O amor não cabe em caixas pequenas

Já pararam para pensar em quantas coisas se alteram ao nosso redor, todas as vezes em que o amor resolve entrar em nossas vidas, com a sutileza de um elefante em uma loja de cristais? Amar é um exercício de organização. Uma vez que ele se estabelece, é praticamente impossível contê-lo. É aí que o problema começa: o amor não cabe em caixas pequenas.

Se fosse uma pessoa, o amor seria daquelas bem atrapalhadas que tentam passar despercebidas mas que, ao menor sinal de silêncio, derrubam algo barulhento e denunciam a sua presença. O amor também pode ser um adolescente que cresceu demais e ainda não sabe lidar com o seu novo eixo de gravidade. O amor é, também, um senhor de bengala que tem dificuldade ao subir escadas mas que, diante da tarefa árdua, ajusta seu passo e segue seu caminho, sem pressa, porque sabe que não é a velocidade e, sim, a resistência, que o fará chegar onde quer.

Resistência. Esta é, sem dúvida, a maior característica das pessoas que amam. E por que? Imaginem que o amor é, ou pelo menos espera-se que seja, uma via de mão dupla onde, aquilo que é sentido por um, encontra abrigo no peito do outro. Mas, como eu disse, isso é o que se espera. Não há garantia de sucesso. A reciprocidade que esperamos encontrar, nem sempre, estará pronta para caminhar junto com a lista de exigências imposta àqueles que buscam o mais cobiçado dos sentimentos. Sim, o amor também pode ser exigente como um astro pop…

É impressionante como esse sentimento tão batido, continua a render assuntos sem fim. A capacidade de mudar de forma, tão própria do amor, é responsável por gerar experiências muito particulares, apesar de ser o mesmo sentimento. Mães amam seus filhos de formas diferentes, apesar de negarem preferências. Sentimos amor por muitas pessoas mas, independente do número, vivemos experiências únicas com cada uma delas. Caímos de amores por muitas coisas, mas, para cada uma delas, um amor próprio, pessoal e intransferível.

Reparem na contradição: se o amor é único, como é possível senti-lo de tantas formas? Talvez este seja o grande segredo de seu sucesso: disfarçar-se com uma simplicidade que, de fato, só existe aos olhos distraídos daqueles que estão prestes a se apaixonar. O amor é uma estrada cheia de curvas que não deixam muito claro para onde vamos ou quando vamos chegar. O que nos resta é seguir o fluxo e aproveitar as experiências pelo caminho.

As muitas faces do amor encontram reflexo nas mudanças que sofremos vida afora. Seria difícil imaginar-se ao lado de seu amor da adolescência trinta anos depois? Possivelmente. Os anos seguem e nós mudamos de pele e as formas de amar acompanham essas mudanças. O que antes nos envolvia com facilidade, hoje não cabe mais. Nós e o amor… esse é um modelo de chave e fechadura que, raramente, consegue ser compatível a primeira vista, apesar de muitos jurarem que já conseguiram essa façanha. Mas, me parece, que o grande desafio por trás de tudo isso, não é apenas achar o par correto ou seu encaixe perfeito. Conhecer seus próprios limites também faz parte dos encantamentos do amor.

Amar pode parecer um jogo, uma disputa ou uma batalha. O amor muda, nós mudamos e, por esta razão, nem sempre é fácil agendar um momento onde nossas mudanças serão parcialmente complementares.  O amor nos desafia, não porque é um sentimento difícil de sentir, ao contrário. O amor tem formas simples que mudam de molde o tempo todo por uma única razão: para nos mostrar que, quando se trata de amar, não adianta esperar por encaixes perfeitos.

O dia perfeito

Sabe aqueles dias em que, por algum motivo que ultrapassa a nossa compreensão, o universo se alinha e conspira a nosso favor, transformando aquelas vontades esquecidas em realidade? Pois é. Investimos um bocado de tempo na busca por esses momentos, mas eles são caprichosos. Não basta apenas querer, até porque, o dia perfeito não respeita a nossa vontade, ele se constrói a partir de coisas simples e inesperadas. Mas, nem sempre estamos com o foco ajustado para reconhecer bons momentos disfarçados em meio a simplicidade.

Cada um de nós possui um ideal do que pode ser, ou não, perfeito. Há o senso comum que diz que a perfeição é formada por notas fora do alcance da grande maioria. Existe um quê de masoquismo por trás desse padrão, que é compartilhado por nove entre dez criaturas nesse planeta. Mas tudo bem, sabemos o quanto é difícil encarar e vencer costumes há muito estabelecidos. Buscamos o perfeito lá longe de nós, porque entendemos, desde muito cedo que, o vizinho sempre terá a grama mais verde que a nossa. Talvez seja a hora de regar os nossos próprios gramados…

Quando escolhemos seguir por essa trilha que liga o perfeito ao inatingível, miramos apenas nas perfeições em grande escala e, com isso, deixamos de perceber as surpresas sutis, os encontros rápidos, os olhares alegres e os sorrisos sem máscaras que recebemos com uma frequência muito maior do que somos capazes de lembrar. Certamente, grande parte da nossa queixa sobre a escassez de dias perfeitos, vêm da nossa miopia que nos leva a enxergar grandiosidades, mas que nos impede de ver pequenas felicidades.

Um dia ensolarado, de brisa amena e o mar cristalino como horizonte… Este é, sem dúvidas, o cenário de um dia perfeito. Claro que não. Há uma legião de pessoas que não nutre nenhuma simpatia por areia, calor e água gelada. Podemos, então, pensar ainda em um dia chuvoso, uma casa no campo, um vinho e uma lareira para dar o tom do dia perfeito. Já consigo lembrar dos nomes de pessoas que detestam frio, dias nublados e falta de agitação… É difícil enquadrar e agradar as nossas ideias de perfeição. Mas quem disse que os melhores dias assim precisam de uma moldura?

No exato instante em que entendemos que a perfeição vai muito além do senso comum, que diz que o perfeito é algo para poucos, passamos a aproveitar mais os detalhes felizes que compõem o nosso cotidiano. Definitivamente, não dá pra passar um vida acreditando que dias perfeitos precisam de um planejamento prévio, de um investimento de tempo para que tudo seja como esperamos. Quantas vezes não ouvimos estórias de momentos programados e pensados para serem perfeitos mas que, no fim, não passaram de um grande rascunho de felicidade?

Nossa busca por dias plenos que nos colocam em estado de graça, também é responsável por nossa falta de perspectiva em relação ao que pode ou não tornar-se memorável. E isso não traz nada de positivo, ao contrário, nos engessa e endurece. A perfeição está presente em dias leves e despretensiosos. Dias perfeitos cabem, com folga, dentro de abraços, da preguiça em dias nublados, do sorriso de uma criança, da mensagem de uma amiga contando que esta grávida de seu primeiro filho… Dias perfeitos são todos aqueles em que jogamos os padrões para o alto e nos permitimos saborear a felicidade que se esconde nos detalhes.

O poço e o fundo

Ficar sem chão… Possivelmente, já perdemos a conta de quantas vezes repetimos ou ouvimos essa expressão e por motivos absolutamente distintos. Sentir-se em meio a um turbilhão de sensações com as quais não conseguimos lidar ou, simplesmente, não podemos lidar, transforma a nossa percepção da realidade. Faz com que acreditemos que não há saída, não há escape, não há fim e que somos apenas nós, o poço e o fundo. Mas, se estamos aqui para falar sobre isso, é porque já faz tempo que descobrimos atalhos que nos levam de volta à superfície.

É engraçado pensar que passamos uma existência focados em pólos absolutamente opostos. Se, por um lado, queremos a felicidade extrema o tempo todo, rechaçamos fortemente a possibilidade de fracassar e entristecer e os motivos são óbvios: ninguém quer sofrer. Porém, esquecemos de regras básicas de sobrevivência que nos mostram o tempo todo que, viver, é um jogo imprevisível onde se ganha e se perde em proporções aleatórias e independentes do nosso querer.

Esse perde e ganha diário, pode assumir contornos maiores ou menores de acordo com a expectativa que criamos. Me arrisco a dizer que ganhar, muitas vezes, parece mais um bônus inesperado do que uma possibilidade real. Talvez seja por isso que perseguimos com tanto afinco, toda a qualquer possibilidade que, no fim, possa nos trazer algum tipo de vitória. Ganhar vai além da conquista. Ganhar nos coloca no hall de vencedores onde é possível ser visto e admirado. Ganhar é aquilo para o qual fomos criados, treinados e direcionados a fazer. A grande questão é: o que fazer quando a vitória não chega?

Essa pergunta pode causar arrepios em muitos de nós e isso tem uma razão simples. Não fomos educados para perder. Ao contrário. Perder é algo destinado aos outros e não deve fazer parte do nosso planejamento. Mas é aí que me surge uma dúvida: Por que renegamos tanto, algo que nos acontece o tempo todo? Se fizermos uma retrospectiva das nossas vidas ou se perguntarmos aos amigos mais chegados teremos, certamente, um vasto acervo de derrotas para todos os gostos.

Algumas divertidas, outras nem tanto. Algumas traumatizantes, outras quase insignificantes. Algumas que carregamos vida afora, outras que esquecemos em instantes. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que, em todas essas experiências onde não alcançamos aquilo que queríamos, ainda assim, é possível sair ganhando. Talvez o prêmio seja ainda melhor que aquele que idealizamos. E de que forma isso pode ser considerado como algo bom? Difícil saber no calor do momento, mas, à medida que o tempo passa, percebemos que poucas coisas são tão poderosas quanto a nossa capacidade de recomeçar.

É neste momento em que precisamos enxergar que não há fundo de poço que não possa ser vencido. Esse lugar é, na verdade, uma alegoria que nos ajuda a lidar com a dificuldade em compreender, aceitar e aprender com as nossas derrotas. É óbvio que não vamos, a partir de agora, endeusar os muitos tombos que ainda vamos levar, mas que devemos respeitá-los, devemos. Até porque, eles serão responsáveis, também, por outros tantos relatos de coisas boas que foram conquistadas a partir de um tomo, um pé na bunda, uma puxada de tapete ou seja lá o nome que quiser chamar. É a boa e velha frase “aquela derrota foi a melhor coisa que me aconteceu…”

Ninguém gosta de perder, não fomos orientados para isso. O mundo segrega os perdedores. Não importa quantos êxitos foram conquistados, basta perder uma única vez para ser incluído no clube daqueles que não chegaram lá. Não jogamos para competir, jogamos para ganhar. Mas, também conhecemos a máxima que diz que não se pode ganhar sempre. Então, o que nos resta? Entender que vitórias e derrotas não estão ligadas por uma linha reta e que, os poços, podem ser mais bem mais rasos do que imaginamos. Para isso, basta que estejamos dispostos a aceitar algo muito simples: perder nem sempre significa ser derrotado.

Queda livre

Quanto mais tempo vivemos e experimentamos diferentes situações, maior é a sensação de que vivemos em um campo minado pronto para explodir sob os nossos pés. Não importa se calculamos quando, como ou onde será o nosso próximo passo, seremos sempre surpreendidos por explosões que irão colocar nossas vidas de pernas para o ar. O que significa dizer que, viver é como estar em uma queda livre, onde não se sabe o destino, nem a sua velocidade, logo, a única coisa a fazer é aproveitar o vento no rosto e tentar se divertir ao longo da jornada.

Não, este não é um texto sobre como jogar tudo para o alto, bater a porta e sair sem olhar para trás. Mas, não deixa de ser uma pequena provocação ao nosso tão organizado modo de ver o mundo. O convívio social estabelece tantas regras, onde não podemos fazer isso ou aquilo, não devemos usar tal roupa, não falar com estranhos, não ser tão expansivos e, principalmente, não precisamos falar tudo que se passa em nossas cabeças. É claro que estes são filtros importantes e devem ser usados em muitos momentos. Até porque, podem nos manter a salvo de uma série de ciladas.

Mas, como tudo nessa vida, esses filtros devem ser usados com sabedoria e moderação. Restrições demais apresentam efeitos colaterais que podem, com frequência, nos paralisar diante de oportunidades e desafios. Somos criados em uma lógica onde dizer não é a melhor escolha. Se por um lado, isso irá nos privar de novas experiências, por outro, não sofreremos por apostar em algo tão fora dos nossos padrões. Pelo menos, foi isso que nos disseram desde sempre. E nós, acreditamos…

O tempo vai passando e vamos, cada vez mais, nos distanciando da nossa espontaneidade e abrindo espaço para desconfianças e ressalvas. Até que alcançamos o ponto onde dizer não para tudo, será o padrão e, dizer sim, uma inesperada exceção. Isso, talvez, seja fruto da nossa necessidade de sobrevivência que diz que devemos colocar as coisas em seu devido lugar e que, devemos manter nossas a salvo pois não sabemos se será possível conquistá-la novamente. Resquícios da nossa evolução ou, para ser mais realista, é o famoso “quem guarda, têm”.

Mas é preciso acreditar que, apesar das nossas conquistas seguras, há um universo de opções inexploradas e, o melhor de tudo, bem ao alcance das nossas mãos. Basta que ampliemos o nosso campo de visão para incluir em nosso radar, todas as coisas para as quais dissemos não, sem sequer ponderar se seriam ou não boas escolhas, bons caminhos ou boas surpresas. Nadar contra a maré não foi e nunca será uma tarefa fácil, mas é preciso tentar. Qualquer braçada no sentido contrário ao que esperam de nós, pode ser a porta de entrada para uma realidade cheia de novas possibilidades.

Muitos acreditam que essa seria a saída de suas zonas de conforto. Acho que vai muito além. Quedas livres, voos cegos ou seja lá como gostariam de chamar, podem ser a salvação para a vida de pessoas que foram levadas a acreditar que a ousadia não está disponível para todos. O que é um grande engano. Jogar-se no desconhecido e sentir aquele misto de medo, ansiedade e desafio, ajuda a romper amarras, trazendo uma sensação de que não pertencemos a lugar algum e que, ao mesmo tempo, esse pode ser o melhor lugar onde poderíamos estar.

