Os cacos que deixamos pelo caminho

Imagine acordar, olhar em volta e não conseguir enxergar nada além de uma terra arrasada, sem graça ou significado, onde nada parece ter importância. Nesse cenário amarelado, onde a felicidade é um artigo escasso, a desesperança caminha a passos largos por trilhas que só oferecem o gosto amargo da derrota. Narrativa triste, não é? Mas, muitas são as situações capazes de desencadear essa dolorosa visão de mundo, de onde é possível ver, apenas, os cacos que deixamos pelo caminho. Mas, felizmente, isso não é definitivo.

A visão que temos da realidade é, em grande parte, o reflexo daquilo que somos e sentimos. Dessa forma, o mesmo dia ensolarado pode ser visto, tanto como, o mais belo dos dias, quanto, como o dia mais desagradável do ano. É o nosso olhar diverso que permite a mudança de foco sobre qualquer coisa, a qualquer momento, salvando a todos de tristezas desnecessárias ou de alegrias superestimadas. Nossa aparente inconstância, nos ajuda a perceber as várias nuances de uma mesma cena, mesmo quando a vida insiste em reduzir o nosso campo de visão.

Vivenciar momentos em que, por alguma razão, perdemos nossa unidade e nos transformamos em fragmentos de nós mesmos, não pode, de forma alguma, ser motivo de medo ou vergonha. É praticamente impossível manter-se incólume diante das peças que a vida nos prega o tempo todo. Somos uma grande escultura que parece perfeita vista de longe, mas que, de perto, expõe as rachaduras e emendas conquistadas ao longo do tempo.

Vez ou outra, faltam alguns pedaços que, ao se espatifarem com a queda, formam pequenos cacos difíceis de encontrar e colar novamente. O que nos obriga a tomar decisões difíceis, porém definitivas. Continuamos a procurar os pedacinhos que nos faltam, ou seguimos em frente, exibindo as rachaduras provocadas pelas experiências vividas? A escolha não é óbvia, tanto que mudamos de atitude com frequência. Ora estamos de quatro procurando fragmentos de nós mesmos, ora, ignoramos solenemente, todo e qualquer pedaço inútil que tenha ficado pelo caminho.

Como agir, sempre que virmos nossos cacos espalhados por aí? Não faço a menor ideia, mas, sem dúvida, escolheremos uma forma de ação que estará relacionada a maneira como enxergaremos o mundo, no exato momento em que as rachaduras aparecerem. O fato inconteste é que a vida nos dá pancadas que variam de intensidade e podem deixar marcas, profundas ou não. Nunca saberemos quando isso irá acontecer e nem como, mas, certamente, perderemos muitos cacos como resultado dessa luta. Para alguns deles, emendas. Para outros tantos, indiferença. Para poucos, porém especiais, a falta.

Não passamos pela vida à toa. Aprendemos a valorizar o que, de fato, tem importância. Mas, até chegarmos a esse entendimento, perdemos um tempo precioso investindo em desejos que não trarão nada, além de marcas. Mas isso está longe de ser ruim, apesar do sofrimento que provoca. As rachaduras que exibimos são o resultado das experiências que tivemos, sejam elas boas ou não. Não é isso que importa.

As partes que nos faltam e os pedaços que colecionamos, criam uma espécie de mosaico absolutamente particular, capaz de contar exatamente qual é a dor e a delícia de ser quem somos. Não querer colecionar seus cacos é uma triste opção por não viver e, infelizmente, abrir mão da maravilha que é, poder contar a própria história.

Um comentário em “Os cacos que deixamos pelo caminho”

  1. Adoro qdo vc usa essa expressão “a dor e a delicia de ser quem somos”. Realmente é uma merda quando estamos aos cacos, nos catando por aí, ou até sem forças pra isso. Mas felizmente a vida não é feita só desses momentos. Quando estamos neles, parece que nunca vai acabar. É uma tortura. Mas acaba. E é tão bom olhar pra trás e ver como aquela reconstrução de caquinhos nos empurra pra uma versão melhor de nós mesmos! Eu imagino que dependendo da quebra, alguns caquinhos a gente não encontra nunca mais, mas a gente tb pode encontrar outros caquinhos inesperados e surpreendentes que fazem muita coisa valer a pena!

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