal forma, que torna-se difícil estar pronto para a guerra o tempo todo. Dessa forma, vamos priorizando as batalhas que podem ser vencidas e acumulamos, sem perceber, espinhos que incomodam pouco inicialmente, mas que, com o tempo, tornam-se grandes fontes de dor.

É obvio que não é nada fácil reagir a tudo e a todo instante, mas não podemos abrir mão da nossa capacidade de reação. É ela que nos dá a real medida de onde podemos chegar. É ela que nos diz que não devemos desistir do que se quer, ao primeiro sinal de dificuldade. A resistência sempre abre novas passagens por caminhos bastante estreitos e difíceis. Mas vale o sacrifício, apesar dos contratempos.

Mesmo tendo a certeza de que na prática, resistir nem sempre é tão simples, é preciso estar disposto. Situações estabelecidas só podem ser mudadas a partir da nossa vontade, ou seja, para transformar, é preciso resistir. Mas, infelizmente, a nossa capacidade de reação vai se diluindo à medida que o tempo passa e nos torna mais tolerantes a toda sorte de incômodos. Criando uma razão inversa e proporcional onde, quanto maior a nossa tolerância, menor o nosso instinto de resistência.

Isso cria uma atmosfera de acomodação que impede a tomada de decisões que podem transformar os nossos rumos. E, para além disso, esta inércia cria uma casta de pessoas que perdem, progressivamente, a sua capacidade de escolha. Não expressar descontentamento com aquilo que nos lesa, nos torna cúmplices da nossa própria infelicidade. É bom ter em mente que, todas as vezes que nos calamos, outro irá falar por nós.

Resistência é algo que se constrói ao longo da vida, a partir das experiências que nos põem à prova, seja de forma coletiva ou particular. Resistir é um exercício que melhoramos com a prática. Por isso, todas as vezes em que for preciso escolher entre seu bem estar e algo que lhe incomoda, apenas para não se indispor, resista. A nossa capacidade de resistir é o que nos representa no mundo. A nossa capacidade de resistir é o que nos faz chegar mais longe. Sobreviver sempre foi e sempre será, um ato de resistência.

 

Recortes de felicidade

Vivemos um momento muito curioso, onde a realidade parece ter se partido em muitos fragmentos e, cada um deles, reflete uma imagem da mesma história. Algumas mais agradáveis, outras nem tanto. Mas o que chama atenção, é a quantidade de momentos incríveis que fazemos questão de divulgar à exaustão como se, de alguma forma, isso fosse capaz de neutralizar as partes ordinárias do nosso dia a dia.

Todo mundo já percebeu isso em algum momento e já abordei isso em outros textos, mas impressiona o volume de realidades alternativas que encontramos a todo instante. Parece que estamos caminhando a passos largos para uma espécie de “matrix” onde projetamos vidas perfeitas, que serão admiradas e invejadas. À medida que o tempo passa e vamos nos acostumando a esse comportamento, passamos a esconder o que é real e comum a todos nós: nossa humanidade.

É ela que nos dá a exata medida do que somos. Criaturas que reagem ao meio onde vivem das mais diferentes formas e intensidades. Criando um comportamento tão complexo que não pode ser, de maneira alguma, resumido a postagens solares, sorridentes e editadas. Somos muito mais que isso. Há beleza na lágrima, há importância no medo e aprendizado na dor. Não se pode ignorar ou reprimir facetas tão essenciais, que ajudam a entender que a vida é feita a partir de um todo e, jamais, de recortes de felicidade.

A cada dia, a socialização virtual cria um novo movimento que atua como uma força da natureza, completamente fora de controle. O que nos leva a perseguir modelos inatingíveis, felicidades escancaradas e fórmulas prontas que só existem no mundo virtual. Estamos, pouco a pouco, abrindo mão dos detalhes que nos tornam únicos, para abraçar formatos padronizados onde todos são tão estranhamente semelhantes, que é quase impossível identificar quem é quem.

