O horror se faz presente

O horror está no ar e não se sente envergonhado de se fazer presente. Para onde quer que olhemos, lá está ele, dando as caras. Vivemos, há meses, sem conhecer um dia sequer, com as bençãos da paz. É como se estivéssemos obrigados a renunciar ao básico necessário para viver. Aquilo que acreditamos ser fundamental e que costumávamos chamar de amor. A frequência com que somos golpeados, cotidianamente, por toda sorte de maldades e absurdos é tão grande, que nos anestesia tão intensamente, que não conseguimos mais diferenciar a impotência, da apatia.

As informações sobre esse mundo bizarro, chegam em tempo real, carregadas de um desassossego que não nos permite tomar fôlego. Estamos, há tempos, soterrados por péssimas notícias que, é claro, não gostaríamos de ver ou ouvir. Mas, vivemos em um tempo onde a informação, por mais dolorosa que seja, é necessária. Nunca foi tão importante sabermos o tamanho do buraco onde fomos colocados. Nunca foi tão urgente conhecermos aquilo que nos fragiliza. Nunca foi tão necessário identificar quem nos faz mal, para que, enfim, sejamos capazes de reagir contra esse mal que teima em nos dominar.

É como se o pesadelo provocado por uma pandemia, não fosse suficientemente doloroso e, a ele, fossem agregados novos elementos igualmente terríveis. O que acaba por criar uma fonte interminável de dor e desespero. O que, talvez, cause mais espanto em toda essa situação inominável, é a nossa incapacidade de lidar com ela. Não fazemos a menor ideia de quando ou como esse horror, e seus efeitos colaterais, chegarão ao fim. Caminhamos um dia após o outro, de olhos vendados sem saber muito bem para onde ir e, muito menos, como chegaremos lá.

É bem difícil pensar em mensagens otimistas que possam suavizar essa escrita. Na verdade, não é difícil, é impossível criar mensagens repletas de uma felicidade fluida e falsa. E, a última coisa que precisamos agora, é de falsas verdades. Está difícil? Muito. É nauseante viver em uma realidade onde dados sobre a morte de milhares são manipulados, onde um homem negro é asfixiado pelo joelho de um policial branco, é aterrador viver em um mundo onde uma criança negra, de cinco anos, é sentenciada à morte pela perversidade da patroa de sua mãe, apenas por ter sentido falta daquela a quem ele mais amava.

Essas são, apenas algumas amostras de um horror que parece não encontrar limites. Um horror que só vai encontrar seu fim, no instante em que transformarmos a nossa apatia e o nosso cansaço em força. Não é possível viver sob a lâmina do medo por tanto tempo. É hora de gritar a plenos pulmões que viver com medo não é viver, é estar aprisionado. E, isso, ninguém tolera mais.

P. S.: Esse texto é dedicado ao menino Miguel e sua mãe, Mirtes Renata. Meus sentimentos…

2 comentários em “O horror se faz presente”

  1. Verdade. Precisamos agir combatendo essa e outras injustiças.
    Viver com medo é terrivel…
    Precisamos evoluir enquanto sociedade.

  2. Que texto! Importante, apesar do cenário de tragédia, fracasso civilizacional que vivemos hoje, ainda assim buscar janelas, abrir portas. Essa preocupação é do bem. Nos diferencia da patroa da mãe do Miguel. Seguimos buscando luz, caminhos para a humanidade persistir e superar a penumbra. Não conseguirão nos manter presos por muito tempo. Eu sempre acho que tem luz no fim do filme. Seu texto ajuda muito neste sentido também. Obrigada. Sua admiradora sempre!!!

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