O mundo não está colaborando

Outro dia me disseram que nada pode ser mais eficaz para espantar maus pensamentos, do que a energia positiva. Que bons pensamentos são capazes de neutralizar as agruras típicas dos momentos difíceis. Não duvido, mas, até que ponto, acreditar que, apenas a nossa positividade, pode mudar qualquer coisa só porque queremos? Talvez esse seja o grande momento para tentarmos entender que precisamos ir além das boas vibrações. Era para ser um texto feliz e leve para um domingo ensolarado, mas, o mundo não está colaborando.

Quem nos garante que as frases fofas de incentivo que ouvimos e transmitimos o tempo todo, não fazem parte de um manual ingênuo de autoajuda, que tem a pretensão de transformar as nossas vidas num piscar de olhos? Isso, por si só, jamais seria um problema, quanto mais good vibes, melhor. Mas, até que ponto, se apegar exclusivamente à certeza de que dias melhores virão, não promove uma letargia coletiva, que nos impede de reagir a toda sorte de injustiças que a vida nos impõe cotidianamente? A resposta é difícil, mas não custa compartilhar a angústia.

Somos mais de sete bilhões de pessoas compartilhando um planeta. Desse número monumental, a imensa maioria sofre, sofre e apenas sofre. Um sofrimento sem fim, que nem todas as boas vibrações são capazes de amenizar. Curiosamente, são essas pessoas, as mais envolvidas com crenças religiosas que prometem o alívio de suas dores. Observando por essa ótica, parece um tanto claustrofóbico ter tanta gente em um único lugar, suplicando por dias melhores que, na maioria das vezes, jamais chegará. Imaginar que, bilhões de criaturas adoecidas por uma realidade amarga e sem perspectiva, não deixam de acreditar em uma redenção é, ao mesmo tempo, surpreendente e assustador.

Não, a intenção aqui não é desacreditar a força do pensamento positivo, mas, sim, entender o porquê da nossa dificuldade em reagir de forma prática, reta e decisiva contra as maldades e injustiças nossas de cada dia. A nossa história como sociedade repete-se, sem nenhuma criatividade. Enquanto uns poucos mandam, outros muitos são massacrados em várias frentes. A História nos mostra isso. Os telejornais, também. E as projeções de futuro não são diferentes. Parece que nascemos fadados a entrar em uma pirâmide formada por camadas que não se comunicam e, dependendo da nossa posição, jamais seremos capazes de alcançar seu cume.

Todos sabemos que viver não é nada fácil, mas, acho que já ultrapassamos os limites do insuportável. A cada dia sofremos derrotas tão poderosas que colocam a todos de joelho da pior forma. Nossas quedas diárias não têm relação com competições naturais entre aqueles que partem de um mesmo ponto, em condições de igualdade e respeito mútuos. Nossas quedas diárias promovem humilhações que retiram todo e qualquer traço de dignidade. Talvez seja isso, também, que aniquila as possibilidades de reação diante de tanta indiferença.

Não seria ousadia dizer que, possivelmente, estejamos vivendo em escala global, o maior período de retirada de direitos coletivos e de ridicularização das liberdades individuais. O que massacra qualquer capacidade de pensamento contrário que nubla possibilidades mínimas de enxergar-se como alguém que pode, deve e merece ser feliz, para além da sobrevivência. Para isso é preciso ir um pouco além das boas vibrações. É preciso dizer não a tudo e a todos que ousarem insinuar que devemos viver a partir de nossos limites e, não, de nossas liberdades.

3 comentários em “O mundo não está colaborando”

  1. Outro dia eu estava conversando sobre isso com uma amiga. Ela trouxe esse ponto de talvez ser até cruel pedirmos pensamento positivo e mindfulness de pessoas que estejam passando por um sofrimento sem fim, que não depende delas acabar. Eu concordo. Não tinha chegado até esse ponto pensando nisso, mas é verdade. Mas por outro lado, ser negativo e pessimista faz mal demais. E não ajuda em nada. Não acho que ser positivo seja a mesma coisa que ser apático. Mas eu concordo que não é simples, e apesar de tentar olhar o outro lado, eu tb concordo com o ponto da minha amiga.
    Enfim… eu to falando isso tudo, mas tb to sem muita esperança. Parece que cada dia retrocedemos uma década em tudo o que vínhamos conquistando… Não duvido nada que até as próximas eleicoes mulheres não terão mais direito ao voto.

  2. Concordo com o texto e tb com o q foi acrescentado no comentario q li…
    Acredito q a positividade e até a religiosidade deve ser um recurso de força pra reagirmos, no sentido de cobrar nossos direitos coletivos e individuais…
    O problema é que a falta de cultura, educaçao e visão crítica, possibilitam a apatia e a alienação, onde depositamos a confiança em outros, sejam politicos ou entidades, sem nos movermos; o que é muitas vezes mais cômodo.
    Precisamos, com fé ou não, reagir, pq uma coisa nao deveria invalidar a outra, e sim, inspirar.
    Abços, Antonio

  3. De fato o “pensar positivo” prega essas peças. Achar que sorrir e ter esperança em dias melhores irá, por si só, mudar algo é um enorme engano. Acredito que a questão é muito mais profunda. Envolve o agir. Ser um otimista passivo, em geral não gera qualquer transformação. Por outro lado, tentar dar passos maiores que as pernas e tentar resolver todos os problemas do mundo em 1 semana, também não.

    Agora, quanto a esse agir… Existem formas diversas de executá-lo. Vejo que muitas vezes se tem ótimas intenções motivadas por pensamentos positivos produzindo um agir sem estratégia. O que, na verdade, revela um certo desespero. Então, é de fato muito difícil traçar os limites entre positivismo e letargia, ativismo efetivo e ações caóticas não resolutivas.

    Também acho importante deixar claro que há diferença entre passividade e pacificidade. Eu por exemplo creio a solução pra tudo é a gente atingir naturalmente um estágio de anarquismo. Mas precisa ser natural e global ou sempre haverá alguém liderando e manipulando massas. E se somos todos adultos e vacinados, oq nós falta pra compreender que cada um tem seus direitos e deveres e que se organizar direitinho tem casa, comida e roupa lavada pra todos?

    O problema é e sempre foi a lógica do sistema e TDS nós sustentamos isso ao delegar poder ao outro e não a nós mesmos ou ao exercer controle de outros.

    Mas isso já está ficando extenso e polêmico demais… Eu e meus momentos de brainstorming…

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