O renascer das luzes

O natal chegou! Todo ano ele chega trazendo promessas, trocas de presentes, desejos de felicidade futura e compromissos voláteis com a pessoa que queremos ser no próximo ano. Daí, chega o próximo ano e toda aquela empolgação que arrebata a todos, transforma-se, em poucos dias, em uma lembrança esmaecida. É estranho perceber que, em tão pouco tempo, o renascer das luzes da esperança, dá lugar a uma indiferença cativa, com a qual aprendemos a conviver cada vez mais.

Voltando ao espírito natalino, não há como passar incólume por dezembro e suas luzes que piscam, brilham e ofuscam os olhares de quem as observa. As luzes de dezembro vão muito além da simples proposta de iluminar casas, árvores de plástico ou vitrines. A proximidade do natal cria uma atmosfera muito particular, que permite a abertura de portas que teimam em se manter fechadas ao longo do ano. As luzes que piscam sem parar são, na verdade, chaves que nos ajudam a destravar os cadeados fechados por nós mesmos.

Nos acostumamos a pisar no acelerador de nossas vidas e só percebemos o tempo, no momento em que o ciclo anual chega ao seu fim. Seja porque estamos de férias, seja porque recebemos mensagens felizes de onde menos se espera. Esta é a época onde decidimos trocar olhares, conversar longamente e sorrir junto com aqueles com quem dividimos nossos espaços e que, muitas vezes, sequer sabemos seus nomes. Reflexos da indiferença nossa de cada dia.

Mas, basta enxergar o piscar de pequenas luzes, para entender que é o momento de acalmar a rotina e voltar a perceber que tudo o que construímos é fruto de uma obra coletiva. Mesmo que, por vezes, acreditemos que somos os únicos responsáveis por nossas conquistas. E é aí que, quase como um passe de mágica, voltamos a enxergar o poder da coletividade. O brilho que se espalha nessa época ajuda a iluminar as relações e nos faz mudar de alguma forma. Alguns compram presentes, outros escrevem cartões e ainda há aqueles que investem seu escasso tempo em prol de outro. É dezembro nos mostrando que a caminhada é muito melhor quando é compartilhada.

Estas luzes que iluminam nossos corredores internos, mostram saídas escondidas, que sempre estiveram próximas, mas que, por omissão ou esquecimento, não eram vistas. Atalhos que nos conectam ao outro, seja ela conhecido ou não. O brilho de dezembro vai muito além da decoração natalina. Ele nos lembra que também possuímos uma luz potente, capaz de iluminar o mundo e as pessoas à nossa volta. Uma luz tão especial e intensa, que se funde com tantas outras, criando um belo mosaico onde ninguém fica no escuro.

Resgatar essa luz interior é, possivelmente, o grande presente para o fim de um ciclo. Natal é época de olhar para quem amamos, é tempo de ajudar a quem precisa e é hora de entender que precisamos ser muitos, para sermos um só. As luzes da esperança não podem ser confundidas com pisca-pisca de belas vitrines. Estas servem apenas para lembrar que é chegado o momento de trazermos de volta a luz que mora em cada um de nós e que, de tão intensa, nos faz acreditar que podemos ser melhores o ano todo. Talvez este seja o real significado do natal, lembrar que, apesar das dificuldades, devemos manter nossas luzes, permanentemente, acesas.

3 comentários em “O renascer das luzes”

  1. Excelente reflexão sobre o período natalino e a nossa dificuldade para deixar nossa luz interna brilhar intensamente em nossas relações interpessoais rotineiras.
    Abraço de um feliz Natal!

    Brilhe nossa luz!

  2. Empolgação transformada em lembrança… Certa vez ouvi alguém dizer que independente de qualquer coisa, precisamos fazer planos e traçar estratégias para colocá-los em prática. E pra isso dar certo, precisamos estabelecer um tempo limite. Até aí, nada demais… Pois bem, os planos e metas costumam fracassar pq, em geral, ou nossos prazos são longos demais pra nossas rotinas super corridas, ou adiamos, ou impomos um ritmo pouco vigoroso. Ainda dentro da proposta desse discurso, todo esse mecanismo vai desestimulando a gente e as coisas demoram ainda mais pra acontecer. E a solução para tal era: traçar esses planos e estratégias para um período X (o exemplo foi 3 anos) e fazer de tudo para colocar em prática em bem menos tempo (10 meses).
    Pensando por um lado… A primeira vista me parece sufocante. Mas, pensando bem… Talvez isso seja uma boa tática para manter vivos: disposição, determinação, perseverança, foco e energia pra executar todas as ações propostas. Pode ser uma ótima dica para manter nossas luzes acesas o tempo todo. Ou, minimamente de forma mais equilibradamente contínua.

    Agora… A última frase do segundo parágrafo me remeteu à carta da chave do meu baralho (contextualizando: tá meio esquecido, mas tenho um baralho cigano lindo e enigmático pq comecei a estudar a leitura desse oráculo). Existem vários tipos diferentes de baralho com estilos de desenhos diferentes, mas as cartas são sempre as mesmas. Mesma numeração e mesma temática. O fato é que a minha carta da chave é uma das minhas preferidas. Tanto pela beleza da imagem em si, quanto pelo significado que ela tem. E no meu baralho isso fica muito evidente: éuma fada alada segurando uma chave dourada pouco maior que ela. Na ilustração, parece que ela vai abrir algo. Mas esse algo não existe. É uma paisagem colorida, meio turva e distorcida… A impressão que tenho sempre é que alí existe um portal com infinitas possibilidades e que o acesso a uma específica só depende de quem detém a chave. E na minha opinião, isso tem muito a ver com empoderamento, escolhas, consequências, aprendizado, maturidade, crescimento e “sucesso X fracasso”.

    “…chaves que nos ajudam a destravar os cadeados fechados por nós mesmos.”

    Agora, quem disse que só precisamos destravar? Quem disse que eu quero só portas se abrindo? Que aquelas às quais não me sejam propícias, sejam todas fechadas! Abrir ou fechar quais portas? Essa chave precisa ser usada com sabedoria aí…
    Que nossas luzes também sirvam pra iluminar nossas escolhas quanto ao uso da chave enigmática dos nossos destinos…

    Feliz e iluminado Natal!

  3. É estranho ler esse texto no meio pro final de janeiro, qdo tudo já voltou ao normal, as pessoas voltaram a ser indiferentes, as luzes se apagaram e os enfeites removidos…

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