Jogo de gato e rato

Todos os dias perdemos algo que nos é caro, importante ou essencial. Fazemos escolhas inconsistentes acreditando que elas nos levarão a certezas concretas, mas, o que percebemos é que existem muitas variáveis entre esse meio e fim. Mas, até aí está tudo certo. Nossas escolhas sempre implicarão em perdas que fazem parte de um jogo de gato e rato que será presença constante em nossas vidas. O problema é quando a nossa realidade nos impede de fazer as próprias escolhas, sejam elas quais forem.

A conectividade ilimitada acelerou viagens, encurtou distâncias e criou pontes para todos os lados. Aumentando, assim, a sensação de que a nossa capacidade de fazer escolhas é, também, sem limites. Até seria, não fosse o simples fato de não estarmos sozinhos nesse mundo. Mundo esse que pensa cada vez mais igual, massacrando cada vez mais a diferenças, em prol de uma padronização de comportamentos, potencializada pela suposta facilidade que temos em fazer escolhas. Que grande cilada.

Somos levados a crer nesta fala que diz que podemos conquistar tudo, quando quisermos e o quanto aguentarmos. Mas, na prática, o que percebemos é exatamente o contrário. Diante de um cenário de múltiplas possibilidades, fica cada vez menor, a nossa capacidade de decidir o que é melhor para nós. Nos atrapalhamos entre tantas saídas e atalhos, que fingem nos levar para onde quisermos, mas, que no fim, nos mantém exatamente no mesmo lugar. Esse mundo pretensamente grandioso nos ilude com ofertas de escolhas vitoriosas, que não passam de derrotas disfarçadas.

Enquanto entramos nessa grande roda de hamster, perdemos de vista que nossos desejos não são suficientes para garantir que nossas escolhas sejam sempre acertadas. Estamos envoltos por muitas camadas que, propositalmente, nos distraem e distanciam daquilo que queremos. Perdemos horas de sono sem razão. Perdemos encontros importantes porque não temos tempo. Deixamos de vislumbrar a vida real por estarmos vidrados em telas brilhantes. Amores são perdidos por não sabermos reconhece-los. Quem disse que nossas escolhas só trazem ganhos?

A realidade em que vivemos traz pitadas de um surrealismo tão cínico quanto perverso. Pessoas saem de casa e por razões absolutamente descabidas, não conseguem retornar. A violência é a grande expressão disso. O desejo desenfreado por ter, faz com que deixemos de perceber que não é necessário querer tudo. Quando todos desejamos mais do que podemos ter, fatalmente esbarraremos na vontade do outro, gerando conflitos que criam uma grande deformação social que nos engole a todos e nos tira, sem pudores, tudo aquilo que nos é caro, importante ou essencial.

Se a vida é de fato um grande jogo, perder ou ganhar são efeitos mais que esperados. Esse equilíbrio de forças só é possível enquanto formos donos do nosso direito de escolha, seja para ganhar ou para perder, desde que seja uma decisão nossa. Querer abraçar todas as chances possíveis para, no fim, acumular êxitos, não é apenas uma ilusão, é a certeza de que o descontrole sobre as escolhas que o mundo nos oferece pode, e vai, nos fazer perder mais do que poderíamos imaginar.

4 comentários em “Jogo de gato e rato”

  1. Mas e qual o problema em perder? Na maioria das vezes saímos muito mais maduros, conscientes, experientes e sábios das perdas. Não seriam, então, essas perdas, doloridos ganhos disfarçados? E quando um ganho envolve o querer de outras pessoas? Podemos perder pq nem todos queriam verdadeiramente lutar por isso. No amor, por exemplo, se ambos não quiserem seguir pelo mesmo caminho o relacionamento nem começa ou termina. Também pode acontecer de ambos se perceberem mas ninguém se manifestar, cada qual com suas razões. Alguém me disse, em uma conversa, outro assunto, há uns dias “Camada pra cacete. Nada é simples”. E nunca é simples mesmo por conta dessas camadas aí… E muitas vezes existem motivos pra um fato e nem nos damos conta quando ele acontece. Tipo pegar o ônibus errado, dar a volta na cidade, morrer de raiva e calor e fome, chegar em casa duas horas depois do previsto e descobrir que na verdade vc se livrou de um tiroteio. Parece um exemplo meio idiota, mas minha perda inicial se tornou um ganho até bem rapidinho.

    Agora, sobre as escolhas… Muitas camadas nos influenciam no momento de uma decisão, como o sistema e o ambiente onde estamos inseridos. E acho que nunca temos total certeza de que estamos fazendo a escolha certa. Não tem como. Tudo que vem depois do fatídico momento da decisão, ainda não foi vivido. Mesmo que a escolha seja bolo de chocolate. Existem mil receitas diferentes e possivelmente cada pessoa que fizer a receita “A” irá dar o seu toque, a sua “assinatura” (como dizem os chefs). Escolher bolo de chocolate nem sempre é fazer a mesma escolha, nem sempre será o mesmo bolo e só há como saber se decidir comer. Quase sempre nada é simples…

    Distração pra aspectos e coisas realmente importante? Sim, temos. Possibilidade de fazer escolhas erradas por conta dessas distrações? Também temos. Mas acredito que muitas escolhas erradas sirvam pra fazer a gente acordar pra vida, aprender, crescer. E isso não é negativo. Inclusive, acredito ser um meio de conseguirmos fazer melhor nossas próprias e legítimas escolhas.

  2. Adorei esse texto, tio Prof! Gostei muito da abordagem contrária à que a gente vê o tempo todo em mensagens diretas ou indiretas: que basta querer e isso é poder.
    A gente sabe que não é. Quem teve o mínimo de experiência em vida acadêmica sabe que não é (riso nervoso, hahaha).
    Acho que uma abordagem mais nesse sentido realista e calculista ajuda muito mais.
    Mas tb concordo super com o ponto da Tati Regina <3
    Sobre “qual o problema em perder?”
    A programação neurolinguística diz que não existe erro, e sim feedback.
    É um pouco reconfortante pensar assim, e desenvolver esse mindset. Mas no dia-a-dia é difícil incorporar isso em paz.

    1. Quando eu digo certas coisas, muita gente se irrita comigo pq parece que sou inabalavelmente plena… kkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Não se engane você também, minha cara. Procuro ao máximo incorporar essa paz pq sei que é muito importante. Mas, já disse uma vez, na vida, na prática, eu vivo tendo mini surtos e muitos rompantes mesmo sendo meio mosca morta. kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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