Olhares diferentes

Outro dia, observando as pessoas em um vagão lotado, enquanto tentava vencer o sono, percebi com mais cuidado, àquela multidão de desconhecidos, vindos não sei de onde e indo para os mais diferentes destinos. Naquele cenário, o que mais chamou a atenção foi ver tantas pessoas juntas, expressando-se da mesma forma. Todos juntos expressando uma certa indiferença coletiva. Uma espécie de solidão cercada de gente.

Isso, obviamente, não significa que aquelas pessoas eram, de fato, solitárias. Mas, à primeira vista, a forma como se portavam, demonstrava um enorme distanciamento entre elas, apesar da proximidade física. Um segundo olhar permitiu perceber ansiedades que escapavam em gestos, consultas apressadas ao relógio, olhares perdidos e uma apatia quase generalizada.

Multidões de indivíduos convivendo lado a lado, sem sequer notar a presença do outro. Como colônias formadas por células auto-suficientes que, apesar da semelhança, não mais se reconhecem como um coletivo. Criando, assim, representantes de universos bem particulares, capazes de voltar seus olhares apenas para si. Como isso é possível? Usando os portais dimensionais que carregamos no bolso. Nossos celulares fornecem acesso irrestrito a mundos que vão, muito além, dos limites físicos impostos pelos diversos vagões de onde entramos e saímos diariamente.

Cabeças baixas, polegares velozes e expressões faciais fortuitas, denunciam a nossa forma mais recente de interação com aquilo que nos rodeia. Passamos a enxergar coisas e pessoas através de filtros, onde tudo é genuinamente montado e pensado para agradar aos olhos alheios. E gostamos disso, cada vez mais.

Dessa forma, vamos deixando de lado, algo que sempre foi muito caro às relações humanas: o olhar. Perdemos tantas horas observando imagens estáticas e vídeos vazios, que esquecemos de admirar olhares, sorrisos e paisagens reais. Assim, pouco a pouco, um comportamento até então individual, ganha ares de coletividade, o que estabelece um paradoxo curioso: a socialização da individualidade.

Mas o que isso significa? Que caminhamos, a passos largos, em direção a virtualização da realidade que conhecemos. E para viver nesse novo lugar, criamos avatares de nós mesmos, que irão interagir com uma infinidade de alter egos cheios de virtudes e sem defeitos comprometedores. Dessa maneira, fica estabelecido um fluxo invertido, onde o mundo real torna-se refém de uma realidade virtual, cheia de padrões difíceis de seguir, mas que apresentam desafios diários, que nos instigam a sair de um mundo cheio de verdades absolutas, duras e sem maquiagem.

Nesta realidade, é comum perder-se entre downloads, posts, likes, streamings, lives e stories. Somos apresentados a uma nova forma de comunicação muito particular, de compreensão restrita e excludente. Apesar do interesse pelo mundo virtual aumentar vertiginosamente, há aqueles que não estão prontos ou interessados em desbravar essa fronteira. Estes formam uma turma, não de excluídos digitais, mas de incluídos na boa e velha vida real.

Pode parecer estranho, mas é cada vez mais atual essa duplicidade. Nunca fomos tão solitários no mundo real e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos amigos não presenciais. E, desse jeito, criamos muitos laços sem toque, damos abraços sem calor, chegamos ao êxtase sem suar e ouvimos declarações de amor através de áudios frios e estéreis. Assim, sem perceber, substituímos, pouco a pouco, a nossa tumultuada, porém deliciosa, humanidade, por algo que ainda não sabemos nomear.

Flutuar em realidades virtuais sempre será tentador, afinal, muitos querem mostrar o que têm de melhor, o tempo todo. Tarefa praticamente impossível de realizar em um mundo onde a realidade não se preocupa  em agradar a ninguém. O que é ótimo. Perceber as pessoas à nossa volta e admirar os lugares por onde passamos, desperta diferentes emoções e sensações absolutamente verdadeiras e isso, só é possível, quando enxergamos a vida através dos nossos próprios olhos.

3 pensamentos em “Olhares diferentes”

  1. Eu fui sua aluna há pouco tempo atrás e, por uma coincidência, acabei encontrando o blog que, para minha surpresa, era do meu professor de botânica. Comecei a ler e fui ficando cada vez mais encantada com os textos. Desde então, nunca mais deixei de acompanhar o blog. Esse texto de hoje me fez pensar muito sobre como somos apáticos com quem está a nossa volta no vagão do metrô, no ônibus e até no nosso ambiente de trabalho. Obrigada por nos permitir refletir, tanto em sala de aula, como por aqui. Parabéns pelo blog, Marco. Os textos são incríveis!

    1. Oi, Raíssa. Que coisa boa saber que você me achou aqui no blog também. Assim como em sala de aula, também compartilho as minhas reflexões aqui com mais pessoas. Muito obrigado pelo carinho e pela leitura. Bjo.
      P.S. fique a vontade pra divulgar, rsrs.

  2. Vc falou uma coisa muito certa: a gente está passando a ver as pessoas e as coisas através de um filtro criado para iludir. Provavelmente nem é proposital. Todos enxergamos o mundo ao isso redor através de filtros, construído pela nossa criação e experiências de vida. Agora enxergamos ainda com mais filtros. Os nossos e aqueles que o outro coloca (e proavelmente como se enxerga). Imagina o quão distorcida é essa percepção em relação à realidade? Mas também… o que é a realidade?

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