O avanço do tempo

Envelhecer. Este termo por si só, é capaz de provocar as mais diversas reações em quem, com ele, se identificar. Sensações que misturam resistência, horror e resignação tornam-se, rapidamente, cárceres de onde só é possível ver o que há de pior naquilo que nos acompanha desde o dia em que nascemos. Vamos envelhecer. Estamos envelhecendo. Quanto a isso não há muito o que fazer a não ser aceitar que, o avanço do tempo, pode ser muito mais legal do que querem nos fazer crer.

Ficar velho é um fato inconteste e, a partir do momento em que isto se torna uma aceitação e não uma batalha, um novo mundo se abre diante de nossos olhos. Para as crianças, por exemplo, o tempo não existe. A energia infinita aliada ao indomado ímpeto infantil, talvez sejam as únicas ferramentas, poderosas o bastante, para desafiar o tempo. São os adultos que, pouco a pouco, mostram aos pequenos que somos todos regidos por um grande ciclo de desenvolvimento imutável, que inclui: nascer, crescer, reproduzir e morrer.

Esse ciclo biológico pode até cumprir o seu papel nos livros de ciências, mas, na vida real, não há garantias de que essa sequência será obedecida. Destas etapas, apenas nascer e morrer são inegociáveis. Afora isso, não temos o menor controle sobre quando e como organizaremos o nosso crescimento. E, neste caso, crescer vai muito além do que tornar-se uma grande massa de células. O crescimento pede experimentação. Dificilmente, seremos capazes de descrever sensações sem, de fato, senti-las. Dificilmente, criaremos cascas sem a experiência da queda. E quedas que só existem porque foi necessário saltar antes.

Envelhecer é um acumulado de pequenas cascas, capas ou camadas, que se formam de acordo com a nossa disposição para saltar no escuro, na tentativa de alcançar algo que sequer conhecemos. Uns podem chamar isso de experiência, outros de inconsequência, mas, ambos concordariam que, os degraus que galgamos, além de abrirem caminhos rumo ao desconhecido, também permitem que deixemos nossas pegadas cravadas por onde passamos. Marcas que são testemunhas de uma história construída um dia após o outro, salto por salto, queda por queda.

Olhar-se no espelho é, de fato, algo desagradável quando a figura que buscamos é aquela que não mais existe. Fitar a face refletida aos trinta, quarenta ou setenta e, ingenuamente, esperar ver a mesma imagem da década anterior é, absolutamente inútil. Passar a vida olhando-se no espelho, com a certeza de que sempre verá a mesma imagem, é o mesmo que marcar um encontro com quem não existe mais. Não percebemos a passagem do tempo até que ele, de fato, passe.

Ser parceiro do tempo significa aceitar que os joelhos irão doer, que o colágeno irá nos abandonar e que o fôlego não será mais o mesmo. Falhas normais para uma máquina sempre em movimento. Mas, em contrapartida, é necessário perceber que o tempo não está aí apenas para levar o nosso viço consigo. As vivências ao longo da vida preenchem muito mais do que esvaziam.

O que nos permite observar o mundo com suas cores reais, apesar de enxergarmos menos. A experiência nos torna capazes de sentir o que há de verdadeiro em quem nos cerca, de forma simples e sem dramas. Como é possível chegar a esse ponto? Basta desistir da batalha inglória, e perdida, contra os anos que insistem em seguir em frente. O que devemos fazer é caminhar em paz, desfrutar a viagem e aproveitar tudo aquilo que só o passar do tempo tem a nos oferecer.

4 comentários em “O avanço do tempo”

  1. “Ser parceiro do tempo significa aceitar que os joelhos irão doer, que o colágeno irá nos abandonar e que o fôlego não será mais o mesmo.” Socorro! Já nasci velha. kkkkkkkkkkkkkkkk

    Reler esse texto agora me deu a mesma boa impressão de dias atrás. Pq apesar de reparar os notáveis sinais do tempo em mim, realmente estou amando todo o processo. Há uns bons anos eu era mais magra mas vivia fraca e sofrida, não era nada resolvida com meu cabelo, bicho do mato e muito louca (sim é possível)… Aprender a enchergar a minha beleza começou a partir do momento em que decidi que não queria ser escrava de químicas e pessoas ditando regras sobre meus cachos. Isso pode parecer balela, mas me trouxe respeito por mim mesma, pelo que realmente quero de mim e pra mim. E não atingi o ideal dentro do meu conceito de mim mesma, mas td isso desparou o mesmo mecanismo (liberdade, respeito, reconhecimento e aceitação) para outros setores da minha vida. Hoje consigo dizer com propriedade que, depois de muitos trancos e barrancos, depois de perder quase todo colágeno aos 33 e já ter meus cabelos brancos (sem qualquer perspectiva de tingí-los), estou no meu melhor momento enquanto ser humano. Mesmo que por vezes ainda me sinta um tanto inadequada em questões e lugares os quais eu não me encaixe. Ainda assim, hoje compreendo que está tudo bem nisso também.

    O que quero dizer com tudo isso é que temos uma estrada percorrida aqui, correto? E minha compreensão de mundo só está sendo viável por conta desse tempo todo nessa estrada toda bagunçada… Mas sempre teve flores, estrelas e nuvens pra compor a paisagem e me encher de alegria por voltar a ver cor na vida depois de uns buracos que tive que escalar antes de tornar a caminhar. E lá se vai mais tempo… Tempo pra se reerguer, tempo pra curar, tempo pra dançar no meio da estrada e celebrar! Tempo pra cruzar com estradas de outras pessoas ( umas maravilhoras, outras nem tanto)… Tempo pra plantar, esperar chover, germinar e então colher… E continuamos seguindo em frente. Descobrindo novos fios brancos e tomando 1 cápsula de colágeno por dia sim pq a gente pode passar a perna nesses genes rebeldes sim! kkkkkkkkkkk

    E a boa impressão aqui é justamente a de perceber que aprendi a apreciar a paisagem e desfrutar, de uma forma talvez bem particular, da minha viagem. Também venho percebendo, já há um tempo, que minha leitura das pessoas tem estado cada vez mais acurada. Pela sua lógica, prova que estou tendo sucesso nessa brincadeira de ser gente grande. E agora, refletindo sobre tudo isso, fiquei feliz de verdade. Muito obrigada por esse momento.

  2. Cade meu comentário que eu deixei aqui?
    Será que nunca foi? Poxa, demorei tanto tempo pra escrever… e nao salvei (buaaaá)

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