Olhar estrangeiro

Experimentar a sensação de estar deslocado em algum lugar ou grupo, não é exatamente uma coisa incomum e não tem relação com espaço ou tempo. Sentir-se um peixe fora d’água é algo que acompanha a maioria das pessoas, em algum momento de suas vidas. Isso permite observar o que nos cerca sob diversas perspectivas, que por vezes são boas e, por outras, nem tanto.

Estar deslocado cria, em certa medida, uma capacidade única de adaptação, onde é preciso ter a velocidade para perceber ambientes, idiomas e comportamentos diferentes dos seus e, de alguma forma, estabelecer uma conexão com eles.

Porém, não se pode afirmar que a sensação de não pertencer a algum lugar, será sempre positiva. Para muitos, pode ser dificílimo superar as barreiras impostas por situações que vão além daquelas com as quais lidamos com segurança. De toda forma, sentir-se um estranho no ninho, abre inúmeros caminhos, desde manter-se em situações onde não é fácil interagir de forma confortável, até perceber um ambiente como algo diferente do seu habitat, adaptar-se a ele ou buscar outros ninhos que sejam mais receptivos e compatíveis com seus desejos.

Esse panorama expressa uma certeza: seja qual for o caminho a ser seguido, a presença do desconhecido nos força a encarar limites pessoais. E é isso que nos impulsiona a seguir a caminhada ou, pelo menos, escolher entre desistir de algumas coisas ou confrontar tantas outras.

Dessa maneira, o que antes causava desconforto, hoje pode ser trivial e o contrário também é verdadeiro. O que prova que quanto maior for a disponibilidade para o novo, maior será a quantidade de experiências apreendidas ao longo do caminho.

Jogar-se no escuro está longe de ser uma situação tranquila mas é, sem dúvidas, capaz de expor detalhes particulares até então desconhecidos. Isso dá a oportunidade de, não apenas nos reconhecermos, mas de irmos além. Um vôo cego possibilita que sejamos apresentados a novas versões de nós mesmos, quantas vezes a nossa coragem permitir.

Talvez este flerte irresistível com o desconhecido, seja o responsável por esse desejo de conhecer ou experimentar novidades com as quais não nos encaixamos de imediato. Mudamos de escola, de bairro, fazemos novos amigos e traçamos um perfil das coisas que nos movem. Mas, apesar de sermos apresentados a pequenos desafios desde muito cedo, é difícil ter, em tempo real, a clareza sobre quando estamos as voltas com algo verdadeiramente novo.

Isso está, possivelmente, ligado ao nosso velho e conhecido instinto de sobrevivência. Aquele que é capaz, dentre tantas coisas, de alertar sobre as inúmeras roubadas que surgem a todo instante em nossas vidas. Mas nem sempre lhe damos os devidos créditos, tamanha a nossa vontade de enxergar além do que se vê.

Um mundo desfocado traz, à primeira vista, desconforto e insegurança, uma vez que não é possível saber a profundidade do que está diante de nós. Mas, à medida que o tempo segue seu fluxo, as cores e volumes tornam-se mais nítidos e ajudam a compreender melhor onde estamos e o que fazemos ali. Isso nos permite escolher entre ficar naquele universo, que toma forma diante dos nossos olhos, ou seguir em frente, na busca por novas paisagens.

Essa jamais será uma decisão única. Mudamos o tempo todo. Ora ficamos, ora seguimos em frente, querendo conhecer, compreender e ser desafiados por lugares de onde não fazemos parte, onde não pertencemos. Seguimos a vida buscando sempre por situações que nos façam ver o mundo por outro prisma e que nos torne diferentes. Dessa forma, mesmo quando nos sentirmos confortáveis, sejamos forçados a enxergar a vida com um olhar curioso, um olhar cauteloso, com um olhar estrangeiro.

 

A vida tem seus encantos

Encantamento. Este é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz perceber o quanto vale à pena seguir adiante, acreditando naquilo que aprendemos de mais fundamental: a vida tem seus encantos.

Encantar-se é baixar a guarda e enxergar o que está além do óbvio, da embalagem superficial que recobre tudo e todos. Como se refletores trouxessem uma torrente de luz extra, capaz de iluminar os detalhes ignorados por nossa displicência.

Porém, quando conseguimos captar esses detalhes, uma onda confusa de sensações nos assola, promovendo uma profusão de olhares brilhantes, sorrisos abobados, discursos empolgados e uma vontade enorme de realizar desejos e concretizar sonhos distantes do nosso cotidiano sufocante.

Todos conhecem os efeitos provocados pelo encantamento. Se pensarmos em tudo vivemos, os melhores momentos estarão, certamente, relacionados aos encantos que sentimos e que também fomos capazes de proporcionar ao longo da vida. E isso inclui todas as vezes em que sentimos nossos corações acelerados, agitando tudo a nossa volta, nos cobrindo de coragem para encarar lugares desconhecidos de peito aberto e famintos por felicidade.

Isso tudo me faz pensar: o que seria dos nossos sonhos e ideias se não houvesse encantamento por eles? Possivelmente, ficariam eternamente presos à categoria das coisas que gostaríamos de ter feito mas nos faltou coragem para ir adiante.

Talvez esse seja o diferencial do encantamento: coragem. O encanto é arrebatador e pode, de forma inexplicável, alterar o curso de histórias de vida absolutamente tranquilas e consolidadas. Causando terremotos implacáveis capazes de colocar o mundo de ponta a cabeça, mostrando que as nossas crenças e perspectivas não são imutáveis.

O encantamento assemelha-se a paixão. Daquelas que aproximam longas distâncias, tornando real o que antes era impensável. Isso pode explicar o que move as pessoas a seguir por trilhas não planejadas e desconhecidas, transformando, por exemplo, um biólogo e professor em um escritor que traduz em palavras as suas observações da vida comum. É possível…

O arrebatamento que sentimos quando nos encantamos por alguém ou por algum projeto, é algo difícil de controlar, mas é preciso saber o que fazer com ele. O que acelera o nosso coração e ilumina o nosso olhar, merece atenção e dedicação. E, se por alguma razão, qualquer um de nós duvidar disso, basta ter a certeza de que isto é apenas um efeito colateral dos sentinelas das zonas de conforto: os nossos medos. Entretanto, o medo não é páreo para a energia do encanto, que é capaz de romper amarras das relações mais sólidas, criando novas possibilidades e iluminando novos caminhos.

Isso possibilita traçar novas rotas vida afora. Quem disse que deve-se seguir, para sempre, as escolhas feitas ainda muito jovens, não foi capaz de ceder aos encantos do mundo ou aos seus próprios. Apesar de saber que as histórias individuais são muito particulares, cercadas de dificuldades inerentes a cada um, não há como não desejar se encantar o máximo que possível.

De todo modo, não lute contra, não tente sufocar sua capacidade de perceber o mundo que o cerca e, acima de tudo, não tente calar a voz entusiasmada que lhe diz: a vida é sua, é única e é rápida. Deixe-se encantar por ela.

 

Somos todos descartáveis

Desde muito cedo, somos levados a crer que precisamos, insanamente, de uma preparação que nos capacite para lidar com o “mundo lá fora”. Para isto, é necessário ser o melhor, o mais inteligente, o mais bonito, o mais esperto e, dessa forma, será possível realizar todos os nossos desejos…

Somos expostos a essa forma de pensar e agir ainda crianças. Muitas têm sua infância massacrada pelo excesso de atividades que, pretensamente, irá transformá-las em pessoas indispensáveis e especiais, para quem todas as portas estarão sempre abertas e prontas para recebê-las. Porém, a vida real insiste em dar rasteiras naqueles que, ingenuamente, acreditam ser, de alguma forma, insubstituíveis.

A grande questão é que à medida que o tempo segue seu fluxo, percebemos que aquelas portas escancaradas e acolhedoras que nos prometeram, costumam passar mais tempo fechadas do que abertas. O que nos permitirá apenas uma tentativa para tentar abrir todas as fechaduras que encontraremos vida afora.

Então, se a vida real nos mostrará que nossos planos prévios não são tão infalíveis como acreditamos, por que insistir neste perverso modelo de perfeição inatingível? É difícil bater o martelo sobre esta questão, mas é possível criar hipóteses.

Elevar o nível de exigência a patamares inalcançáveis pode fazer com que continuemos a seguir em frente, na busca por marcas maiores e melhores. O que não chega a ser ruim. Melhorar boas características é sempre positivo. Tornar-se bom como pessoa, nos ajuda a compreender melhor o papel que desempenhamos no mundo.

Porém, essa é uma generalização inevitável e que captura a todos de forma quase obrigatória. Somos colocados em um caldeirão, onde seremos formatados para fazer sempre o melhor, mesmo sabendo previamente que esta é uma missão quase impossível.

Formatos iguais para pessoas diversas. A união entre estas duas realidades, tende ao fracasso com uma certa frequência. Alteramos, muitas vezes, os nossos perfis originais para nos tornarmos adequados aos padrões, descaracterizando completamente, tudo aquilo que temos de mais genuíno e particular. Os resultados dessa padronização de personalidade são inúmeros e vão desde as roupas que usamos e livros que lemos, até a escolha de carreira e amores que serão vividos.