São muitos os pontos que levam a esse erro de avaliação e que nos dizem o tempo todo, que devemos ser iguais, apesar das diferenças. Mas o que salta aos olhos de forma quase agressiva, é a obrigação de expressar uma felicidade desmedida. De uma hora para outra, todos resolveram publicar fotos que traduzem momentos únicos, repletos de uma alegria especial, reservada a todos aqueles que acreditam no ideal da vida perfeita. Mesmo que isso não passe de faz de conta.

Estar feliz demais em situações onde a grande maioria não vê felicidade alguma, além de forçar uma barra, pode causar impressões absolutamente impossíveis de reproduzir. Que fique claro que esta não é uma crítica ao bem viver, ao contrário. Mas, a superexposição de uma vida absolutamente feliz é preocupante sim, uma vez que pode sufocar sentimentos e anular desejos. Quem nunca exagerou no sorriso para uma selfie perfeita na praia para, no instante seguinte, desmanchar a alegria e constatar que gostaria de estar em qualquer lugar longe dali? Esta é a grande questão. Até que ponto devemos suprimir o que, de fato, sentimos, para expor uma perfeição irreal e perversa?

Entender de que formas essa nova forma de viver irá nos afetar, só o tempo dirá, mas é possível não sucumbir completamente as maravilhas da felicidade obrigatória. Como? Valorizando todas as outras experiências. A vida real está longe de ser feita apenas por momentos felizes. Altos e baixos farão parte da jornada o tempo todo. Por isso fique atento aos sinais e não se sinta menos feliz só porque outros demonstram explosões de felicidade. Essas expressões podem conter altas doses de infelicidade.

Hoje é carnaval

Folia. Muitas são as definições relacionadas e essa palavra, mas me chamou a atenção aquela que diz que a folia é uma antiga dança portuguesa, bem animada, acompanhada por cantos e pandeiros e executada por homens vestidos de mulher. Isso ajuda a entender muitas coisas.

Ah, o carnaval! Época esperada por muitos, tolerada por uns e execrada por outros tantos. Independente do seu amor ou ódio pelos dias de folia, é inegável a transformação coletiva observada ao longo destes quatro dias e não se engane, mesmo que não seja um folião profissional, seus hábitos e certezas sempre mudarão durante as festas de momo.

Mas, se você é um folião inveterado, daqueles que programam com antecedência para onde ir, o que fazer e quais serão as fantasias da vez, este é, sem dúvidas, o melhor momento do ano. É hora de festejar e colocar para fora angústias e frustrações como se o mundo tivesse uma data de validade de apenas quatro dias… Isso pode ser bem perigoso.

Quais serão os motivos que nos levam a reprimir desejos e vontades por tanto tempo? Provavelmente não teremos uma resposta elaborada capaz de atender a essa pergunta, mas seguimos acompanhados de uma certeza: O carnaval vai chegar! E vai trazer as chaves que libertam todas as feras que deixamos adormecidas por meses em nossas caixas de pandora e que, apenas agora, liberamos seu acesso ao mundo, sem maiores restrições, ou quase isso.

Há quem diga que é um período de excessos. Não discordo. Tudo no carnaval é superlativo. Brincamos demais, bebemos demais, amamos repetidas vezes e experimentamos uma felicidade em estado bruto, livre das amarras morais que o cotidiano nos impõe.

Isto significa dizer que estamos livres para explodir toda a irresponsabilidade e inconsequência que mora em nós, durante a folia? Longe disso. Diversão é um ritmo que necessita de parceiros para que a dança seja bem executada e errar o passo, pode, quase sempre, pôr a perder toda a expectativa de felicidade, acalentada por meses a fio. Exageros podem, infelizmente, levar a excessos que destoam do espírito da festa.

Para muitos, o carnaval serve como refúgio silencioso, mas isso não é menos transformador. Mesmo que a escolha seja ficar em casa assistindo aos festejos pela televisão, algum sentimento será despertado pelas imagens que são vistas. A admiração pela beleza das fantasias, a alegria provocada pela irreverência dos foliões ou a vergonha alheia causada pela falta de figurino de alguns. Não importa o que se sente, mas como se sente. Os dias de folia chegam, alteram a nossa rotina e podem nos presentear com prazer e cansaço ou com reflexão e relaxamento, afinal, poucas datas são tão democráticas quanto a festa pagã.

O carnaval estará sempre presente nossas vidas. Para muitos, essa data traz liberdade para ser quem se é de verdade e permite que sejam retiradas as pesadas máscaras que carregam o ano todo, deixando à mostra suas alegorias reais, sem adereços. É por isso que, para muitas pessoas, as fantasias escolhidas para o carnaval são, de fato, as suas verdadeiras personas.

O carnaval existe para ser apreciado por todos os nossos sentidos, o que não significa que não devemos refletir sobre todas ilusões e armadilhas que ele nos oferece e, acima de tudo, não podemos ignorar os efeitos que todos nós, em algum grau, sentimos diante deste impressionante espetáculo.

As fantasias podem nos revelar, esconder ou projetar quem gostaríamos de ser. Isso é compartilhado por milhões de pessoas durante frenéticos quatro dias. Talvez esteja aí a grande força desta festa. Todos unidos pelo desejo de mostrar ao mundo, aquilo que mantém escondido e que poucos conhecem e, à medida que todos dividem o mesmo sonho, não há julgamento, não há culpa. Há folia! Bom carnaval a todos!

Livre, leve e solto

Estar livre, leve e solto, é algo muito desejado, mas que, infelizmente, nem sempre é possível. Em outras palavras, queremos uma sensação de liberdade onde nada mais importa, além da nossa própria vontade. Mas se, em tese, não vivemos escravizados, por que, então, buscamos algo que já temos? É neste ponto em que somos obrigados a encarar uma das verdades que regem, especialmente, a vida adulta: não somos senhores absolutos de nós mesmos. Por mais que se acredite no contrário…

A vida segue um ritmo próprio e nós somos tragados por esse fluxo. E, para não nos perdermos no meio da caminhada, lançamos linhas imaginárias que nos ajudam a construir referências e criar vínculos. Dessa forma, ao mesmo tempo em que as linhas ajudam a criar identidade, também nos envolvem e, ora servem como guias, ora servem como âncoras.

É evidente que não conseguimos perceber esse emaranhado imaginário, mas fatalmente sentiremos seus efeitos em algum momento. Especialmente quando pretendemos tomar decisões ou mudar perspectivas, mas sentimos que algo nos prende ou impede que sigamos novos desafios. Essa dificuldade em se movimentar para onde se deseja, é o que nos dá a medida do quanto podemos estar presos aos nossos próprios laços. E como estabelecemos limites que nos impedem de ir aonde bem entendermos, mesmo estando aparentemente livres.

A conquista de um emprego, relacionamentos, filhos, amigos e todas essas conquistas pessoais e que são comuns a imensa maioria de nós, criam os tais vínculos que tanto buscamos e, na mesma medida, diminuem a amplitude dos nossos movimentos quando pensamos em nos jogar em novas aventuras solo. Reparem que atar-se ao que quer que seja, não é ruim. É apenas um dos sinais de que, ao longo da vida, nos comprometemos com nossas escolhas. Isso, sim, nos acompanhará sempre e para sempre.

Então, seria correto dizer que a tal liberdade só está disponível para aqueles que não se comprometem? Não. Mas estes, certamente, levam uma certa vantagem. A grande questão não está relacionada ao número de vínculos que formamos e, sim, a ideia de que somos livres para fazermos o que quisermos, quando bem entendermos. Você pode até acreditar nisso, mas, em algum momento, verá que romper seus laços não será simples como dizem por aí.

