Olhar estrangeiro

Experimentar a sensação de estar deslocado em algum lugar ou grupo, não é exatamente uma coisa incomum e não tem relação com espaço ou tempo. Sentir-se um peixe fora d’água é algo que acompanha a maioria das pessoas, em algum momento de suas vidas. Isso permite observar o que nos cerca sob diversas perspectivas, que por vezes são boas e, por outras, nem tanto.

Estar deslocado cria, em certa medida, uma capacidade única de adaptação, onde é preciso ter a velocidade para perceber ambientes, idiomas e comportamentos diferentes dos seus e, de alguma forma, estabelecer uma conexão com eles.

Porém, não se pode afirmar que a sensação de não pertencer a algum lugar, será sempre positiva. Para muitos, pode ser dificílimo superar as barreiras impostas por situações que vão além daquelas com as quais lidamos com segurança. De toda forma, sentir-se um estranho no ninho, abre inúmeros caminhos, desde manter-se em situações onde não é fácil interagir de forma confortável, até perceber um ambiente como algo diferente do seu habitat, adaptar-se a ele ou buscar outros ninhos que sejam mais receptivos e compatíveis com seus desejos.

Esse panorama expressa uma certeza: seja qual for o caminho a ser seguido, a presença do desconhecido nos força a encarar limites pessoais. E é isso que nos impulsiona a seguir a caminhada ou, pelo menos, escolher entre desistir de algumas coisas ou confrontar tantas outras.

Dessa maneira, o que antes causava desconforto, hoje pode ser trivial e o contrário também é verdadeiro. O que prova que quanto maior for a disponibilidade para o novo, maior será a quantidade de experiências apreendidas ao longo do caminho.

Jogar-se no escuro está longe de ser uma situação tranquila mas é, sem dúvidas, capaz de expor detalhes particulares até então desconhecidos. Isso dá a oportunidade de, não apenas nos reconhecermos, mas de irmos além. Um vôo cego possibilita que sejamos apresentados a novas versões de nós mesmos, quantas vezes a nossa coragem permitir.

Talvez este flerte irresistível com o desconhecido, seja o responsável por esse desejo de conhecer ou experimentar novidades com as quais não nos encaixamos de imediato. Mudamos de escola, de bairro, fazemos novos amigos e traçamos um perfil das coisas que nos movem. Mas, apesar de sermos apresentados a pequenos desafios desde muito cedo, é difícil ter, em tempo real, a clareza sobre quando estamos as voltas com algo verdadeiramente novo.

Isso está, possivelmente, ligado ao nosso velho e conhecido instinto de sobrevivência. Aquele que é capaz, dentre tantas coisas, de alertar sobre as inúmeras roubadas que surgem a todo instante em nossas vidas. Mas nem sempre lhe damos os devidos créditos, tamanha a nossa vontade de enxergar além do que se vê.

Um mundo desfocado traz, à primeira vista, desconforto e insegurança, uma vez que não é possível saber a profundidade do que está diante de nós. Mas, à medida que o tempo segue seu fluxo, as cores e volumes tornam-se mais nítidos e ajudam a compreender melhor onde estamos e o que fazemos ali. Isso nos permite escolher entre ficar naquele universo, que toma forma diante dos nossos olhos, ou seguir em frente, na busca por novas paisagens.

Essa jamais será uma decisão única. Mudamos o tempo todo. Ora ficamos, ora seguimos em frente, querendo conhecer, compreender e ser desafiados por lugares de onde não fazemos parte, onde não pertencemos. Seguimos a vida buscando sempre por situações que nos façam ver o mundo por outro prisma e que nos torne diferentes. Dessa forma, mesmo quando nos sentirmos confortáveis, sejamos forçados a enxergar a vida com um olhar curioso, um olhar cauteloso, com um olhar estrangeiro.

 

2 pensamentos em “Olhar estrangeiro”

  1. Muito bom garoto….me tocou bastante uma frase, porque veio de encontro a um momento que estou vivendo _ “a presença do desconhecido nos força a encarar limites pessoais”_ e o bacana é não travar e sim você, ir em frente e quebrar paradigmas mesmo, arriscar, permitir que as coisas saiam do controle, agir sem medo, porque podemos ter ótimas surpresas ou, no mínimo, teremos um olhar diferenciado ao que antes nos parecia tão familiar. Obrigado. Abraço.

  2. Vc pode virar escritor, surfista ou atleta, mas o biólogo não sai de dentro de vc! “Isso está, possivelmente, ligado ao nosso velho e conhecido instinto de sobrevivência. ”
    Gostei da análise! 🙂

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