Nem tudo que reluz é ouro

O que de fato enxergamos quando olhamos ao nosso redor? Incontáveis detalhes de coisas e pessoas, certamente. Mas por que não conseguimos reter essas imagens por muito tempo? Difícil dizer, porém, sabemos que nem tudo nos passa despercebido. Alguns detalhes acabam preenchendo a nossa vista, provocam sensações agradáveis e, por conta disso, criamos uma seletividade no olhar e na forma de interagir com o mundo.

Sim, desenvolvemos um olhar seletivo para tudo e para todos desde sempre, embora muitos sequer percebam que, cotidianamente, fazem uso de inúmeras lentes, prontas para um ajuste de foco, de acordo com a paisagem à sua frente. Trocando em miúdos, só enxergamos com cuidado, aquilo que instantaneamente julgamos como belo e interessante. O que cria um padrão de comportamento, no mínimo, peculiar.

Compramos livros e revistas pela capa e veneramos as imagens perfeitamente alteradas de celebridades. Perseguimos o ideal de beleza que, como todo e qualquer conceito idealizado, não existe. Julgamos as pessoas apenas por seu modo de vestir e queremos, quase sempre, fazer parte do elenco que frequenta as festa onde só encontraremos gente bonita…

Esse modo de agir estabelece uma polarização onde o que considero bonito, quero por perto e o que for feio, por favor, mantenha uma distância segura. E, entre um pólo e outro, há um milhão de coisas e pessoas buscando um grupo para chamar de seu. Adivinhem em qual lado a maioria desejará estar?

Se o nosso olhar parcial e seletivo cria focos e interesses bastante estreitos, é preciso ter em mente que deixaremos de perceber um universo de possibilidades à nossa volta e que, nós também seremos ignorados pelo radar de tantos outros. Nesse jogo, estaremos sempre incluindo e sendo incluídos, excluindo e sendo deixados de fora do campo de visão de outras pessoas.

Aparências. Vivemos em uma roda viva moderna onde a embalagem se estabelece como um modelo a ser seguido. Já o conteúdo… Bom, este torna-se, cada vez mais, um produto secundário. Em épocas onde belas imagens sem significado e relevância são a chave para o sucesso, qualquer coisa que tome mais de cinco minutos de atenção, não parece ter muita graça.

Então, como fazer para ser notado? De acordo com as forças que regem os dias de hoje, se o seu objetivo é ter audiência, torne-se quem você não é. Para isso não é preciso muito esforço. Basta ter fotos bem estudadas, filtros milagrosos e horários certos para postagens. Pronto! Está criado um avatar bem sucedido que viverá eternamente feliz entre curtidas e compartilhamentos.

Porém, o mundo virtual não é o único a viver de aparências. Puxem pela memória que, certamente, se lembrarão daqueles personagens que contam vantagens imaginárias ou são capazes de sacrifícios desnecessários, que tem como único objetivo, ser um rascunho mal feito de uma obra original. E isso é bem triste.

Para ser, é preciso ter verdade. Não há mal algum ter espelhos para mirar, o problema é desejar que eles reflitam uma imagem que não é a sua. Perde-se muito tempo e energia tentando ser quem não é.

É impossível estar atento a tudo que se passa diante dos nossos olhos e, tomar decisões baseadas apenas em um primeiro olhar, pode ser muito raso. É preciso se permitir segundos olhares. Estes sim são capazes de enxergar, sem pressa e sem padrões, a verdade sobre as coisas e pessoas que nos cercam.

5 pensamentos em “Nem tudo que reluz é ouro”

  1. Lindo texto, amei e concordo com a parte que diz que é preciso se permitir segundo olhares. Estes sim são capazes de enxergar, sem pressa e sem padrões a verdade sobre as coisas e pessoas que nos cercam.

  2. Ótimo texto, meu amigo. Passa pelo questionamento filosófico de “ser x parecer”. Algumas pessoas têm tanto medo de ser, que se escondem atrás do que lhe parecem mais adequado. Muito bom. Me identifico com seus textos.

    1. Obrigado, amigo. Ser nos dias atuais virou supérfluo. Parecer é inclusivo e trás reconhecimento e se mostrar com verdade pode não agradar… triste realidade, infelizmente,

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