Reparem que não estamos falando de um problema, mas sim, da percepção dos nossos limites e da noção que carregamos sobre o que é liberdade. Ser livre é, antes de tudo, uma atitude interna, que não depende de nada além da nossa vontade. E isso é transformador, uma vez que esse sentimento é capaz de promover mudanças tão profundas, que podem alterar rumos aparentemente inalteráveis, independente do novelo de linhas que nos envolve.

A liberdade que buscamos não está no outro e não está no descompromisso. A leveza do ser livre ultrapassa convenções. A leveza do ser livre independe das linhas que carregamos, dos vínculos que fazemos ou deixamos de fazer. Ser livre, leve e solto é perceber que a liberdade mora no que é simples, no que é fácil e naquilo que nos permite enxergar além dos frágeis nós que nos atam.

É preciso falar de amor

Muito já foi dito e muito mais ainda está por vir quando o assunto é amor. E é fácil entender o porquê de tanto alarde sobre esse sentimento. Ele agrega formas de sentir tão distintas, que fica impensável viver e não falar dele. É impossível se relacionar sem que se perceba que, em algum momento, será preciso falar de amor.

Quando pensamos em amar, o amor romântico ganha destaque. Mas é injusto que este seja sempre o mais falado, o mais desejado e o mais obsessivamente procurado por nove entre dez mortais. Há muitas formas de amor que, consequentemente, criam diversas possibilidades de amar. O amor religioso, por exemplo, diz que o próximo é o objeto onde devemos aplicar a nossa capacidade de amar. Já o amor fraternal, indica que todos são capazes de amar uns aos outros como irmãos. Os egoístas diriam que não há nada melhor do que amar a si próprio e os abnegados preferem amar a todos, desde que eles fiquem de fora da lista…

Reparem que, independente do tipo, para que o amor exista, serão necessários os seguintes atores: a fonte, o alvo e o retorno. É preciso que haja alguém disponível para amar, uma outra ponta para receber esse amor e transferi-lo de volta para sua origem. Essa é a receita clássica para que as relações baseadas nesse sentimento deem certo. Mas, em se tratando de amor, nada é tão simples. Esse fluxo de energia que parece muito óbvio, pode, e vai, encontrar muitas alterações em sua forma e conteúdo, até que chegue ao seu destino final. É confuso? Muito. Mas amar sempre foi e, continuará sendo, um desafio.

Começando do início. Aprendemos, desde cedo, que o amor é algo bom, que devemos sentir sempre ou, pelo menos, tentar tê-lo por perto. Mas com o passar do tempo, nos tornamos fontes capazes de gerar amor em intensidades muito diferentes, pois, à medida que crescemos, somos obrigados a dividir esse sentimento com muitas pessoas e de formas muito particulares. Amamos nossa família, amigos, cachorros, parceiros, profissão e tudo mais, de formas muito diferentes. A origem do sentimento é a mesma, porém os alvos mudam o tempo todo. O que torna imprevisível saber qual é o tipo de retorno que teremos a partir do amor que ofertamos.

Talvez seja neste ponto onde as coisas começam a ficar interessantes, para dizer o mínimo. Poucos duvidam de sua capacidade de amar, o que nos diferencia é a forma de expressar esse sentimento. Até aí tudo bem pois,  neste quesito, somos nós quem mandamos. Cada um de nós sabe do seu potencial para amar e para onde ou para quem, iremos transferir este nobre sentimento. A coisa sai dos trilhos quando deixa de depender da nossa vontade. Ao focarmos um alvo, transferimos a bola para outra pessoa e, é ela, quem vai decidir se nos devolve o passe, se esquiva, ou passa para outro…

Isso pode dar início a uma partida sem fim, onde não sossegaremos até que o passe caia redondo nos pés de alguém e esse alguém faça um gol de placa, retribuindo, assim, todo o amor que tanto queríamos. É claro que, muitas vezes, isso não acontece e partimos para novas possibilidades, novos jogos e novos passes. As vezes conseguimos isso com facilidade, mas, normalmente, demoramos a entender que a bola que tratamos com tanto carinho, jamais voltará para os nossos pés.

