Posso ser sincero?

Em uma mesa de bar, num telefonema com sua mãe, na fila do banco ou em qualquer outra situação, alguém vai perguntar se pode, sem cerimônia, falar coisas que você não quer ouvir, mas que serão ditas de qualquer jeito, usando a singela pergunta “Posso ser sincero?”

Esse pedido funciona como passe livre, permitindo ao interlocutor meter o pé na porta das boas regras de convivência e despejar “verdades” para todos os lados, atingindo alvos aleatórios e desavisados. É praticamente um salvo conduto que permite fazer aquela fofoca, destilar um veneno ou dar um parecer sobre algo que não se tem ideia do que se trata.

Não pensem que esse é um daqueles textos rabugentos que pretendem ditar padrões de boa conduta. De jeito nenhum! Afinal, Quem nunca cometeu um daqueles ataques de sinceridade fora de hora ao longo da vida? Mas a ideia aqui é outra. É dar a devida importância a um dos sentimentos mais bacanas que podemos sentir. Aquele sentimento que, independente se você vai sorrir ou chorar no final, sempre será o caminho mais curto entre dois pontos. Tipo aquela mãe amorosa e brava ao mesmo tempo, que é capaz de te cobrir de amores em um momento e no segundo seguinte acabar com você com um simples olhar… assim é a sinceridade. Reta e sem meias palavras.

Ser sincero remete a uma certa pureza, em como ser honesto consigo e com os outros. Não é a toa que consideramos a franqueza infantil uma das maiores expressões de sinceridade, ainda que sem filtros. As relações sinceras são espontâneas e cheias de cumplicidade, como se déssemos ao outro uma autorização prévia para ser verdadeiro por completo, com a promessa de fazer o mesmo, sempre.

Nas reuniões de amigos, por exemplo, somos capazes de dizer os maiores absurdos, sem cortes ou censura. Isso até pode provocar uma súbita raiva aqui ou ali mas, seja qual for o assunto, tudo sempre acaba em explosões de risos e gargalhadas frouxas. A sinceridade não permite rancores. Talvez seja por isso que danos causados a relações sinceras sejam tão difíceis de reparar. Esse é um sentimento que traz uma intimidade implícita e, quando deixamos de ser sinceros com alguém, a intimidade daquela relação fica exposta e vulnerável. Às vezes de forma irreversível.

A sinceridade é simples. Talvez seja o grande tesouro que herdamos da infância. Mas, a medida que crescemos acabamos optando por mantê-lo a salvo ou vendê-lo por qualquer trocado. De todo modo, ser sincero será sempre uma escolha que pode se refletir na vida que se leva e nas pessoas que nos cercam.

O maior pré-requisito para ser sincero é ser verdadeiro. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, já dizia o pequeno príncipe. O que leva a acreditar que sinceridade não é um cartão de visita ou um título, ela é percebida de forma sutil, sem imposição ou alarde. Por isso, quando alguém perguntar se pode ser sincero, pense bem na resposta. Sinceridade é um estado permanente e não uma intervenção abusiva e repentina.

Deixar que alguém seja sincero de forma artificial pode, quase sempre, causar desconforto. Bom mesmo é quando nos aproximamos de alguém, olhamos bem fundo nos olhos do outro e percebemos que podemos chegar e ficar ali, sem pressa. É nesse momento que selamos uma parceria inconsciente, que nos permite ser quem somos, sem máscaras, sem poses, onde nos tornamos cúmplices sem forçar a barra. É o instante em quem somos verdadeiros. E posso ser sincero? Não há coisa melhor.

Caixas de Passado

Apego. Essa palavra por si só já nos remete a mil possibilidades. Coisas e pessoas que amamos e queremos por perto, simplesmente porque são nossas e pronto.

Aquele sapato de 20 anos atrás, o casaquinho amarelo que seu filho usou na saída da maternidade ou o carrinho de madeira da infância… Todos são partes de épocas felizes ou marcantes das nossas vidas. Às vezes expomos esses objetos em lugares de destaque, mas na maior parte do tempo, os deixamos guardados em caixas empoeiradas do fundo de um armário.

Mas, se muitos desses objetos ficam fora do nosso campo de visão, para que tê-los? Vai saber… Mas tenho um palpite.

Arrumar estantes, gavetas e armários, de vez em quando, é a certeza de encontrar bugigangas de todos os tipos e de todas as épocas. Mas também é a possibilidade de um encontro com nosso passado.

Achar um caderno dos tempos de escola, ver sua caligrafia infantil, relembrar nomes de pessoas, ler seus textos antigos e recordar o momento exato em que foram escritos e qual era a trilha sonora que serviu de inspiração… Tudo isso permite jogar cores em memórias que o tempo tratou de apagar.

Num primeiro momento talvez pareça saudosismo bobo, mas remexer em gavetas e papéis velhos pode nos proporcionar experiências únicas. Uma incrível viagem no tempo, onde o passado curioso, diz um “oi” ao presente e pergunta “E aí? Deu tudo certo?”

À medida que o tempo passa, começamos a ver o passado sob um olhar romântico. Perdemos um pouco a percepção do real. O que foi bom, ok e o que foi ruim nem foi tão ruim assim, afinal, chegamos até aqui para contar, não é? Por muitas vezes lembramos de uma cena, de um lugar, de uma pessoa… Mas tudo é estático, como em uma foto. É como se o passado ficasse emoldurado em nossa memória. Somos capazes de lembrar um dia feliz na praia com nossos pais e irmãos em imagens que se organizam em uma grande história em quadrinhos onde você é o narrador e personagem. Quanto mais o tempo passa, menos fiel essa lembrança será.

É possível que nossas tranqueiras empoeiradas estejam guardadas de propósito. Como se quiséssemos, mesmo sem perceber, criar um portal que permitisse o reencontro da nossa versão atual com fragmentos físicos do nosso passado.

Sentir o cheiro de um perfume antigo impregnado numa roupa. Reler uma carta de amor escrita aos 15 anos. Ver aquele livro de dietas milagrosas que nunca deram certo ou aquela bola de futebol furada ainda suja de lama. Tudo isso reaviva a memória e traz, principalmente, uma série de sensações que vão muito além das imagens em quadrinhos. Encontrar com as frações de nosso passado é, sem dúvidas, reviver momentos em 3D, com volume, cheiros e texturas.

Algumas pessoas conseguem essa conexão guardando coisas que cabem numa caixa de sapatos, outras, precisam de galpões.

Quem é capaz de dizer do que precisa para lembrar do que passou? Não me arrisco! Tudo o que guardamos nos remete, de fato, a momentos únicos? Certamente não. Muitas vezes, se desfazer das nossas memórias físicas não significa renegar o passado e, sim, entender que aquela parte da história não tem mais tanta importância. É o presente dizendo ao passado que nem tudo pode permanecer guardado e que apagar memórias nos permite abrir caminhos para a chegada do futuro.

De toda forma, nossos guardados ajudam a promover os raros encontros entre o nosso passado, presente e futuro. E, em uma tarde qualquer você pode decidir usar sua máquina do tempo para dar um pulinho no passado, visitar sua versão mais jovem e, finalmente responder se deu tudo certo. Talvez não haja resposta possível. Talvez seja razoável dizer apenas que não tinha como saber mas que, voltar ao passado e resgatar um pouco daquele olhar curioso e cheio de esperança, é muito melhor do que saber como seria o futuro…

E se um dia alguém disser que guardamos coisas demais, que somos apegados demais ou de menos, tudo bem. Sempre teremos o direito de encher e visitar quando quisermos, as nossas caixas com pedaços de passado.