Diante desse panorama, fica claro que o modelo de perfeição e produtividade que aprendemos a admirar, cria, dentre outras coisas, chaves iguais para fechaduras completamente diferentes. O que significa dizer que nem todas as portas poderão ser abertas pelas mesmas chaves oriundas de uma produção em série.

A partir do momento em que deixamos de expressar as nuances que nos tornam únicos, para caber em moldes pré-fabricados, assumimos o grande risco de nos tornarmos desinteressantes e, cada vez mais, descartáveis…

Seguir cegamente os planos traçados por outros, assim como alimentar os sonhos alheios em detrimento da sua própria vontade, é um caminho bastante comum para tornar-se mais um na multidão. Não que ser mais um na multidão seja um problema, porém, ser mais um, igual a todos os outros, certamente é.

Entrar nos moldes em algum momento, é quase uma questão de sobrevivência coletiva, mas é importante ficar atento aos detalhes. Seguir padrões pode até ser considerado normal, mas, ser aprisionado por eles, jamais deveria ser. Valorize o que é único e seja a diferença.

A admiração que vive em nós

Diariamente, uma massa de pessoas acorda e se lança ao mundo em busca do seu pão de cada dia. Se pensarmos nas razões que nos levam a nadar, o tempo todo, contra uma maré imprevisível, teremos milhares de respostas possíveis e que irão variar de acordo com o exato momento que vivemos. Mas, apesar das muitas possibilidades, me arrisco a dizer que, o que nos move para o que é, de fato, importante, é o sentimento de admiração que vive em nós.

Desejar um emprego, seguir uma profissão ou encontrar alguém que julgamos interessante, são ações claramente impulsionadas pelo olhar que transferimos para tudo o que está a nossa volta. Admiramos atitudes e projetos e, consequentemente, passamos a gostar das pessoas por trás disso. Quem nunca admirou uma autora célebre, um grande pintor, um professor notável ou qualquer outra pessoa que, certamente, marcou um momento importante de sua vida, através de suas obras e textos criando, de alguma forma, uma conexão repleta de admiração?

O ato de admirar vai muito além do contemplativo, ele nos traz um alento reconfortante, como um ar oxigenado em momentos bastante tóxicos, onde é difícil enxergar muitas opções e de onde não é possível perceber novos caminhos. Um olhar admirado promove a criação de referências, de maior ou menor importância. O que nos faz mirar em pessoas que podem, em tese, nos transferir de um lugar comum para uma posição que ainda não ocupamos. Dessa forma, criamos ídolos para chamar de nossos, que nos emocionam gratuitamente e, por isso, os admiramos sem cobrar uma contrapartida, mas que, para além da influência óbvia, também atuam como alvos que almejamos alcançar ou pódios onde desejamos subir. Ou pelo menos tentar chegar lá.

Admirar o mundo faz parte da nossa essência, a grande diferença é o que fazemos dessa admiração. É possível seguir padrões e tendências, com base em modelos de comportamento que fazem nossos olhos brilharem. Isso pode, em princípio, parecer que a admiração ira nós conduzir, apenas, para os melhores exemplos, aqueles cheios de virtudes e que encheriam nossos pais de orgulho. Infelizmente, não há nenhuma garantia de que isso será uma realidade. Basta olhar para todos os maus exemplos, muito bem-sucedidos, que nos rodeiam.

As fontes de inspiração são infinitas e mudam de acordo com a passagem do tempo. Quando crianças, nosso olhar de admiração é capaz de captar apenas aqueles que estão distantes o suficiente para caber em um abraço. Mas, à medida que os anos passam, ficamos mais abertos e suscetíveis a toda sorte de influências e modismos. O que pode ser maravilhoso, uma vez que é na experimentação desses modelos, que escolhemos o que de fato nos toca mais profundamente. Ao mesmo tempo, essa mesma diversidade de influências pode, e vai, indicar modelos perigosos que irão, com muita frequência, criar ídolos bem produzidos, cheios de frases de efeito e discursos prontos, porém, repletos de vazio.

Mas há um momento em que percebemos que os lados opostos serão uma constante ao longo da vida, logo, não seria diferente com os nossos objetos de admiração. De todo modo, só é possível admirar aquilo que nos permitimos ver com mais calma. Detalhes pequenos tornam-se essenciais à medida em que se permite ver, sentir e entender o mundo e as pessoas à nossa volta. A admiração é algo tão poderoso que é capaz de nos fazer respeitar e amar desconhecidos, copiar modelos, sonhar com o melhor e, acima de tudo, perceber que só existirá um universo tão vasto de possibilidades, quando entendermos que, a maior e melhor fonte de admiração, não está em lugares inalcançáveis e sim, morando dentro de nós.

Muito além das nossas medidas

Às vezes tenho vontade de fazer mil coisas mas, no instante seguinte, desisto… Quem nunca pensou ou agiu dessa forma? Alguns mais, outros menos, mas todos nós desejamos sair do lugar onde estamos para conhecer e usufruir de tudo aquilo que o mundo pode nos oferecer. Afinal, não importa o tamanho do sonho, uma vez que a nossa imaginação sem limites nos leva, sem muito esforço, aonde quer que seja.

Mas, se a vontade existe, por que é tão difícil transformá-la em ação? Acho que esta é a maior encruzilhada na vida de todos nós. É obvio que, efetivamente, não se consegue tudo aquilo que é desejado, porém, tentar alcançar pode, na imensa maioria das vezes, nos conduzir a lugares inesperados e cheios de boas surpresas. É aí onde percebemos que tentar chegar a algum lugar, por si só, já começa a valer a pena.

Dito desta forma, até parece fácil. Basta desejar para acontecer. Quem dera fosse simples assim. Mas, de todo modo, conquistas não caem no colo de ninguém. Conquistar requer investimentos pessoais bastante altos e, além disso, as incertezas de todos os tipos são companheiras constantes, para todos aqueles que anseiam por mudanças, sempre. O que é justo, uma vez que ninguém é absolutamente infalível a ponto de não duvidar das próprias capacidades, afinal, só conhecemos nossos limites porque fomos postos à prova em algum momento.

O fator mais limitante para que vontades se transformem em realidade, vem de uma dificuldade em acreditar que somos capazes de realizá-las. Talvez porque, ao longo do tempo, tenhamos aprendido ou forçados a aprender que alguns lugares são inacessíveis, que não seremos capazes de seguir por este ou aquele caminho e, ainda, que quanto mais alto sonharmos, maior será a queda… Quanta bobagem.

Nossa imaginação, nos provoca o tempo todo, criando realidades fantásticas onde todo mundo pode vestir a pele que quiser, para ser quem se deseja ser. O que é maravilhoso, pois são esses momentos nos permitem percebem a nossa real dimensão. Somos muito maiores que as nossas presunçosas medidas e podemos ir muito além dos planos que foram traçados por nós ou para nós. Mas, é preciso ter em mente que essa é uma das tarefas mais prazerosamente difíceis da vida.

A jornada entre o desejo e a realização é cansativa e cheia de ciladas prontas para dar o bote. Caímos em quase todas sempre que nos deparamos com elas a primeira vez. Algumas vezes caímos de novo e mais uma vez nas mesmas armadilhas, que teimam em cruzar nossos caminhos. Mas, tudo bem… Cair e levantar fazem parte do processo.

A grande questão é perceber os obstáculos e tentar conhecer a sua origem. Muitos entraves são fornecidos pela vida mas, outros tantos, são perversamente criados, talvez inconscientemente, por nós mesmos. O que nos leva, em muitos momentos, a desistir, mesmo antes de tentar alcançar uma meta, um sonho ou um desejo. Assim como as incertezas, o auto-boicote pode ser um par frequente e incômodo, que escancara os nossos medos, fraquezas e covardias. Fugir desse monstro que nos acompanha é, quase sempre, uma grande perda de tempo. Precisamos domar nossos medos, impedir que ele nos paralise e seguir em frente, para muito além das nossas medidas.

Rótulos e Catálogos

Em um mundo onde parecer se torna cada vez mais importante do que ser, nos acostumamos a classificar praticamente tudo, criando um enorme catálogo onde coisas e pessoas que são identificadas e etiquetadas de acordo com o período do dia, variações de humor ou por estarem no lugar errado na hora errada.

Se é desta forma que iremos jogar esse jogo, começo a me perguntar: quantas etiquetas de identificação somos capazes de suportar e quantos rótulos conseguiremos colar em quem está ao nosso redor? Perguntas claramente sem respostas…

Hoje, as fronteiras se ampliaram de tal forma que, a nossa capacidade de ter uma opinião formada sobre tudo, desconhece limites. O que antes era restrito a pequenos comentários entre vizinhos de porta, transformou-se em teses, nada elaboradas, sobre os mais diversos assuntos e pessoas. O que significa dizer que, a boa e velha fofoca doméstica rompeu barreiras, mas continua firme e forte, só que agora, em escala global.