Me engana que eu gosto

Quantas vezes encontramos com algum conhecido por acaso e, quase imediatamente, tratamos de marcar um outro encontro tipo, “passa lá em casa”, mesmo tendo a certeza de que isso jamais vai acontecer? Confirmamos presença e não comparecemos. Concordamos com argumentos indigestos, apenas para acabar com conversas chatíssimas. Declaramos amor a quem mal conhecemos, só para agradar aos ouvidos alheios. Estamos apressados demais para verdades verdadeiras e cada vez mais abertos a mentiras sinceras. Se não for tomar muito tempo e nem dar  muito trabalho, tudo bem, siga em frente e… me engana que eu gosto.

Desde quando ser enganado ou enganar alguém faz parte do nosso cotidiano? Diria que essa é uma premissa que se estabelece a partir do momento em que nos aventuramos nas formas mais básicas de relacionamento. Podemos até negar isso com todas as forças mas, até que ponto, essa convicção não seria, também, um autoengano? Difícil precisar, mas não pense que isso é, de forma ampla, um desvio de caráter ou coisa parecida. São regras de um jogo que já estava rolando muito antes de chegarmos aqui e que irá se perpetuar durante muito, muito tempo.

Por mais incômodo que seja enxergar as coisas sem filtro, não há muito o que fazer, além de aceitar, aprender as regras e começar a brincadeira. Ainda não se convenceu disso? Sem problemas mas, se você, à medida em que avançou no texto, foi buscando momentos onde levou alguém ou se deixou levar por conversas fiadas, promessas convenientes ou compromissos vazios, sinto informar, você faz parte do grupo que ganha a aposta, mas não leva o prêmio pra casa.

Políticos inventam fábulas para conseguir o que querem. Guerras são deflagradas a partir de fantasias. Amores se acabam, amizades se desfazem, votos de confiança se quebram… Sabemos que muitas dessas situações se sustentam sobre pilares de areia que, a qualquer momento, podem ruir. Mas, mesmo assim, concordamos em entrar nesse ciclo sem fim, mesmo sabendo que cobraremos preços altos por nossa permissividade, assim como nos veremos obrigados a arcar com os custos da nossa dissimulação pré-programada.

Não é exagero dizer que a maioria de nós flerta com a hipocrisia mais vezes do que gostaria. Alguns fazem uso dessa prática sem moderação, provocando estragos por onde passam, infelizmente. Mas, me parece que, dia após dia, os níveis de exigência aumentam sua elasticidade aos enganos que sofrem e passam a relativizar mentiras e a acostumar-se a meias verdades. Como se esse fosse, o caminho mais fácil para se chegar onde quer ou para se manter confortável em situações que não resistiriam, ao menor contato que fosse, com uma verdade sem máscaras.

Estaríamos nos tornando cínicos ocasionais? Possivelmente, mas acredito que ainda temos o poder de escolher quando preferimos verdades e quando toleramos mentiras. É aí que reside a nossa capacidade de alterar os fatos de acordo com as conveniências. Para nós, a realidade. Para os outros, bom, para os outros será aquilo que for possível… E assim seguimos realizando, descontroladamente,  quebras de contrato, escapadas, puladas de cerca e um sem número de descompromissos vida afora. Tudo dentro do grande acordo social, que inclui a todos nós.

Este cenário nos obriga a tomar posições que irão impactar a forma como vemos o mundo e como ele nos enxerga de volta. Em uma época onde o nosso maior patrimônio é o tempo, a correria da vida acaba gerando relações efêmeras. Com isso, respostas imediatas que dizem o que queremos ouvir, cumprem o papel da verdade e criam uma sensação de que isso é o certo. Esse é o ponto crucial onde nos restam apenas duas opções: O certo ou o fácil. A escolha é sua.

Doses diárias de empatia

Vivemos em tempos onde expressar opiniões pode ser perigoso. Não que haja, pelo menos não por ora, controle formal sobre o que se diz. Mas há, sem dúvidas, uma patrulha ao que se fala, como se fala e sobre quem falamos. É a batalha entre o EU versus ELES, onde cada um dá o peso máximo ao que pensa e o descrédito absoluto ao que o outro tem a dizer. São muitas vozes para poucos ouvidos. São muitos dedos apontados para o outro, porém, isentos de qualquer indício de autocrítica. É chegada a hora de entender que precisamos de doses diárias de empatia.

