O que viemos fazer aqui…

Há momentos em que nada parece ter muito sentido e que as pessoas com quem convivemos, não passam de figurantes sem fala em uma trama sem pé nem cabeça. Um espetáculo que reproduz cenas desconexas, onde só existe um personagem principal, que não sabe ao certo o que dizer. Todos nós já fomos os protagonistas destes momentos confusos onde sentimos tudo, menos a segurança de saber o que viemos fazer aqui.

Ninguém recebe um manual de instruções dizendo qual é o passo-a-passo que levará aos caminhos que todos julgam ser os melhores. Na verdade, seria muito chato ter um protocolo que diz aonde ir, quem conhecer, quando dizer sim e qual é o momento certo de dizer um sonoro não. A vida é, com toda certeza, um modelo experimental onde a única coisa que sabemos é que não sabemos de absolutamente nada. Apesar de passarmos muito tempo, por vezes a vida toda, acreditando que temos tudo sob controle.

Mas, apesar da aparente loucura, esse experimento nos permite criar conexões diversas com um sem número de atores vida afora. Vínculos que podem durar instantes ou se perpetuarem enquanto durar o nosso “para sempre”. Não importa. Sentir-se parte de algo ou alguém vai, aos poucos, criando bordas seguras onde podemos parar e descansar sempre que quisermos. E que, depois de passar um tempo nesses refúgios, seguiremos em busca de outros pontos para, mais uma vez, repousar e criar novos vínculos.

Esse movimento não é excludente. Quanto maior for esse rio, maiores serão as possibilidades de escolher pontos até então desconhecidos. Isso permitirá que criemos laços de vários tamanhos, capazes de nos unir a pessoas diferentes de nós, se tivermos sorte. Não é fácil estabelecer vínculos com aqueles que fogem ao nosso restrito padrão de comportamento. Essa grande bobagem que nos ensinam quando ainda não temos o vigor suficiente para ignora-la, infelizmente, nos impede de perceber a grande rede de conexões, laços, relações e afetos, que temos bem diante de nós.

Vivemos uma busca por novidades e, talvez por isso, nos esqueçamos dos vínculos que fizemos ao longo do tempo. Uma praia onde fomos felizes na adolescência, um amor que ainda persiste, mesmo depois do seu fim ou o repouso restaurador no colo de uma mãe. Situações que podem ser apagadas, sem razão, por conta da nossa estranha mania de trocar antigos laços, por possibilidades incertas. Buscar o novo não é um erro, deixar para trás as boas conexões, sim.

Na vida, nada é mais importante do que os laços que criamos. Trabalho, amores, amigos, família… Tudo isso nos dá muitas chances de contarmos uma história, a nossa história. Que pode ter finais alterados, cenas reescritas e inúmeros personagens. Perceber esse poder de renovação, traz novos significados para a vida que pretendemos levar. Seremos quem quisermos porque já fomos muitos. Teremos um futuro de laços mais firmes, quando não deixarmos para trás, os laços que nos trouxeram até aqui.

7 comentários em “O que viemos fazer aqui…”

  1. Engracado como compreendo tanto esse texto. Do alto dos meus 35 anos, percebo bem que não compreenderia esse texto aos 20. Ia pensar que compreendi, mas não. E talvez eu compreenda ainda melhor aos 50 🙂

    1. Volte daqui 1 ano e talvez a percepção já seja ligeiramente diferente, Luiza. Eu gosto de revisitar leituras antigas pra descobrir coisas novas. Ou pra ter outras reflexões. É sempre emocionante.

  2. Ok, hoje, com tempo suficiente para me dedicar ao texto consegui resetar minha tela azul e um lindo campo verdejante apareceu… Vejamos se será cultivável… Puxa a cadeira e pega um café kkkkkkkk

    Vou comentar os dois textos aqui pq agora q eu tomei coragem pra ler o dos cacos (achei ótimo, inclusive, mas ainda bem q só li agora, ok?), me parece ainda mais que ambos são complementares. Pode até não ser muito óbvio a primeira vista. O Batalha íntima foi uma grande furada, não há possibilidade de escrever nada sobre ele ainda (não podemos dizer que dessa água não bebereis pq vai que bebereis). Um gatilho que eu não esperava para um choro sentido numa madrugada qualquer aí há umas 2 semanas. Pq vc prega essas peças?

    Cacos, mosaicos, delícias, tristezas, memórias, histórias, chegadas e partidas. Tudo isso constitui oq somos no “momento da foto”. Pq no instante seguinte já somos outra pessoa. Mesmo um ser mais conservador está em constante mudança, nem q seja apenas ao olhar físico e orgânico.

    Portanto, oq viemos fazer aqui? Como assim vc quer que a gente estabeleça uma possível verdade para o coletivo? Falando sobre mim, vou usar uma frase sua do texto anterior: não faço a mínima ideia! Isso não é fantástico? Isso é muito fantástico! Não há como eu saber, em toda a sua complexidade e completude, oq eu vim fazer aqui (aqui = minha vida existindo por aí). E nem quero! Talvez seja isso que nos impulsiona a buscar nossas melhorias pessoais, nossos desejos, nossos laços, nossa história, nossas metas… Decepções e joelhos ralados acontecem e dói muito sim. Pessoas vêm e vão de nossas vidas e nem sempre é tão horrível assim. Lágrimas de tristeza e alegria? Com certeza!

    Toda essa plasticidade é maravilhosa! Nos ajuda a montar e moldar novos mosaicos de nós mesmos e a desfazer, refazer ou manter os laços necessários para seguirmos em frente. Não acho que quem vai embora deixa um espaço vazio, por exemplo. Todo mundo deixa suas marcas por onde passa. Também não acho que só seja possível relacionar-se com pessoas muito parecidas. Eu lido com gente muito diferente de mim o tempo todo e é ótimo (mas tenho preguiça às vezes e dou meus gritos às vezes), aprendo muito toda hora. Até pq, voltando ao “momento da foto”, quem realmente é muito parecido ou não com a gente se a todo instante vemos nuances muito pontuais de quem nos cerca?

    “Ah,Tati, mas não é uma pergunta.” Comédia! Comédia! Comédia! Nem vem que não tem como ler isso sem remeter a mil questionamentos.

    Agora, cá entre nós… Que às vezes dá um desespero não saber pra onde ir e onde isso tudo vai dá… Kkkkkkkkk Aliás, tenho a ligeira impressão que já referi isso aqui em algum momento…

    1. Tati, como é bom ler seus comentários, que na verdade são resenhas, sobre meus textos. Escrevo sobre algo e vc vem e subverte a ordem de pensamento e descobre entrelinhas que nem eu havia percebido! Vida longa ao aqui pensando e vida mais longa ainda a essa parceria Tati e Luíza, que me mostram que nada é óbvio como parece ser!

      1. Vim aqui buscar o texto que comparo a vida a um brigadeiro, pra indicar a uma amiga… Descubro que sou subversiva. Que honra! kkkkkkkkkkkk
        Eu nem sei bem em que momento resolvi deixar minha mente e minha tagarelice fluirem aqui, diante de tantas ideias interessantes. O fato é que tem sido uma experiência maravilhosa. Agora, pelo efeito reverso das minhas interpretações, confesso, nesses termos, não esperava. Me deixa muito feliz e é um incentivo a mais pra me estruturar logo e deixar meus monstrinhos ganharem o mundo também.

        Vida longa ao mundo paralelo do aqui pensado que vem sendo um álbum pras minhas “fotografias literárias” e pra diálogos quase semanais com a Luiza (que já amo de graça).

  3. Ótimo texto garoto. Estamos em construção constante e carregamos em nós as marcas e impressões daqueles que de alguma forma estiveram em nosso caminho. Marcas que podemos até esquecer que existem. Mas que estão em nós; e outras virão e mudarão algumas…e isso faz de nós o que somos.

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