O berro das minorias

É praticamente impossível nos dias de hoje, não perceber o quanto nos tornamos mais diversos e, com isso, menos tolerantes a vozes de comando que gritam alto demais, mas que não tem nada a dizer. Pouco a pouco, os cabrestos que sempre se encarregaram de apertar quando menos esperamos, começam a perceber que há algo diferente, como se os nós habituais não fossem mais capazes de conter uma voz crescente, que se cansou do silêncio. É o berro das minorias que descobriu-se potente e sem medo de transformar.

Os noticiários se encarregam, diariamente, de jogar em nossas caras toda sorte de horrores onde, para variar, as vidas afetadas são aquelas a quem nos acostumamos chamar de minorias. O que é muito estranho, para dizer o mínimo. Somos um país onde as mulheres representam mais da metade da população. Somos um país de maioria negra. Somos uma nação que bate recordes de público em paradas LGBT. Como é possível continuar chamando tudo isso de minoria?

Sabemos que há muitas respostas possíveis, mas nenhuma delas explica o fato dessa parcela mais que expressiva continuar sendo vista desta forma. Arrisco a dizer que, por traz dessa percepção de mundo compartilhada por todos nós, existe um grupo em desvantagem numérica que está desesperado. Desesperado com a ideia de perder os privilégios que estruturou ao longo dos séculos, para aqueles que, segundo a sua visão perversa e excludente, não merecem sonhar com dias melhores.

E, assim, criaram uma grande ilusão que nos fez acreditar que pequenos grupos são maioria e que grandes massas não passam de grupos insignificantes. Passamos anos acreditando que somos, de fato, muito poucos. Não se enxergar exercendo algumas profissões, não ter seus traços representados em brinquedos, não se ver refletido na arte. Não ocupar todos os espaços. Não. Não. Não… Se não pode ser visto, logo, não existe. Essa foi, e ainda é, a grande estratégia quem mantém a real minoria do controle de tudo.

Dividir para conquistar. Manobra de guerra eficaz quando se pretende minar a força de gigantes, para que eles jamais percebam o tamanho de seu poder de transformação. Mantendo-os eternamente adormecidos e afastados de tal forma que, como o passar do tempo, não são mais capazes de reconhecer suas próprias faces refletidas. Resultado de uma exclusão muito bem pensada.

Assumimos a convenção que estabelece que grupos desorganizados, mesmo que tenham claras características que os colocam em vantagem, serão chamados de minorias. Mulheres, negros, gays, crianças, pobres, imigrantes… Minorias. Brancos, abastados, religiosos, educados, políticos, banqueiros… O falso ideal da maioria inatingível. Desproporções que sustentam os pilares da desigualdade desde sempre e para sempre. Os anos não foram gentis com essa maioria fragmentada e incapaz de enxergar a sua própria potência. Até agora.

As barreiras que impediam que semelhantes se enxergassem como tal, caem a cada dia. O que leva essa massa a perceber que seu lugar no mundo não é aquele onde privações são a única realidade possível. À medida que pequenos grupos se reconhecem como único, espaços são reivindicados, direitos são conquistados e, a partir disso, passos para trás não serão mais tolerados. A mudança chegou. É hora de acolher, aprender a ser melhor e compreender que as diferenças, que sempre foram impostas, jamais foram reais.

Dia após dia as “minorias” encontram seus pares e voltam, após um interminável exílio, ao reconhecimento de sua própria face. Que é diversa, divertida, inteligente e muito potente. E isso, gostem ou não, é um caminho sem volta. Ainda bem.

3 comentários em “O berro das minorias”

  1. Eu vacilo muito com minha fé na mudança. Ver a existência de terraplanistas em pleno 2019 me faz acreditar que nossas mudanças conquistadas num espaço tão longo de tempo serão perdidas num piscar de olhos. Mas acho que minha lente pessimista pra esse ano me faz esquecer que a cada voz que é calada violentamente, outras 200 se levantam. E me enche de orgulho ver que mesmo diante de incertezas e até ameaças de morte, a maioria (das minorias) não dá um passo pra trás. Aí eu lembro que ainda dá pra ter fé, e dá até um pouco de otimismo 🙂

  2. Aaaaahhhhhhhhhh!!! Felicidade sem limite em acordar lendo essas palavras e essa energia boa. Que não são de esperança. São a constatação de um fato. E é muito bom perceber a mudança no seu discurso, muito denso e por vezes até meio derrotista, viu?

    Deixo aqui meu mantra (real) atualmente: no desespero não se enxerga o óbvio (Rocha MEM, 2018 ou 2019) kkkkkkkkkkkk. E o óbvio aqui é a ruína da falsa realidade imposta há milênios. Também me parece bem óbvio que a nova realidade muito mais real e justa já está instaurada. Sendo assim, Luiza, toma um fôlego aí, afine sua percepção e se anime! Kkkkkkkkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *