O que está acontecendo comigo?

Ontem, eu ouvi uma crítica e mudei de atitude. Hoje, me disseram para eu não fazer o que faço. Amanhã, me dirão para mudar um pouco mais. E eu mudo… Depois de um tempo, todas essas interferências começam a afetar quem somos e uma pergunta torna-se inevitável: O que está acontecendo comigo?

Esta é uma resposta difícil, que nem sempre estamos dispostos a responder. Não é nada fácil reviver escolhas ruins, relembrar pessoas abusivas e, acima de tudo, assumir que poderíamos ter sido menos tolerantes com coisas e pessoas que, claramente, não mereciam.

Tolerância. É estranho ver um comportamento que, em teoria, deveria ser o fiel da balança em situações tensas e difíceis, transformar-se, erroneamente, em sinal de fraqueza. Ser tolerante nos permite ser agregadores e compreensivos, o que pode causar uma certa confusão. Tolerar não é sinônimo de permitir sem restrições.

Talvez esse erro conceitual, com o qual aprendemos a conviver desde muito cedo, seja a causa de uma cascata de acontecimentos que podem trazer felicidade ou não, fechar portas ou não, libertar ou aprisionar em relações e hábitos que fazem mal, mas que, em muitos momentos, nós simplesmente não somos capazes de encontrar uma saída.

É evidente que ninguém escolhe o pior para si mas, por causas diversas, criamos uma casca de tolerância ao comportamento do outro que obriga, muitas vezes, abrir mão de desejos próprios para sustentar o querer alheio. Até aí, tudo bem. Intercalar conquistas com quem escolhemos, é ganhar duas vezes. Mas, nem sempre é assim.

Pessoas flexíveis relacionam-se com pessoas menos maleáveis. Isso, obviamente, não é uma regra, apesar de bastante comum. O que me leva a arriscar que, nesses casos, a tolerância de um alimenta a intolerância do outro. Pode parecer radical, mas tentar responder a nossa pergunta inicial pode ser um bom exercício. Mas uma coisa é possível afirmar, a pessoa que somos hoje, é fruto de escolhas prévias que, certamente, irão nos dizer se fomos ou somos tolerantes demais ou de menos.

A maioria de nós flutua de um lado para o outro com muita frequência, mas há aqueles que escolhem a intolerância como bandeira. Esses precisam de uma revisão de seus conceitos o quanto antes. Se tolerar em demasia pode ser um problema, ser intolerante é, de fato, uma fonte inesgotável de desequilíbrio. Ser inflexível estabelece uma rigidez na forma de ser, pensar e agir que afasta qualquer possibilidade de usufruir e conhecer aquilo que é, naturalmente, diferente de nós. E isso pode ser o gatilho para atitudes, no mínimo, questionáveis.

A intolerância tem um potencial enorme para nos transformar em estúpidos e impacientes, uma vez que não há argumentos razoáveis para aqueles que só conseguem ver o mundo através do próprio umbigo. Pontos de vista estreitos provocam uma alteração da paisagem que se vê. Como se a vida fosse observada a partir de uma lente de aumento, por onde só é possível enxergar o que quer, quando quer e do jeito que for mais fácil. Intolerantes são limitados, isso é um fato.

Se de uma hora para outra, percebermos que nossos movimentos estão mais contidos, que a nossa gargalhada transformou-se em um sorriso pálido e que passamos a ver as coisas através de ângulos cada vez menores, é melhor ficar atento. Esses são sinais claros de que estamos cedendo aos limites e a falta de tolerância alheia.

Mas isso não é um problema. Basta parar e perceber que também é preciso ser tolerante consigo. Devemos dar segundas chances a nós mesmos. Isso nos permitirá enxergar, perceber, errar e aproveitar tudo aquilo que a vida nos oferece. Ser ou não ser intolerante proporcionou e continuará a proporcionar experiências que nos permitirão responder com segurança quem, de fato, nos tornamos.

8 pensamentos em “O que está acontecendo comigo?”

  1. Olha, tio Prof, esse texto caiu pra mim num momento em que eu precisava escutar/ler sobre isso!
    No fim, a pessoa mais flexível de um grupo é a mais influenciadora. Mas existe um limite até onde podemos ser flexíveis sem nos machucarmos a nós mesmos.

  2. Eu, como a Luíza, achei bem oportuno esse tema. Na verdade, ele é sempre oportuno pra mim, já que tenho essa tendência de tolerar em excesso, o que pode ser pernicioso pra mim. Algo que tem me ajudado muito nessa questão é uma analogia proposta pelo Karnal que me faz lembrar que eu sou sócia majoritária da minha vida. Isso me dá grande responsabilidade sobre o que devo fazer dela. Está nas minhas mãos. Não na dos outros.

  3. Excelente! Realmente, os tolerante alimentam os intolerantes e vice versa. Extremos e excessos são tão cansativos que talvez necessitem dessa simbiose… P refrigerar a própria alma rsrs. Perfeito seria se o tolerante não se agredisse em prol desse título, mas geralmente, o convívio com a intolerância deixa marcas.

  4. Bom texto, garoto. O título remete
    muito a um momento atual em que está sendo difícil ter empatia com as pessoas. E nos vemos surpresos com nossa própria resposta. Seja como for, respeitar nosso limite, nossa tolerância e nosso desejo deve estar sempre na frente de forma flexível ou não. Abraço

  5. Esse texto me fez voltar a pensar numa pergunta que venho me fazendo vez ou outra, muito por conta de eventos veiculados recentemente: Já fui/sou vítima de preconceito? Porque sempre nos perguntamos se temos preconceito (quase ninguém admite ter e que acaba levando a graus diferentes de intolerância). Mas e eu? Como e o quanto a sociedade me aceita ou tolera? Como mulher e negra recentemente assumida, comecei a abrir meus olhos pra questão da minha cor, das minhas origens, do meu papel na sociedade, do meu cabelo e o impacto disso tudo na minha relação com o meio. Morando na Zona Sul há uns 15 anos, tendo estudado em colégios particulares a vida toda, não pareço ser digna de tal autoquestionamento (será?). Nunca me achei discriminada e tinha um certo sentimento bom sobre isso (que é um tanto estranho e egoísta). Mas recapitulando minha vida, sob a ótica de que “o racismo no Brasil é mais fraco”, tenho percebido que a coisa toda pode ser mais cruel que possamos imaginar. Essa hipocrisia disfarçada de piadinha de mau gosto mas que todo mundo ri, paradigmas tão velhos quanto o nome do nosso país propagados até hoje como se normais fossem, contaminam nossas crianças e formam adultos intolerantes e permissivos. No fim, intolerante e “intolerado” são vítimas do mesmo sistema que vai manipulando a vida de todo mundo, seja para estar numa posição confortável para agredir o outro, seja fazendo crer que se deve estar e permanecer passivamente numa posição favorável a essa agressão, seja pra fazer crer que ela sequer existe. Não só agressão física, mas de toda ordem, inclusive a psicológica (tenho pra mim ser essa a mais mortal de todas). E aos pouquinhos vamos nos tornando intolerantes com um olhar de normalidade pra uma série de monstruosidades nesse mundo. Como pra variar já me alonguei bastante mas sempre há como um geminiano falar mais, deixo uma sugestão de leitura, o livro “Na minha pele”, de Lázaro Ramos. Não o terminei ainda e já superou muito minhas expectativas. Especialmente por trazer essas questões raciais e de identidade, mas de uma forma diferente, levando a gente a refletir justamente sobre nossa postura perante essas questões, empoderamento, orgulho de ser como se é, etc.

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