Mais amor, por favor

Os últimos tempos não têm sido fáceis para nenhum de nós. Somos bombardeados por um sem número de atrocidades dia após dia. Perdemos espaços e direitos. Perdemos pessoas. Perdemos amor. Estamos estacionados em uma época onde as perdas parecem ser maiores do que tudo aquilo que ganhamos. Independente da nossa percepção sobre isso, uma coisa é certa, sofremos todos.

O mundo nos desafia a todo instante, colocando limites à prova, nos mostrando que a tolerância ao sofrimento pode ser sempre um pouco mais flexível. Vivemos imersos em uma escala que mede, de forma perversa, a nossa capacidade em sentir medo, tristeza e dor. É difícil dizer como cada um de nós percebe isso, mas há algo que, aos poucos, vamos deixando de sentir e de aplicar em nosso cotidiano. Ser demasiadamente tolerantes pode provocar efeitos colaterais devastadores que só nos damos conta quando percebemos que nos falta amor para compartilhar.

Estamos endurecendo, apesar de falarmos o tempo todo que o bom da vida é ser feliz e que esse é um bem a ser conquistado a todo e qualquer custo. A felicidade fabricada em comerciais de tevê impõe que estejamos sempre cercados por pessoas lindas e incríveis, que ostentam sorrisos brilhantes e congelados. O ser feliz acima de tudo não permite reflexões ou perturbações.

À medida que o complicado mundo real nos apresenta um sofrimento diário que parece não conhecer limites, nos vemos obrigados a desenvolver subterfúgios que nos permitam seguir em frente. Talvez seja por isso que aceitamos com facilidade a ideia de vivermos em um mundo irreal onde tudo é divino e maravilhoso. Dessa forma, ficamos tão envolvidos com as nossas escolhas que, provavelmente, deixaremos de entender cada vez mais,  sobre aquilo que se passa atrás dos muros do nosso frágil castelo de cartas.

O significado disso é muito simples. Estamos nos tornando insensíveis. Crimes hediondos, corrupções grandes e pequenas, desrespeitos por toda parte. Nada disso parece surtir efeito sobre a maioria das pessoas. Caminhamos anestesiados sem saber bem para onde vamos. Nos habituamos a conviver com a frequência do mal em nosso dia a dia. O que acaba por alterar nossa percepção sobre o que é bom e ruim. Banalizamos a dor e os problemas do outro e, em contrapartida, exaltamos tudo que supostamente nos faz feliz. Esse padrão de comportamento cria um universo paralelo que é, ao mesmo tempo, liberdade e prisão. E isso é terrível…

Tudo isso me faz pensar sobre a empatia. Muitas são as nossas virtudes, mas a empatia é, sem dúvidas, uma da mais incríveis. É ela que nos permite trocar de lugar com quem é diferente de nós. Que não nos deixa esquecer que as posições mudam, que as ideias mudam e que, acima de tudo, somos capazes de mudar a partir das experiências do outro. Perder essa capacidade nos cega e empobrece imensamente.

Vivemos tempos que exigem que estejamos sempre plenos. Praticamente nos obrigando a, sempre que possível, exibir com orgulho, a forma como queremos ser vistos e admirados. É bem provável que por conta disso, a felicidade egocentrada tenha se transformado em um status quase obrigatório. Se sou feliz, a dor alheia não me interessa. Se sofro, a felicidade dos outros não me importa. Assim, a ausência de empatia, se torna um caminho fértil para a apatia. O que é uma pena.

Olhar o mundo através de uma máscara de indiferença, ao contrário do que se pensa, nos impede de ser verdadeiramente felizes. Porém, quando escolhemos enxergar sem filtros, percebemos que, à altura dos nossos olhos, os detalhes são mais vivos, as pessoas são mais próximas e que os problemas, assim como a felicidade, fazem parte do caminhar. Que amar e ser bom fazem diferença, assim como se interessar por quem é diferente de nós. Amar é bom e, ser bom é, sim, melhor que ser, ordinariamente, feliz.

8 pensamentos em “Mais amor, por favor”

  1. Belíssimo texto! Ao ler esse texto todos nós fazemos uma boa reflexão sobre o verdadeiro segnificado do amor.
    Amor é o que falta nesse mundo tão dividido e perdido.
    #maisamorporfavor

  2. Adorei o texto, amigo. Contundente, real, direto. É exatamente isto: estamos anestesiados. E é preciso provocar mesmo está reflexão para sairmos deste estágio. Parabéns.
    #muitomaisamorporfavor

  3. Seu texto é simplesmente envolvente e nos faz refletir sobre o “eu” em todas as suas atmosferas sociais.
    Vivemos numa época onde o problema do outro é insignificante, as dores do outro é problema dele…
    Notamos com facilidade isso nas ruas qdo há um “morador” de rua…ele é tão real que chega a ser invisível! Faz “mal” olhar!
    Podem me chamar de utópico mas se colocássemos amor em nossos gestos e em nossas palavras, o mundo hoje seria uma morada muito melhor!
    Mais uma vez meus parabéns pelo seu texto!

    1. Muito obrigado por suas palavras, Leonardo. Precisamos de mais amor e empatia em todas as situações! Abraço.

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