Pessoas dizem o que bem entendem e a todo instante. Isso jamais seria um problema, se as opiniões proferidas aos quatro ventos, fossem opiniões de fato e não repetições tortas de argumentos alheios, sem o menor compromisso com a verdade. Não seria exagero dizer que os tempos atuais, além de líquidos, estão se tornando perigosos para quem se dá ao trabalho de ouvir e refletir para, só então, falar.

Essa corrida por um pódio que premia aquele que fala, fala mas não tem nada a dizer, parece ter como objetivo principal, satisfazer uma incontrolável vontade de muitos em se fazer notar. Passar despercebido tornou-se o maior pecado do mundo dito moderno, onde as barreiras físicas não importam mais, onde o compromisso de ser alguém de carne e osso e responsável por suas posições, também não. Talvez isso ajude a entender essa fuidez nas relações. Fale, replique, aumente, invente o que quiser, mas jamais se comprometa. Esse parece ser a grande bandeira da atualidade.

Essa maluquice coletiva produz muitos efeitos colaterais. Mas um deles, em particular, tem sido responsável por grandes estragos nas relações: a intolerância. Hoje, se qualquer um de nós ousar expressar uma opinião, surgirá, quase imediatamente, alguém para desqualificar, muitas vezes de forma violenta, aquilo que foi dito.

Pela velocidade que se observa na virtualidade, fica patente que não houve tempo para, sequer, ler o conteúdo da mensagem. Entendê-la, muito menos. Logo, uma onda descontrolada de comentários desconexos, abafa a verdadeira intenção de uma opinião que nem ao menos foi assimilada. Com isso, desavenças se formam, amizades se partem e ódios se controem, por muito pouco ou por quase nada. Estamos nos encaminhando a passos largos para a insustentabilidade das relações. Infelizmente…

Essa postura geral tem promovido, quase sempre, uma polarização na forma de pensar e agir. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de ponderar. Nos comportamos como se estivéssemos em um ringue onde, de um lado, estamos nós, prontos pro combate e, do outro, está um adversário que pode ser qualquer um,  que esteja disposto a brigar por coisa nenhuma. Enquanto isso, negligenciamos questões valiosas e que realmente merecem ser defendidas. Este é, claramente, um mundo de prioridades invertidas.

Me parece que perdemos o atalho que leva ao caminho do meio, a rota do diálogo e a capacidade de discutir ideias. Se faço parte de um grupo, jamais poderei romper essas fronteiras irreais pois, uma vez que se escolhe um lado, não há mais chance de retorno. Isso, além de grotesco, é um sinal claro de alienação, que leva a exclusão em todos os níveis. É necessário ter urgência na mudança de olhar para o mundo. Caminhamos para a autoexclusão, onde o diferente deve ser descartado pelo simples fato de ser divergente. Esse modo de agir tem nome, passado, consequências e um final trágico. Isto se chama barbárie.

Entendo que nossa trajetória é cíclica e que, de tempos em tempos, recuperamos comportamentos antigos e questionáveis. Mas é preciso fazer uso das ferramentas sociais que criamos ao longo do tempo. É necessário aprender com erros passados para que não se tornem recorrentes. É urgente desenvolver a empatia e, assim, resgatar aquilo nos torna essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar.

Como será o amanhã?

Como será o amanhã? A curiosidade que mora em nós jamais desistirá de tentar descobrir esse mistério, mesmo sabendo que possíveis respostas são baseadas, apenas, em nuvens de suposições. Pouco importa se o futuro é daqui a dez anos ou dois dias. Não fazer ideia do desfecho de um projeto ou de um sonho, cria uma expectativa que é quase tão importante quanto a execução do plano em si. Talvez esta seja uma das razões que nos faça acreditar que o futuro sempre reservará boas surpresas.

Como será se…? Essa pergunta pode ser complementada de inúmeras formas que, normalmente, variam de acordo com o nosso momento de vida. O que serei quando crescer? Quantos filhos terei? Terei filhos? Com quantos anos vou morrer? Conseguirei emprego? Serei feliz?… São tantas as questões que, a simples tentativa de respondê-las, é capaz de tirar o sono até dos mais tranquilos. Mas seguimos tentando, mesmo que não tenhamos as respostas, o exercício de imaginar o que nos espera, faz a ansiedade valer a pena. Afinal, não saber como serão os dias que ainda não conhecemos, nos mantém diante de muitas possibilidades.  Coisa que a realidade, por si só,  não é capaz de fazer.

Pensando nas formas que temos para acessar futuros possíveis, me veio a ideia de que, o tempo verbal faz toda a diferença quando o assunto é o desconhecido. Pensar em como será, vem sempre acompanhado de uma certeza: algo foi iniciado e não tem mais volta, como a flecha que parte do arco. Não se sabe com exatidão qual será o alvo correto, mas temos a certeza de que ela vai alcançar seu destino final. Agora, pensar em como seria, traz  consigo um quê de dúvida e uma margem de segurança, uma vez que não é preciso arriscar, basta apenas fechar os olhos e imaginar as mil possibilidades que teríamos se, por acaso, resolvêssemos disparar nossas flechas.

De todo modo, pensar em como estaremos no futuro, seja ele próximo ou não, ajuda a criar estratégias que definem o nosso presente. Querer concretizar um desejo, ajuda a pavimentar um caminho em direção a esse objetivo. Não pensar em sonhos possíveis, faz com que portas se fechem e chances sejam perdidas. Como seria a vida sem o delicioso desafio de tentar imaginar como será a versão futura de nós mesmos? Melhor nem imaginar…

Por mais instigante que seja, a prática da futurologia é, também, uma grande fonte de ansiedade que, ao invés de nos permitir alçar voos maiores, pode transformar-se em uma âncora que limita nossa capacidade de ir além e, principalmente, restringe a nossa liberdade de atuar no próprio presente. Jamais conseguiremos alcançar nossos sonhos, desejos ou delírios, se não percebermos que nossos anseios nascem e amadurecem no presente e que, o futuro, é apenas uma consequência do que fazemos hoje.

Seríamos capazes de imaginar, há dez anos, como estaria a nossa vida hoje? Sim, mas seriam apenas pensamentos em nuvens recheadas de imaginação. Sonhos em perspectiva, sem compromisso com a realidade nua e crua. Nossa trajetória se constrói dia após dia, vencendo pequenos desafios, tomando tombos, sacudindo poeiras difíceis e erguendo a cabeça para continuar vislumbrando possibilidades que ainda estão por vir.

Jamais saberemos o que exatamente nos aguarda naquela fração do tempo que, de fato, não existe, mas que adoramos criar, desafazer, mudar de forma e recriar quantas vezes quisermos. Como será o amanhã? Não tenho a menor ideia. A única certeza nessa jornada, é que sempre estaremos prontos para saltar no nosso tempo imaginário, espiar nossas possíveis cópias e retornar a realidade, certos de que, um dia, aquele futuro poderá, sim, tornar-se realidade.

Quando o fim chegar

Ciclos. Somos regidos por incontáveis mecanismos com começo, meio, fim e recomeço. Sejam eles particulares ou não, nascemos com uma única certeza: todo ciclo tem seu fim. Exercemos controle temporário sobre alguns deles, mas na grande maioria das vezes, as peças movidas nesse tabuleiro pré-programado somos nós. Dessa forma, seguimos ávidos por ciclos que se iniciam, empolgados por novas jornadas, mesmo sem ter a menor noção de como será quando o fim chegar.

Nascer, crescer, reproduzir e morrer… essa é a cascata de eventos que aprendemos nas aulas de ciências e que acreditamos acontecer com todas as outras espécies do planeta, menos conosco. Agimos como se fossemos imunes aos efeitos do mais previsível de todos os ciclos. Nós, simplesmente, não aceitamos essa programação prévia, estabelecida e comum a absolutamente todos os seres que já passaram por esta terra.

Criamos delírios de eternidade para quase tudo que pensamos ou fazemos. Talvez este seja o maior reflexo da nossa incapacidade em aceitar a finitude de tudo o que nos cerca e, principalmente, da nossa inabilidade em enxergar o nosso próprio fim da linha. Traçamos planos a perder de vista, fazemos amizades sem data de validade, marcamos encontros que nunca acontecem e, quase sempre, fazemos juras de amor eternas, projetando a nossa existência para além dos limites conhecidos, apesar de sabermos, desde sempre, que o para sempre, sempre chega ao fim.

Então, como não conseguimos lidar com a certeza do fim, apostamos em nossas memórias para que, assim, seja possível prolongar indefinidamente os nossos ciclos, mesmo depois do ponto final. O que pode ser uma armadilha que nos mantém presos a momentos, pessoas e situações que há tempos não existem mais. Ciclos imaginários permitem um controle que nos dá a falsa impressão de que estamos no comando quando, na verdade, somos reféns de um mundo irreal, que restringe a nossa capacidade de reagir aos estímulos da realidade.

É difícil perceber as etapas de um ciclo. Começamos relações com laços muito sutis, que não deixam claro que, de fato, iniciamos um processo sem volta. Mas, basta perceber que estamos diante de algo importante para que, imediatamente, passemos a acreditar que aquilo será para sempre. Muitos diriam que isso nos torna otimistas. Será? Vislumbrar relações duradouras e repletas de felicidade, pode até ser um desejo, mas está longe de ser uma realidade. Ciclos reais não são suaves.

Voltando as relações. Quando percebemos que um novo amor começou, ficamos tomados por uma plenitude tão arrebatadora que, pensar no fim daquele êxtase, é a última coisa que se quer. Momento perfeito para juras de amor eterno, não é? Certamente, mas conforme o tempo passa e os ciclos avançam, tudo muda, independente do nosso desejo inicial. Paixões ardentes dão lugar ao amor constante e esse, por sua vez, requer atenção e paciência para continuar existindo. E se, por acaso, deixarmos de seguir o manual de cuidados do amor eterno, ele certamente chegará ao fim.

Mas, como fazer para aceitar o fim? Diante desse fato, temos dois caminhos. Um deles é não aceitar e tentar, de todas as formas, retardar as etapas de um ciclo, mesmo sabendo que isso não é possível. Apegar-se a memórias de um passado feliz é, normalmente, a escolha da maioria. Porém, a dificuldade em aceitar o fim não pode ser pior do que manter-se preso a relações terminais, disfarçadas com uma capa de ilusões de felicidade.

O outro caminho é compreender que nada dura para sempre. Só que para alcançar esse nível de lucidez, é preciso passar por vários ciclos imaginários cheios de armadilhas criadas por nós mesmos. Independente de qual será a escolha, em algum momento seremos obrigados a encarar o fim, sem retoques e sem possibilidade de retorno. Nesse momento, o vazio se estabelece, mas isso não é ruim. É apenas o anúncio de que estamos preparados para, enfim, iniciar um novo ciclo.

Nada pode ser mais triste…

Ódio… ódio e mais ódio. Estamos imersos em uma zona muito escura onde qualquer movimento, por mais simples, parece aumentar ainda mais a sensação de que não somos capazes de replicar nada, além de ressentimento, raiva e amargura. E nada pode ser mais triste que isso… ou será que pode?

Vivemos tempos duros, onde opiniões não são debatidas, são impostas. Tempos onde diálogos dão lugar a convicções particulares elevadas a categoria de verdades absolutas. Estamos sufocados por um cotidiano áspero, denso e nauseante, que tenta, a todo custo, silenciar murmúrios, lamentos e gritos. Tentamos sair do mesmo lugar mas nossas pernas pesam e nossos braços não alcançam saídas de emergência. Vidas aprisionadas, limitadas a ver o mundo sob a ótica do medo e do ódio. Tem como dar certo?

Saímos de casa cheios de dúvidas e com um único desejo: retornar com dignidade. Infelizmente, não há garantias para que isso aconteça. Estamos como crianças brincando em uma piscina onde, o primeiro a encostar na borda, estará eliminado do jogo. Porém, no nosso caso, as bordas aproximam-se do centro, encurralando a todos, deixando a clara mensagem: retirem-se, vocês não são bem vindos aqui. Por quanto tempo é possível aguentar?

Amigos revelam posições divergentes e apoiam causas que colidem violentamente com valores que prezamos tanto. O que seria normal, se não fossem tempos de cólera. Todos têm razão ou pelo menos querem ter. Nessa busca pela afirmação das causas próprias, formam-se facções que disputam território onde possam plantar suas certezas e suprimir seus contrapontos que, a esta altura, transformam-se em desafetos. Vale a pena lutar por isso?

E sob o domínio de um medo tão consistente, seguimos sem muitos planos, apenas reagindo aos estímulos que a vida nos dá. Perdidos em uma sequência de sobressaltos que aceleram o nosso coração e amolecem as nossas pernas. À mercê de toda a sorte de riscos que só uma sociedade adoecida é capaz de oferecer. Hoje, para provocar pânico não é preciso vislumbrar uma ameaça real, basta apenas enxergar o diferente como algo ameaçador. Foi para isso que evoluímos tanto?

O medo, o ódio e a ignorância são forjados do mesmo material, fluido e maleável, que pode crescer indefinidamente, sem apresentar nenhuma rachadura. Basta que seja inflado com cuidado até que tomem corpo e englobem tudo a sua volta. Criando uma cobertura dissimulada que envolve a todos com uma película impossível de ser detectada. Assim, lutas fervorosas são travadas, acusações graves são feitas e relações são desfeitas, mas nenhum dos lados consegue enxergar essas camadas, o que torna impossível perceber quem, de fato, comanda toda essa batalha. Até quando ficaremos tão cegos?

A compaixão, algo tão inerente a humanidade, torna-se cada vez mais supérflua. Uma perfumaria cara, um artigo de luxo. Não podemos acreditar, por nem um segundo, que isso é verdadeiro. Sentir-se conectado a quem está ao nosso redor, é sentir suas alegrias, angústias, medos, é perceber seus defeitos e qualidades. Se privar disso é escolher não entender o próprio mundo, a própria realidade. Sentir o outro é, também, se ver refletido. Abraçar o outro, é sentir o mesmo abraço. Ouvir as experiências alheias, é vivencia-las também. A isso, chamamos de empatia. De que vale usar um termo da moda, sem saber o seu significado?

Morremos cada dia mais. Grupos morrem aos milhares. Mas pouco importa, enquanto isso não nos afetar diretamente, são apenas estatísticas arremessadas em nossa direção diariamente. Em cidades onde o medo e a ignorância são os pais do ódio, ninguém deveria se sentir indiferente a dor do outro. Talvez este seja o maior desafio dos tempos atuais: curar corações repletos de horror para que, só assim, seja possível resgatar e transformar em realidade a empatia presente apenas no discurso. Vale a pena tentar? Nunca valeu tão a pena resgatar a nossa própria humanidade.

O peso das nossas escolhas

O que eu faço agora? Essa pergunta é feita todas as vezes em que o chão desaparece sob nossos pés e ficamos à deriva, sem referências e sem a menor ideia do que fazer. Não paramos para pensar sobre isso, a não ser que sejamos vítimas dessa súbita falta de base que, ao contrário do que parece, não nos deixa sem opções. Sofremos exatamente por não saber escolher diante de tantas possibilidades que se abrem a nossa frente mas, principalmente, sofremos por não saber qual será o peso das nossas escolhas.

Esse questionamento, que precede uma escolha rápida e sem ensaios, cria um desconforto em vários sentidos. Ora por demonstrar nossas fragilidades, ora por expressar ansiedade ou, simplesmente, porque nos faz constatar que não estamos preparados para tudo. Mas isto está longe de ser algo ruim. Ser pego de surpresa, exige uma capacidade de reação veloz e, normalmente, sem segundas chances. Erros nas escolhas são bem mais comuns que acertos, mas, como quase tudo na vida, tomar decisões mais assertivas, também depende de experiência e aprendizado.

Há momentos onde o mundo passa por cima de nós como um rolo compressor, exigindo respostas para perguntas que sequer entendemos, sem oferecer tempo para reflexões ou buscas por novos caminhos. Diante desse beco sem saída, só nos resta procurar soluções onde elas são mais difíceis de encontrar: dentro nós. Neste cenário, somos obrigados a voltar o olhar para nosso interior, nem que seja por uma fração de segundo,  e tentar achar forças em lugares que jamais acessamos. Dessa forma, adentramos em áreas nebulosas e desconhecidas, perdidas em nossas gavetas internas.

Pensando dessa maneira, não saber como agir em determinadas situações, tem o seu lado bom. Fincar raízes muito profundas pode restringir nossos reflexos e comprometer a nossa capacidade de reagir as surpresas que a vida nos oferece. Perguntar-se o que fazer, quase nunca traz as respostas certas e, muito menos, aquelas que esperamos. Por uma simples razão: Não há certezas, erros ou acertos. Existem apenas possibilidades que serão criadas de acordo com as nossas decisões.

Ser confrontado por situações desconcertantes, reduz a nossa possibilidade de escolha, permitindo que fiquemos entre o não, que nos deixa estagnados no mesmo porto seguro, ou o sim, que pede uma dose extra de coragem para navegar por mares desconhecidos. Mas, independente da escolha, algumas perguntas são impacientes e pedem respostas instantâneas. É esta fração de segundo que nos faz seguir em frente e, pouco importa, se vamos dizer sim ou não, o importante no momento de decisão, é a forma como teremos que lidar com as nossas certezas, inseguranças, verdades, mentiras…

O imprevisível caminha ao lado desses momentos. Nunca saberemos ao certo quando ou porque será necessário pular mais alto e decidir algo de primeira. Muito menos saber o quão difícil será tomar decisões que não estavam em nossos planos e que podem, com frequência, afetar as pessoas ao nosso redor, de formas que não podemos prever. É sempre bom não perder de vista que as nossas decisões, por mais simples que sejam, jamais serão individuais.

É claro que a vida nos coloca em situações onde há muito pouco ou nada a ser feito mas, ainda assim, é possível decidir se nos conformamos ou não com essa situação. Vivemos as decisões que tomamos, sejam elas repentinas ou não. Porém, sempre que exercitamos a nossa capacidade de escolha, conhecemos um pouco mais de nós e reconhecemos limites. Por vezes colocamos esses limites à prova, o que nos ajuda a compreender que existem linhas que não devem ser ultrapassadas.

Decisões são desafiadoras e nos testam de formas que nem imaginaríamos possíveis. O ato de escolher impõe mudanças, quer você queira ou não.  É difícil dizer se escolhemos os caminhos corretos, mas podemos afirmar que somos a síntese das escolhas que fizemos. O que faremos daqui em diante? Escolhas. Qual a melhor maneira de fazê-las? Aprendendo com elas…