Pensar dessa forma, nos ajuda a entender que amor, antes de tudo, precisa ser uma atitude individual. É primordial que, antes de amar ao que quer que seja, tenhamos em mente que nós somos a fonte que pode gerar amor. Não apenas aquele que transborda para alvos externos, mas sim, aquele que nos alimenta, nos fortalece e permite que enxerguemos o mundo sob vários pontos de vista. E, em tempos difíceis como agora, nunca foi tão importante falar, praticar, aceitar e retribuir amor.

 

O conforto e suas zonas

Conforto… a simples menção dessa palavra, vem acompanhada de um calor que nos faz desejar estar em qualquer lugar que possa nos acolher. Um colo de mãe, a palavra certa no momento necessário ou um café quente em um dia frio, trazem sentimentos e memórias que ajudam a respirar nas horas difíceis.

Já, a ausência de conforto, expõe nossas inseguranças e medos e isso, obviamente, ninguém quer. Apesar de indesejável, a sensação de estar inadequado possibilita que enxerguemos algumas rotas de fuga capazes de, não apenas, nos salvar de embaraços, mas também, de iluminar caminhos até então, desconhecidos.

À medida que construímos planos de vida, via de regra, pensamos em conquistas que irão nos proporcionar qualidade em nosso viver. O que para uns pode ser uma volta ao mundo, para outros, basta um bom papo com um vinho e um pôr do sol, para que a felicidade se expresse. Em ambas as situações, há uma atmosfera agradavelmente envolvida por um desejo de que aquilo se torne realidade. Mas, o que nos leva a desejar que nossos sonhos  transformem-se em experiências? A certeza de que, nos sonhos, estaremos  repletos de conforto.

Partindo da premissa que estar confortável é tudo o que se quer, por que, então, criamos um padrão de comportamento que nos obriga a falar mal dos momentos em que estamos ocupando o lugar, que nos habituamos a chamar de zona de conforto? Parece contraditório, e é.

Todas as vezes que nos damos conta de que algum setor das nossas vidas, não apresenta mais a mesma intensidade exibida tempos atrás, achamos por  bem fazer uso do termo que caiu no senso comum e, passamos a maldizer aquilo que levamos uma vida querendo alcançar: o conforto.

Mas, será que é tão ruim assim alcançar esta zona? Para responder a essa pergunta, é preciso compreender o que significa conforto, de fato, e qual é a sua importância na vida de cada um de nós. Basta olharmos para as pessoas que nos cercam. Alguns almejaram alcançar posições e, ao chegarem lá, sentem-se plenos, realizados e desprovidos de qualquer culpa. Já, outros, cobram-se duramente, pois acreditam que sempre há um novo degrau a subir e que, estar confortável, é estar acomodado.

Nesta questão não há certos e errados. O grande engano é pensar que todos devemos seguir padrões que, supostamente, nos tornam mais competitivos, mais espertos e imunes a derrotas e decepções. Isso é ruim, uma vez que estabelece que todos, sem exceção, precisam sentir-se inadequados de alguma forma, para que possam seguir em frente na busca por seus sonhos. Talvez seja necessário compreender que o céu até pode ser o limite, mas que esse limite irá variar de acordo com o tamanho do sonho de cada um.

A partir disso, é bem provável que consigamos olhar para o conforto como aquele velho amigo que desejamos encontrar e ter por perto sempre que possível. Sem pressão, sem cobranças. Não há nada pior que sentir-se parte de algo mas que, por conta de um movimento alheio ao nosso desejo, temos que abandonar a nossa zona de conforto, porque alguém disse que aquilo não era suficiente.

Felizmente, a percepção sobre o que nos faz sentir confortáveis, muda com o passar do tempo. Sendo assim, não se perca em modelos que determinam até  onde você deve ir. Vá para onde quiser, fique o tempo que desejar e lembre-se: zona de conforto é aquela onde se quer estar.