Mosaico de nós mesmos

Vivemos tempos superlativos. Amamos demais, choramos demais, somos super felizes, odiamos intensamente e nos compadecemos pouquíssimo pela dor do outro. Não é necessário passar muito tempo próximo a alguém para que nossas emoções aflorem em grau máximo.

Talvez possa parecer exagerado afirmar isso, mas é inegável que há algo de inusitado e desconcertante nas relações dos tempos modernos. Seja no trabalho, no amor, ou até mesmo em um desentendimento no trânsito, estamos sempre prontos, inteiros e cheios de razão sobre alguma coisa. Pelo menos tentamos demonstrar que sim…

Mas como isso é possível? Simples. Uma vez que assumimos que falta tempo para nos dedicarmos às relações, criamos tipos prontos e pré-moldados que mostram sempre o melhor que há em nós. Profissionalmente, usamos o personagem eficientíssimo e proativo, disposto a resolver questões com a competência de um super funcionário.

Quando nos aventuramos em um relacionamento, seguimos um roteiro prévio que nos diz o que, quando e como agir. Demonstramos ao outro o quanto somos incríveis e como valemos à pena, afinal, somos muito especiais.

Corremos tão intensamente atrás das nossas escolhas, que sobra pouco tempo para elaborar melhor como vamos nos relacionar com quem nos cerca. Talvez seja por este motivo, que passamos a viver em modo automático, padronizando nosso comportamento, a fim de mostrar ao mundo que somos especiais e pronto. Sem perda de tempo. Sem maiores explicações.

Estar sempre nessa estratosfera nos impede, muitas vezes, de perceber os pequenos, porém interessantes, detalhes em parceiros de trabalho, vizinhos de porta ou até mesmo naqueles com quem dividimos a vida. E isso tem grandes chances de se transformar em armadilhas. À medida que oferecemos o melhor de nós, estaremos sempre esperando uma contrapartida igual ou maior. Uma tarefa nada fácil de realizar.

Achar que somos incríveis e importantes é muito bom, mas pode, em muitos momentos, gerar uma expectativa exagerada sobre tudo. Muitas são as vezes em que não conseguimos realizar aquilo que desejamos, da forma como planejamos. Resultado? Nos frustramos e reclamamos cada vez mais sobre tudo e todos.

O outro lado dessa moeda também é carregado de intensidade. Quantas vezes conhecemos alguém e, em minutos, ganhamos um amigo de infância? Porém, se a criatura não corresponder ao nosso ideal de amizade, teremos alguém novo para odiar.

Nos relacionamos em tempo real e virtual. Cada vez mais deixamos os detalhes de lado e só queremos saber do que realmente importa. Resumimos quem somos e mostramos, sob uma lente de aumento, apenas aquilo que julgamos importante sobre nós. Juntamos uma característica aqui e ali e formamos, com tintas fortes, um grande mosaico de nós mesmos mostrando, apressadamente, o que temos de melhor.

Em uma época onde o tempo é escasso e a pressa dá o tom das relações, acabamos por nos render ao exagero e abrimos mão das sutilezas que podem tornar a vida mais prazerosa.

Flertamos com a superficialidade frequentemente. Criamos o hábito de prestar atenção apenas ao que brilha mais, as pessoas mais bonitas, as melhores festas, ao filme que todos assistem… e por conta disso, muitas vezes, investimos nossa energia em experiências que só escolhemos viver porque outros decidiram que seria bom.

Tudo indica que este processo onde superestimamos muitas coisas, inclusive a nós mesmos, é fato consumado. Mas é possível sobreviver bem a tudo isso se decidirmos parar de olhar para tudo que nos é apresentado e começar a enxergar os detalhes e nuances que tornam a vida, de fato, muito mais interessante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *