Padrões…

            Já faz um tempo que os padrões, há muito estabelecidos, estão ameaçados. A publicidade já entendeu isso. A dramaturgia segue entendendo e a internet, apesar de tudo, também contribui para essa mudança. Mas, em que momento percebemos que o que estava posto, começou a ceder lugar ao novo? Muitas respostas possíveis, mas, acho que todas elas têm um ponto em comum: a exaltação da diferença. O que, por muito tempo, foi mantido debaixo de camadas de contenção, abriu fendas estreitas que permitiram que todos enxergássemos, enfim, que a diversidade merece a luz.

            Mas, apesar de alguns esforços, ainda tímidos, por parte dos veículos de comunicação, o que se vê é um levante dos grupos marginalizados, que jamais tiveram espaço para um protagonismo positivo em nenhuma escala. Vivemos uma época que pulsa diferente. Uma época em que não dá mais para ouvir calado a todas as formas perversas de julgamento. E, para além disso, não se pode mais tolerar comportamentos que nos forcem a acreditar que o perfil de fulano é melhor do que o de quem quer que seja.

            Isso, definitivamente, é algo a ser comemorado, porém, não é possível esquecer o volume de sofrimento carregado por muitos. A dor da exclusão sempre foi denunciada, sem muito sucesso, por muitas gerações antes de nós, mas não era conveniente aos padrões, transformar o clamor em voz. E vozes são capazes de transformar sussurros em berros que não podem ser abafados. E, tanto barulho, não pode passar despercebido. Fazer o chão tremer é uma boa forma de se fazer notar.

            As pessoas sempre foram incluídas em caixas padronizadas, prontas para guardar e selecionar perfis, independente seu tamanho original ou da sua vontade de ser classificada. Mulheres e seus adjetivos em uma caixa. Negros na outra. Baixinhos, nas caixinhas pequenas. Gordos, nas caixas mais espaçosas e reforçadas. Gays, nas caixas apertadas no fundo do armário. Velhos e crianças meio misturados porque ninguém sabe ao certo o que fazer com eles. Homens dominantes vivendo com a falsa sensação de liberdade, afinal, são os próprios que constroem suas caixas, mais amplas que as outras, sim, mas sempre serão caixas.

      Tudo perfeitamente encaixotado. Exceto a língua alheia, que sempre arruma uma brecha para circular livremente, fazendo vítimas por onde passa. Mas, parece que isso mudou, não é mesmo? Preconceitos disfarçados, ódios declarados e dissimulações convenientes, agora encontram barreiras onde antes nadavam de braçada. Mas, em algum momento, até mesmo os desmandos encontram limites. A razão para essa mudança necessária se baseia em questionamentos muito simples: Quem criou esses padrões? Quem foi que disse que o seu padrão é o certo? Quem disse que todos precisam ser padronizados?

         Ainda há muito o que fazer. Não é simples destruir os pilares que sufocaram, e ainda sufocam, a liberdade por gerações. Mas já é possível ver as suas lascas pelo chão. Novos caminhos estão sendo abertos e novas vozes engrossam o coro dos excluídos. Essas vozes berram, para quem quiser ouvir que, o único padrão possível é aquele que permite que todos sejam quem quiserem ser.

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