De todo modo, o desejo por saber segredos alheios continua a nos mover de forma quase irracional, seja em conversas de salão ou em redes sociais multiconectadas. O que provoca um estranho movimento na busca por informações não divulgadas, que utiliza como artifícios, desde sussurros ao pé do ouvido, até horas em frente ao computador dedicando-se a fuçar perfis, de forma amistosa ou nem tanto.

A grande questão não reside em querer saber algo sobre alguém, mas sim, o que fazemos quando não temos a nossa curiosidade satisfeita. Neste ponto, o jogo torna-se um tanto perigoso. Não saber notícias verídicas sobre o que quer que seja, jamais foi impedimento para que coisas não fossem ditas e repetidas por aí afora.

Uma vez que todo mundo fala de todo mundo, o tempo todo, é compreensível que essa montanha russa de informações necessite de algum tipo de organização. É aí que entram os rótulos. O que se fala sobre o outro parece ter uma importância cada vez menor, uma vez que classificar as pessoas tornou-se muito mais interessante.

Aquele colega de trabalho que conspirador, a vizinha insinuante, a criança mal educada, o pai relapso, políticos corruptos, adultos mimados… a lista de rótulos parece não ter fim. Todos nós já estivemos dos dois lados, etiqueta e etiquetador, réu e juiz. Baseamos nosso julgamento nas provas mais desqualificadas possíveis. Olhares e comentários alheios parecem ser suficientes para que criemos caixas sob medida onde, sem muito critério, incluiremos tudo aquilo que a vista alcança.

Aprendemos ao logo da vida que ser organizado é uma qualidade, logo, classificar pessoas seria um resultado positivo deste aprendizado, correto? Possivelmente não, uma vez que, na imensa maioria das situações, sequer conhecemos aqueles que serão colocados em nossas caixas pré-moldadas. Dessa forma, muitos erros de avaliação são feitos e, com frequência, colocamos etiquetas erradas em pessoas certas. Não permitimos segundos olhares. Miramos quase tudo utilizando apenas os nossos pré-conceitos que, quase sempre, estão envolvidos por um filtro que nos impede de enxergar as situações com mais nitidez. O que, infelizmente, conduz a uma série de erros em nossos julgamentos. Erros que já cometemos e que continuaremos a cometer.

Por mais que exista a noção de que não se deve julgar um livro pela capa, é o que fazemos o tempo inteiro. Nossos olhares superficialmente inquisidores, teimam em focar apenas em detalhes e não no todo. Ver o mundo de forma parcial é uma pena. Lugares e pessoas são formados por uma infinidade de camadas, prontas para serem descobertas, porém, isso só será possível a partir do momento que deixarmos de dar tanto crédito a rótulos e começarmos a valorizar conteúdos.

Sopro de novidade

Entra ano, sai ano e as pessoas seguem em busca de realizações, amores, trabalho e… Surpresas. Independente da capacidade de organização de cada um ou da forma como programa a sua vida, é fato que, vez ou outra, contamos com uma visita inesperada que pode, em segundos, alterar realidades tão ingenuamente construídas. Talvez seja por saber que, em algum momento, seremos surpreendidos por um sopro de novidade, que seguimos acreditando e aplicando regras e normas vida afora.

A surpresa traz uma quebra de rotina, uma transgressão que nos mostra que nem sempre estamos no controle. O que pode ser delicioso para alguns e um pesadelo para aqueles que estão acostumados a seguir por estradas retas, com poucas curvas e sem atalhos, de preferência.

Mas, como tudo na vida pode ser bom ou ruim, não seria diferente com as novidades. Porém, isso não quer dizer que ser surpreendido negativamente, esteja nos planos de quem quer que seja. Surpresas desagradáveis são inevitáveis, mas nem sempre são permanentes. Ser pego de surpresa em situações que causem algum mal-estar, acaba conferindo um jogo de cintura capaz de nos fortalecer todas as vezes que o inesperado fizer uma surpresa.

Dessa forma, é possível, não somente, identificar as maravilhas contidas em uma boa surpresa, como também, querer a sua presença constante em nosso cotidiano. Talvez por isso, todas as vezes que desejamos algo inusitado, esperamos sentir uma descarga de energia que, inevitavelmente, terminará em sorrisos bobos e corações acelerados.

Porém, via de regra, transformamos, ou tentando transformar, surpresa em regra. Mas o surpreendente jamais será aquilo que esperamos que aconteça. O nome disso é expectativa. Surpresa é um atalho não programado, que nos conduz por caminhos absolutamente inesperados. Levando a destinos completamente desconhecidos. É aí que reside o poder da novidade.

As surpresas possibilitam um contato interessante com o novo. A cada nova situação, que foge do nosso roteiro prévio, temos a chance de conhecer diferentes nuances de nós mesmos e que não costumam aparecer com frequência. Então, à medida que somos surpreendidos, demonstramos novas reações e sentimentos que, ao longo do tempo, ajudarão a formar a nossa personalidade.

Somos formados pela dobradinha racionalidade & surpresa. Uma delas nos mostra que, para conseguir o que se deseja, é necessário pensar, programar, calcular riscos para, então, agir. Já a outra, chega como um furacão, derrubando nossos castelos de cartas, pretensamente organizados, mostrando que os caminhos entre o desejo e a realização são múltiplos e nem sempre fáceis de enxergar.

O que nos faz refletir sobre a forma como conduzimos a vida. Regras em excesso podem engessar nosso olhar, possibilitando apenas a mesma perspectiva sobre todas as coisas. Ao passo que, ser errático e desafiar o acaso o tempo todo pode gerar uma dependência por adrenalina que, certamente, excluirá do nosso campo de visão, a beleza pragmática do cotidiano.

O dia a dia não precisa ser enfadonho ou desinteressante, ao contrário. É possível incluir pequenas surpresas ao nosso cotidiano, sim. Mudar itinerários, ir ao cinema em outros bairros, permitir-se momentos de contemplação sem preocupações ou sair de casa em uma manhã qualquer, sem planejamentos, apenas com a vontade de aproveitar tudo o que for possível, nos dão a chance de experimentar situações simples, porém, repletas de novidades. Mas, para que isso aconteça, é preciso estar disponível para sentir esses sopros de novidade.

 

 

Mimados não podem sofrer

Levanta essa cabeça. Enxuga essas lágrimas. Sacode a poeira e segue em frente… Somos bombardeados por estímulos como esses, desde sempre. Estímulos que nos permitem, ou pelo menos tentam, retirar o sofrimento de nossas vidas, mesmo que momentaneamente. Coisa cada vez mais comum em tempos onde é inadequado sofrer. Ao menos publicamente.

Vivemos a era da felicidade quase obscena e obrigatória. Chegamos ao êxtase quando vemos nossos bons momentos esparramados por aí. Nos sentimos motivados a demonstrar a nossa felicidade, seja ela real ou meticulosamente fabricada, sempre que vemos alguém expondo registros mais felizes que os nossos. É evidente que, neste cenário, não há espaço para sofrer.

Mas qual é o problema em não querer sofrer? Na verdade, a ausência de sofrimento deveria ser encarada como uma benção e não como uma questão delicada. Então, se a felicidade é o contraponto exato do sofrimento, logo, se não há motivos para sofrer, sobram razões para explodir de felicidade, certo? Não no mundo real…

Hoje, se as crianças choram e demonstram algum tipo de sofrer, criamos, imediatamente, formas de aplacar seu sofrimento. E a mais simples delas, é a pronta satisfação das suas vontades. Para cada choro, um desejo realizado. Assim, desde muito cedo, aprendemos que sofrer é algo que precisa ser evitado. O que faz sentido, uma vez que ninguém quer sentir algo que traga dor ou tristeza.

Porém, há algo de estranho nesse atual padrão de comportamento. Querer apenas o lado brilhante da moeda ou apenas os belos dias ensolarados, pode criar uma realidade onde, as pessoas que nela vivem, desfrutam da mais plena felicidade. O que seria perfeito, não fosse por um pequeno detalhe: a felicidade absoluta não é real, pelo menos não da forma como gostaríamos. Para que seja possível conhecer essa euforia, é necessário saber o que significa conviver com seu antagonista. É importante conhecer os extremos para ter a  justa medida do que queremos de bom e do que não queremos de jeito nenhum.

Vivemos o “aqui e agora” que escolhemos, via celular ou controle remoto e, dessa forma, nos permitimos optar por um sem número de possibilidades isentas de sofrimento. Séries, filmes, aplicativos de relacionamento… Montamos tudo para que o resultado final seja aquele que programamos previamente. Pode até dar certo mas, na imensa maioria das vezes, as estórias seguem rumos totalmente inesperados. O que tem provocado muitas frustrações por aí. Queremos ser felizes e ponto.

Estamos mimados. Só queremos saber do que pode dar certo. Do que acaba em finais felizes. Não sabemos como lidar com perdas, dores e fracassos. O sofrimento é para aqueles que merecem, o que não é o nosso caso, não é mesmo? Para que chorar, se posso eternizar sorrisos em fotos descartáveis? Para que sofrer, se elaborei caminhos que me conduzem apenas a felicidade? Por que viver na realidade nua e crua, se posso criar realidades repletas de ilusão?

Talvez este seja o grande paradoxo dos tempos atuais. Não sofrer virou projeto de vida, contudo, esta escolha pode, sim, transformar-se em uma fonte inesgotável de sofrimento. Virar as costas para o que consideramos feio e doloroso, jamais será a garantia de que não viveremos momentos ruins. Ao contrário. Quando encaramos as dificuldades, percebemos que a vida nos dá limites muito mais severos do que aqueles que preferiríamos viver em nossas bolhas de felicidade.

Momentos difíceis são a outra face da moeda. Podemos até não querer conhecê-los, mas eles sempre estarão lá. E, sem sombra de dúvida, teremos que lidar com eles, mesmo que não seja uma escolha. Por isso, quando decidir viver apenas as boas coisas da vida, criando mecanismos para continuar mimado, mesmo depois de grande, lembre-se que só é possível valorizar a felicidade, quando, enfim, aprendemos a conviver e respeitar o que é o sofrer.

Amar é barra pesada

Há uma receita padrão espalhada por aí, que diz a todos que, amar, será a coisa mais incrível que poderá acontecer em suas vidas. Isto cria uma legião de perseguidores da fórmula mágica, que os fará amar e, ao mesmo tempo, receber o mesmo amor em troca. Como em um belo e clássico conto de fadas.

O amor é, de fato, o sentimento que tem a seu favor, a maior estratégia de marketing de todos os tempos. Desde o nascimento, ouvimos  que só o amor constrói a felicidade. Elegemos dias especiais para comemorá-lo. Admiramos casais apaixonados em propagandas, livros, novelas e filmes. O que significa dizer que somos, praticamente, obcecados pelo amor. Não como um sentimento natural que é construído a partir da união de vários outros sentimentos, mas como uma espécie de estilo de vida. Tenha amor, seja amor, ame e seja feliz.

Ah o amor romântico… Tão idealizado e, ao mesmo tempo, tão inacessível. Até mesmo para nós, os seus criadores. O que é, no mínimo, curioso. Valorizamos o amor a tal ponto, que o transformamos em algo quase divino. Resultado: passamos anos e anos em busca de algo que se afastará de nós, todas as vezes que tentarmos alcançá-lo.

O grande problema é que leva-se muito tempo para perceber que o amor, sublime amor, não passa de um pote de ouro enterrado sob um arco-íris imaginário. E, mesmo quando nos damos conta disso, pouca coisa muda. Afinal, é preferível se envolver pelo ideal de amor, a constatar que, sem ele, aquele romantismo que adoramos tanto, nunca passou de um mito.

O mundo é árido demais para não acreditarmos no amor. Concordo. Mas é preciso aprender que o amor cotidiano é como uma tela impressionista. Quanto mais distante estamos dele, mais belo e sublime ele fica. Porém, para que a mágica aconteça, é necessário estar próximo, só que, de perto, esta mesma tela, apresenta cores mais fortes e formas mais confusas, nada fáceis de entender. Assim como são todas as coisas no mundo real.

Então, amar não é ouvir sinos e receber flechadas de cupidos marotos? Claro que não. Mas essa é uma imagem mental muito mais agradável do que dizer: o amor é taquicardia, noites sem dormir e um certo descontrole emocional, certo? É aí é que entra a grande jogada de mestre.

Se o amor é barra pesada e nos coloca de ponta cabeça, mas, ainda assim, não vemos sentido em não sentí-lo, por que não mexer um pouco nessa imagem? Criando a ideia de que amar requer sacrifícios, mas que, apesar disso, nada pode superar o êxtase que sentimos por termos sido agraciados pela dádiva do amor romântico. Resumindo: me engana, que eu gosto…

Perseguir o amor ideal, reforça a ideia de que amar é algo raro e precioso. Logo, quando acreditamos que finalmente nos tornamos parte do seleto grupo daqueles que amam, desenvolvemos uma nova característica: o apego.

Só em imaginar o trabalho que tivemos para alcançar o amor, é completamente compreensível que queiramos aquele amor dentro e perto de nós sempre e, se for possível, para sempre. Só que, como diz a canção: o para sempre, sempre acaba. E é neste ponto que a nossa capacidade de perceber a realidade se confunde.

Uma vez que conseguimos sentir o mais nobre dos sentimentos e gostamos da ideia, não vamos querer abrir mão dessa sensação. Porém, em muitos momentos, é preciso perceber que o amor transformou-se, deixou de existir ou, simplesmente, não nos serve mais.

