Nada pode ser mais triste…

Ódio… ódio e mais ódio. Estamos imersos em uma zona muito escura onde qualquer movimento, por mais simples, parece aumentar ainda mais a sensação de que não somos capazes de replicar nada, além de ressentimento, raiva e amargura. E nada pode ser mais triste que isso… ou será que pode?

Vivemos tempos duros, onde opiniões não são debatidas, são impostas. Tempos onde diálogos dão lugar a convicções particulares elevadas a categoria de verdades absolutas. Estamos sufocados por um cotidiano áspero, denso e nauseante, que tenta, a todo custo, silenciar murmúrios, lamentos e gritos. Tentamos sair do mesmo lugar mas nossas pernas pesam e nossos braços não alcançam saídas de emergência. Vidas aprisionadas, limitadas a ver o mundo sob a ótica do medo e do ódio. Tem como dar certo?

Saímos de casa cheios de dúvidas e com um único desejo: retornar com dignidade. Infelizmente, não há garantias para que isso aconteça. Estamos como crianças brincando em uma piscina onde, o primeiro a encostar na borda, estará eliminado do jogo. Porém, no nosso caso, as bordas aproximam-se do centro, encurralando a todos, deixando a clara mensagem: retirem-se, vocês não são bem vindos aqui. Por quanto tempo é possível aguentar?

Amigos revelam posições divergentes e apoiam causas que colidem violentamente com valores que prezamos tanto. O que seria normal, se não fossem tempos de cólera. Todos têm razão ou pelo menos querem ter. Nessa busca pela afirmação das causas próprias, formam-se facções que disputam território onde possam plantar suas certezas e suprimir seus contrapontos que, a esta altura, transformam-se em desafetos. Vale a pena lutar por isso?

E sob o domínio de um medo tão consistente, seguimos sem muitos planos, apenas reagindo aos estímulos que a vida nos dá. Perdidos em uma sequência de sobressaltos que aceleram o nosso coração e amolecem as nossas pernas. À mercê de toda a sorte de riscos que só uma sociedade adoecida é capaz de oferecer. Hoje, para provocar pânico não é preciso vislumbrar uma ameaça real, basta apenas enxergar o diferente como algo ameaçador. Foi para isso que evoluímos tanto?

O medo, o ódio e a ignorância são forjados do mesmo material, fluido e maleável, que pode crescer indefinidamente, sem apresentar nenhuma rachadura. Basta que seja inflado com cuidado até que tomem corpo e englobem tudo a sua volta. Criando uma cobertura dissimulada que envolve a todos com uma película impossível de ser detectada. Assim, lutas fervorosas são travadas, acusações graves são feitas e relações são desfeitas, mas nenhum dos lados consegue enxergar essas camadas, o que torna impossível perceber quem, de fato, comanda toda essa batalha. Até quando ficaremos tão cegos?

A compaixão, algo tão inerente a humanidade, torna-se cada vez mais supérflua. Uma perfumaria cara, um artigo de luxo. Não podemos acreditar, por nem um segundo, que isso é verdadeiro. Sentir-se conectado a quem está ao nosso redor, é sentir suas alegrias, angústias, medos, é perceber seus defeitos e qualidades. Se privar disso é escolher não entender o próprio mundo, a própria realidade. Sentir o outro é, também, se ver refletido. Abraçar o outro, é sentir o mesmo abraço. Ouvir as experiências alheias, é vivencia-las também. A isso, chamamos de empatia. De que vale usar um termo da moda, sem saber o seu significado?

Morremos cada dia mais. Grupos morrem aos milhares. Mas pouco importa, enquanto isso não nos afetar diretamente, são apenas estatísticas arremessadas em nossa direção diariamente. Em cidades onde o medo e a ignorância são os pais do ódio, ninguém deveria se sentir indiferente a dor do outro. Talvez este seja o maior desafio dos tempos atuais: curar corações repletos de horror para que, só assim, seja possível resgatar e transformar em realidade a empatia presente apenas no discurso. Vale a pena tentar? Nunca valeu tão a pena resgatar a nossa própria humanidade.

3 pensamentos em “Nada pode ser mais triste…”

  1. Seu melhor texto, de longe, até aqui. Nada como a dor pra guiar a pena… Texto pesado e embargado pelo choro da dor e da inconformidade, mas belo como só a tristeza é capaz de ser às vezes. Sinto com mta clareza a dor q te informou aqui. É a que aflorou em mim tb, dramaticamente, essa semana, em que executaram em uma, centenas de milhaaares de oprimidos!!

    Viva a empatia. Que paradoxalmente ela fique mais e mais forte a cada golpe, a cada execução, a cada covardia.

  2. Mas paralelo a esta tristeza a gente liga a tv e as redes sociais e vê tanta gente gritando junto e se manifestando junto pelo mesmo ideal, com as mesmas tristezas. E dá pra sublimar todo o resto e voltar a ficar forte e seguir na certeza de que não estamos sozinhos 😉

  3. Quando falamos que nunca se viu tanto ódio quanto nos tempos de hoje, eu me pergunto se não estamos julgando a partir da nossa perspectiva, dentro de uma existência curta. Eu nasci nos anos 80, e apesar de ter estudado história, não é a mesma coisa vivenciá-la. Comecei a me dar conta que vivemos história só nos anos 2000, e em pouco tempo já havia internet. Num piscar de olhos, todos temos smartphones, Facebook e WhatsApp. Estamos fazendo história com essa nova realidade, e estamos percebendo o mundo através de outras ferramentas. Acho que tudo isso nos dá a impressão de que coisas mudaram. Mas olha as cruzadas, a perseguição aos protestantes na Europa dos séculos XVI e XVII, a guilhotina, etc. Isso só falando de Europa, pq é o que a gente estuda em história. Tiradentes foi uma Marielle. Sidneya dos Santos de Jesus, diretor do Bangu I executada no ano 2000 foi uma Marielle. Felizmente ainda existem pessoas com coragem como a Marielle. Mas infelizmente a maldade sempre existiu e, não importa as ferramentas, sempre vão se articular formas de calar essas vozes.

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