Me engana que eu gosto

Quantas vezes encontramos com algum conhecido por acaso e, quase imediatamente, tratamos de marcar um outro encontro tipo, “passa lá em casa”, mesmo tendo a certeza de que isso jamais vai acontecer? Confirmamos presença e não comparecemos. Concordamos com argumentos indigestos, apenas para acabar com conversas chatíssimas. Declaramos amor a quem mal conhecemos, só para agradar aos ouvidos alheios. Estamos apressados demais para verdades verdadeiras e cada vez mais abertos a mentiras sinceras. Se não for tomar muito tempo e nem dar  muito trabalho, tudo bem, siga em frente e… me engana que eu gosto.

Desde quando ser enganado ou enganar alguém faz parte do nosso cotidiano? Diria que essa é uma premissa que se estabelece a partir do momento em que nos aventuramos nas formas mais básicas de relacionamento. Podemos até negar isso com todas as forças mas, até que ponto, essa convicção não seria, também, um autoengano? Difícil precisar, mas não pense que isso é, de forma ampla, um desvio de caráter ou coisa parecida. São regras de um jogo que já estava rolando muito antes de chegarmos aqui e que irá se perpetuar durante muito, muito tempo.

Por mais incômodo que seja enxergar as coisas sem filtro, não há muito o que fazer, além de aceitar, aprender as regras e começar a brincadeira. Ainda não se convenceu disso? Sem problemas mas, se você, à medida em que avançou no texto, foi buscando momentos onde levou alguém ou se deixou levar por conversas fiadas, promessas convenientes ou compromissos vazios, sinto informar, você faz parte do grupo que ganha a aposta, mas não leva o prêmio pra casa.

Políticos inventam fábulas para conseguir o que querem. Guerras são deflagradas a partir de fantasias. Amores se acabam, amizades se desfazem, votos de confiança se quebram… Sabemos que muitas dessas situações se sustentam sobre pilares de areia que, a qualquer momento, podem ruir. Mas, mesmo assim, concordamos em entrar nesse ciclo sem fim, mesmo sabendo que cobraremos preços altos por nossa permissividade, assim como nos veremos obrigados a arcar com os custos da nossa dissimulação pré-programada.

Não é exagero dizer que a maioria de nós flerta com a hipocrisia mais vezes do que gostaria. Alguns fazem uso dessa prática sem moderação, provocando estragos por onde passam, infelizmente. Mas, me parece que, dia após dia, os níveis de exigência aumentam sua elasticidade aos enganos que sofrem e passam a relativizar mentiras e a acostumar-se a meias verdades. Como se esse fosse, o caminho mais fácil para se chegar onde quer ou para se manter confortável em situações que não resistiriam, ao menor contato que fosse, com uma verdade sem máscaras.

Estaríamos nos tornando cínicos ocasionais? Possivelmente, mas acredito que ainda temos o poder de escolher quando preferimos verdades e quando toleramos mentiras. É aí que reside a nossa capacidade de alterar os fatos de acordo com as conveniências. Para nós, a realidade. Para os outros, bom, para os outros será aquilo que for possível… E assim seguimos realizando, descontroladamente,  quebras de contrato, escapadas, puladas de cerca e um sem número de descompromissos vida afora. Tudo dentro do grande acordo social, que inclui a todos nós.

Este cenário nos obriga a tomar posições que irão impactar a forma como vemos o mundo e como ele nos enxerga de volta. Em uma época onde o nosso maior patrimônio é o tempo, a correria da vida acaba gerando relações efêmeras. Com isso, respostas imediatas que dizem o que queremos ouvir, cumprem o papel da verdade e criam uma sensação de que isso é o certo. Esse é o ponto crucial onde nos restam apenas duas opções: O certo ou o fácil. A escolha é sua.

4 pensamentos em “Me engana que eu gosto”

  1. Achei o texto divertido, em algumas partes funcionando como um puxão de orelha, com um toque de conformismo ao efêmero e descompromissado amor humano.
    Bacana!
    Fica minha reflexão:
    Em tempo de total falta de tempo, correria e foco individualista, valorize quem escolhe estar com vc, mesmo que por alguns instantes.

    … Por mais cumprimentos de promessas. Amém

  2. Vc já viu aquele filme (lá vem luizalessa falando de filme, hehehe) “a invenção da mentira”? Acho que é esse o nome. Algumas mentirinhas são necessárias pro bom convívio.
    Além disso, muitas vezes, qdo encontramos algum conhecido, realmente gostaríamos de encontrar de novo. E falar em marcar algo é uma intenção genuína. O negócio é que as prioridades às vezes tornam difícil concretizar a intenção.
    O importante é não perder o balanço dessas promessas ou verdades ocas.
    Sei lá. 🙂
    Vamos ver o que a Tati Regina vai dizer 🙂

  3. Luiza Lessa, fiquei chocada que você lê meus comentários e senti um peso de responsabidade por explanar aqui minha forma maluca de pensar e escrever. Kkkkkkkk Também adoro os seus.
    Bom, vejamos… Acredito que por vezes essas promessas vazias sejam, não mentiras propositais, mas uma forma de tentar agradar o outro. É tão simples encontrar com um amigo e dizer “desculpe, mas ando muito ocupada, por hora não podemos marcar nada”. O que nos impede? Convenções sociais, regras de como ser “legal” e “fazer parte de um grupo”. Não suportamos a ideia de sermos julgados como antipáticos, chatos ou babacas. Temos a necessidade de sermos aceitos pelos outros mesmo que isso sequer mude nossas vidas. E pelo visto, antes mentir (porque afinal foi mostrado interesse em) que falar um sincero e irrefutável “não”.
    Em outros casos, como na política, mas não exclusivamente, acredito que seja puro jogo diplomático visando interesses. A boa e velha “política da boa vizinhança”…

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