É nesta hora que encaramos a mais complexa das facetas do amor: o seu fim. É nessa hora que o amor, seja ele idealizado ou cotidiano, dá lugar ao apego e nos impede de enxergar, com clareza, a melhor saída. O que nos deixa paralisado em um dilema dificílimo. Se, de um lado está tudo aquilo que vivemos, do outro, tudo aquilo que não viveremos mais…

Por isso, todas as vezes que se sentir apegado à alguém, pense no que valerá mais a pena: guardar as lembranças de uma bela história de amor ou destruir as boas memórias românticas, se apegando a um presente triste e decadente? Independente da resposta, a escolha sempre será sua.

Olhares diferentes

Outro dia, observando as pessoas em um vagão lotado, enquanto tentava vencer o sono, percebi com mais cuidado, àquela multidão de desconhecidos, vindos não sei de onde e indo para os mais diferentes destinos. Naquele cenário, o que mais chamou a atenção foi ver tantas pessoas juntas, expressando-se da mesma forma. Todos juntos expressando uma certa indiferença coletiva. Uma espécie de solidão cercada de gente.

Isso, obviamente, não significa que aquelas pessoas eram, de fato, solitárias. Mas, à primeira vista, a forma como se portavam, demonstrava um enorme distanciamento entre elas, apesar da proximidade física. Um segundo olhar permitiu perceber ansiedades que escapavam em gestos, consultas apressadas ao relógio, olhares perdidos e uma apatia quase generalizada.

Multidões de indivíduos convivendo lado a lado, sem sequer notar a presença do outro. Como colônias formadas por células auto-suficientes que, apesar da semelhança, não mais se reconhecem como um coletivo. Criando, assim, representantes de universos bem particulares, capazes de voltar seus olhares apenas para si. Como isso é possível? Usando os portais dimensionais que carregamos no bolso. Nossos celulares fornecem acesso irrestrito a mundos que vão, muito além, dos limites físicos impostos pelos diversos vagões de onde entramos e saímos diariamente.

Cabeças baixas, polegares velozes e expressões faciais fortuitas, denunciam a nossa forma mais recente de interação com aquilo que nos rodeia. Passamos a enxergar coisas e pessoas através de filtros, onde tudo é genuinamente montado e pensado para agradar aos olhos alheios. E gostamos disso, cada vez mais.

Dessa forma, vamos deixando de lado, algo que sempre foi muito caro às relações humanas: o olhar. Perdemos tantas horas observando imagens estáticas e vídeos vazios, que esquecemos de admirar olhares, sorrisos e paisagens reais. Assim, pouco a pouco, um comportamento até então individual, ganha ares de coletividade, o que estabelece um paradoxo curioso: a socialização da individualidade.

Mas o que isso significa? Que caminhamos, a passos largos, em direção a virtualização da realidade que conhecemos. E para viver nesse novo lugar, criamos avatares de nós mesmos, que irão interagir com uma infinidade de alter egos cheios de virtudes e sem defeitos comprometedores. Dessa maneira, fica estabelecido um fluxo invertido, onde o mundo real torna-se refém de uma realidade virtual, cheia de padrões difíceis de seguir, mas que apresentam desafios diários, que nos instigam a sair de um mundo cheio de verdades absolutas, duras e sem maquiagem.

Nesta realidade, é comum perder-se entre downloads, posts, likes, streamings, lives e stories. Somos apresentados a uma nova forma de comunicação muito particular, de compreensão restrita e excludente. Apesar do interesse pelo mundo virtual aumentar vertiginosamente, há aqueles que não estão prontos ou interessados em desbravar essa fronteira. Estes formam uma turma, não de excluídos digitais, mas de incluídos na boa e velha vida real.

Pode parecer estranho, mas é cada vez mais atual essa duplicidade. Nunca fomos tão solitários no mundo real e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos amigos não presenciais. E, desse jeito, criamos muitos laços sem toque, damos abraços sem calor, chegamos ao êxtase sem suar e ouvimos declarações de amor através de áudios frios e estéreis. Assim, sem perceber, substituímos, pouco a pouco, a nossa tumultuada, porém deliciosa, humanidade, por algo que ainda não sabemos nomear.

Flutuar em realidades virtuais sempre será tentador, afinal, muitos querem mostrar o que têm de melhor, o tempo todo. Tarefa praticamente impossível de realizar em um mundo onde a realidade não se preocupa  em agradar a ninguém. O que é ótimo. Perceber as pessoas à nossa volta e admirar os lugares por onde passamos, desperta diferentes emoções e sensações absolutamente verdadeiras e isso, só é possível, quando enxergamos a vida através dos nossos próprios olhos.