O dia em que me tornei medroso

Não faça isso! Não fale com estranhos! O bicho vai te pegar! Se comer assim, vai passar mal! Quem nunca ouviu estas e outras tantas exclamações que, acima de tudo, têm a clara função de nos amedrontar diante daquilo que não conhecemos bem? O que é bastante eficiente, uma vez que estamos aqui para constatar que a estratégia tem o seu valor.

Somos embalados por essas frases de alerta desde antes de entendermos o que é um alerta. Isso, obviamente, possibilitou que a vida se prolongasse para além da primeira infância, afinal, crianças e medo são figuras absolutamente antagônicas. Essa regra, talvez, esteja relacionada à percepção de mundo que tentamos construir à medida que crescemos e, durante esse processo, criamos e desconstruímos inúmeros medos, que serão os grandes responsáveis por muitas das escolhas que faremos ou deixaremos de fazer ao longo da vida.

Pode parecer estranho afirmar isso, mas, imagine-se criança em uma piscina. Essa memória vem em ecos que berram avisos como “não vá para o fundo, senão irá se afogar!” ou ainda, “desce daí senão você vai cair!” Ação; possibilidades; tragédia e… medo. Uma receita de bolo que nos mantém a salvo pois não permite que esqueçamos uma das regras mais importantes da nossa existência: limites existem e merecem respeito. Assim, a vida segue seu fluxo, enquanto nós tentamos acompanhar seu ritmo inconstante. Mas, para seguir esse compasso, é necessário escolher entre ultrapassar ou obedecer os próprios limites.

Sobre essa escolha pesam muitos fatores, mas poucos exercem tanto poder sobre quem somos e de que formas o mundo nos enxerga, quanto o medo. Não me refiro ao medo estereotipado, mas sim, daquele receio cotidiano que nos faz escolher entre levar um casaco na bolsa em uma manhã ensolarada, até dizer não a um comportamento abusivo sofrido em seu lugar de trabalho. Mudar situações estabelecidas, assusta. Mudar situações requer um confronto com limites internos. Mudar nos dá medo.

Mas é preciso estar atento aos sinais. Temer demais paralisa e nos impede de experimentar e, o que somos, senão o conjunto de nossas experiências? Por esta razão, não se pode perder de vista que, o medo, dentre outras coisas, nos ensina a ser cautelosos. Mas essa é uma linha muito tênue. É necessário ouvir os nossos medos, sem jamais nos tornarmos seus reféns. Esse é um desafio.

Conheço muitas pessoas que dizem-se imunes ao medo e exibem esta característica como um troféu. É provável que, para elas, admitir senti-lo, seja o seu maior medo. Perceber que nos amedrontamos diante de incontáveis situações, é tão normal quanto aceitar que iremos nos apaixonar, fazer amigos, perder e ganhar, sofrer e sorrir. Emoções e sensações que nos incomodam ou confortam, independente da nossa vontade, mas que serão nossas companheiras sempre e para sempre.

Medos. Limites. Cautela. Não estamos falando sobre equações com resultados esperados. Falar sobre e aceitar a sua presença constante, não transforma o medo em algo que devemos negar, ao contrário. Deveríamos imaginá-lo como balizas que mostram caminhos e não como muros que aprisionam. Caminhos estes que desafiam limites, criam novas metas e nos apresentam novas possibilidades.

O medo cria limites que são superados, logo, não é exagero dizer que, diariamente, vencemos desafios que nos amedrontam e, isso, nos permite a conquista de territórios onde jamais imaginaríamos chegar.

A coragem afronta o medo e nos mostra que, sim, é preciso ter cautela, porém, isso não basta. Precisamos fazer parcerias com nossos medos para que eles não sejam capazes de nos paralisar. Superar aquilo que tememos, é o nosso grande desafio.

5 pensamentos em “O dia em que me tornei medroso”

  1. Ótimo texto. Sejamos medrosos, convivendo ativa (e não passivamente) com nossos medos. Que sejam desafios a serem superados. Parabéns.

  2. O medo cria uma zona de conforto perigosa mas é também oq nos alerta mesmo qnd não sabemos o pq…. # comolidar? Rs
    Somos por natureza criaturas com instinto de auto preservação ( medo mesmo kkk) mas as vezes valeu uma respirada bem profunda e um se joga!!!

    Ótimo texto!

  3. Me reconheço uma medrosa com coragem….tenho muitos medos, mas sigo o lema: “Vai com medo, mas vai!!” E sigo adiante com o friozinho e, às vezes, friozão na barriga….

  4. Bom dia!!!
    O melhor dos seus textos, e o poder que ele tem, de nos remeter ao nosso passado, e nos causar momentos únicos de nostalgia.
    👏🏼👏🏼😉

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