Os filhos do querer

Querer… Talvez este seja, não importa o idioma, o verbo mais utilizado pela humanidade. Querer engloba tantas outras ações como desejar, amar, consumir, explorar, ganhar, enriquecer, viver… Uma palavra simples que nos leva à realização de todos os nossos desejos, ou pelo menos a tentativa de realizá-los.

Aprendemos desde muito cedo a saber o que queremos e o que não queremos. Quem nunca dividiu as pétalas de uma flor desejando o “bem me quer” no final? Querer bem é sempre o que se deseja, não é?

Nossos desejos estão muito relacionados às conquistas. Estamos sempre na busca pelo que consideramos maior e melhor. Para mim, o querer dá origem ao que nos torna genuinamente humanos: nossas emoções.

Sempre queremos coisas em quantidade e formas variadas e como somos muitos, estamos sempre prontos a disputar por tudo, com todos. Praticamente todos os seres desse planeta disputam por alguma coisa. A competição é uma mãe capaz de gerar filhos muito peculiares. A vitória, a derrota, a frustração e a perseverança são bons exemplos dessa prole.

Nessa disputa, o desejo da maioria seria sempre o sucesso e a glória mas, como bem sabemos, não é possível vencer sempre que se deseja, logo, a vitória, a filha mais bela, não está acessível a todos.

É possível pensar em tantas gerações espontâneas a partir desses primeiros rebentos. Orgulho e arrogância, persistência, vaidade, felicidade… certamente seriam descendentes da vitória e, em contrapartida, da derrota surgiriam a decepção, inveja e rancor. Frustração e perseverança seriam os fiéis da balança, permitindo o direito de escolha entre a estagnação e a capacidade de seguir em frente, apesar de tudo.

Felicidade, amor e ódio também surgem da nossa capacidade de querer. Quantas vezes ouvimos a célebre frase de pára-choque “não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho”? E ter tudo o que se ama é sinônimo de felicidade. Mas, há limites para o querer? Confirmar o amor pelo que se tem não é, nem de longe, afirmar que não se quer mais e mais. Dessa forma, essa corrida maluca sempre terá um novo começo.

É quase poético pensar nas emoções como uma família grande e muitas vezes desajustada, com muitos descendentes nascidos de cruzamentos aleatórios, forjando nossa humanidade. Perceber o mundo além dos nossos instintos primitivos nos confere um status de exclusividade.

Há quem diga que somos únicos na natureza… resquícios do nosso antropocentrismo, certamente. Mas, seguindo por essa estrada, nossa exclusividade está relacionada aos nossos desejos, necessidades e vontades que se relacionam gerando descendentes férteis que se recombinam de diversas formas e em intensidades absolutamente não programadas.

Se olharmos bem de perto, o querer humano também gerou gêmeos antagônicos que podem nos equilibrar ou desestabilizar completamente. Não concorda? Vamos lá… Amor & ódio. Vitória & derrota. Felicidade & tristeza. Arrogância & humildade. Medo & coragem…

Reagimos a tudo a partir de nossas emoções. Quando conquistamos algo muito desejado, quando perdemos uma coisa importante ou quando estamos inertes de frente da TV numa tarde chuvosa de domingo… lá estarão nossas emoções, interagindo entre si, determinando aquilo que chamamos de estado de espírito.

Repararam que não estamos falando de coisas concretas e tangíveis? Jamais tratamos nossas emoções de forma pragmática. Embora a neurociência explique que, todas as variações dos estímulos cerebrais são provocadas por hormônios, neurotransmissores e uma infinidade de substâncias químicas sintetizadas pelo nosso corpo, continuamos, de forma rebelde, a tratar nossas emoções não como manifestações científicas, possíveis de mensurar, mas como algo que deva ser sentido, sem fazer muito sentido.

A verdade é que aquele querer inicial se desdobrou em diversas emoções, mas não se perdeu, apenas mudou. O querer sempre será nosso ponto de partida. Dele, podemos seguir por muitos caminhos, por vezes retos e tranquilos, por vezes sinuosos e inconstantes, mas, mesmo sem um plano de voo prévio, imaginamos que a jornada será repleta de emoções de todas as formas, cores e em diferentes doses. Como saber? Não se pode. Apenas uma certeza nesse caminho… O querer é o que nos move.

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