O pior ano de nossas vidas

            E vamos nos aproximando do fim de um ciclo estranho. Talvez um dos mais estranhos para quem tem menos de um século de vida. É bem verdade que a humanidade já andava mal das pernas, mas, ninguém seria capaz de prever com exatidão, que cairíamos de joelhos e seríamos completamente dominados, expostos e humilhados. Uma virose ultrapassou os limites da biologia e se aliou a ignorância, ao desrespeito e a negação. Ingredientes que deram forma e sabor amargo para o pior ano de nossas vidas.

            É claro que, em muitos aspectos, coisas boas surgiram a partir dessa crise sanitária e moral de proporções planetárias. Mas, propositalmente, esse texto não será sobre isso. E longe de mim bater palma para o pessimismo. Porém agora, mais do que nunca, é fundamental encarar a realidade do jeito que ela se apresenta, densa, perigosa e cheia de armadilhas. Ignorar esses sinais, é virar as costas para tudo aquilo que vimos, sentimos e perdemos, de uma forma que ninguém imaginou ser possível.

            O tom grave deste ano vem se repetindo dia após dia, criando uma ilusão que nos impede de perceber a real velocidade do tempo. Ora estamos no presente, ora no passado, sempre esperando por um futuro que parece nunca chegar. Esse estado de desesperança sufocante não é fruto da pandemia, apenas. O flagelo provocado pelo vírus serviu de gatilhos para outros agentes com potencial tão destrutivo quanto. E foi aí que a pandemia ganhou contornos de tragédia.

            Governantes, de todas as esferas, viram oportunidades na crise. Oportunidades que envolveram, apenas, o bem estar próprio e dos seus, deixando a população jogada a própria sorte. O escárnio foi acionado em nível máximo por muitos que escolheram acatar, concordar e praticar as mesmas ideias defendidas por criaturas inescrupulosas que, para o nosso desespero, ocupam os cargos de comando desse país. Pessoas que não serão nominadas aqui para que não manchem essas palavras com o horror que os alimenta.

            Mas, se os fins de ano são datas em que sempre manifestamos a nossa esperança e crenças em um novo ciclo melhor que o anterior, por que trazer palavras tão duras e cheias de pesar? Simples! Para que não se esqueça, nem por um segundo, que essa tragédia poderia ter sido menor. Para que se esqueça que o vírus não foi o único responsável por tantas perdas. Para que lembremos sempre de que as nossas escolhas sempre serão responsáveis por tudo que ganhamos, por tudo que sofremos e por tudo que perdemos.

            O ano de 2020 não permite falsidade. Esse ano veio para escancarar mentiras, expor enganos e punir os erros. Até mesmo daqueles que insistem em acreditar que tudo não passou de uma gripezinha. Dez meses depois de seu início, a pandemia do vírus e da ignorância cobra um preço muito alto. Então, para que possamos acreditar novamente em dias genuinamente melhores, é preciso cuidar das marcas profundas deixadas por esse ano inominável. Marcas que deixarão cicatrizes e memórias para o resto de nossas vidas.

            Que sejamos verdadeiros diante do novo ano que se aproxima. Chega de tentar mascarar dores e tristezas. Talvez o maior aprendizado desse ano pandêmico, foi que não há mais tempo para maquiar o que precisa estar nítido. Que a hipocrisia, a indiferença e a negação precisam ser tratados e não ignoradas, para que, finalmente, o amor e a felicidade prevaleçam e voltem a nos abraçar novamente.

3 comentários em “O pior ano de nossas vidas”

  1. Fantástico, verdadeiro e necessário! A falta de responsabilidade dos nossos governantes colaboraram muito para essa tragédia. Que 2021 venha mais leve e com a vacina para todos! Ninguém aguenta mais essa insegurança. Parabéns!

  2. Como sempre, excelente reflexão.
    Apesar da pandemia ser um momento histórico e triste, nos deixa este “legado” mencionado de que precisamos atentar para a hipocrisia preconceituosa e a sociedade de classes q ainda vivemos.
    Grande abraço.

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