Gentileza ainda gera gentileza

Tentando observar o mundo até onde a minha vista alcança, percebi que, em vários momentos, me faltou foco para enxergar os detalhes, mesmo aqueles que estavam a poucos palmos do meu nariz. É como se todas as situações estivessem disfarçadas por filtros capazes de alterar totalmente a vida real, transformando coisas que julgava conhecer tão bem, em registros com cores e sombras fora do lugar. Criando, assim, um cenário onde a pressa virou hábito e cuidado virou desdém. Será possível acreditar que gentileza ainda gera gentileza?

As pessoas cruzam a nossa frente o tempo todo, ocupadas com seus celulares, organizando suas vidas, preocupadas com seus horários e com as cobranças diárias que parecem não ter fim. Situações corriqueiras que nos impedem, cada vez mais, de contemplar os encantos do simples. Distanciando, propositalmente, o nosso olhar daquilo que realmente importa, daquilo que de fato, faz diferença.

Caminhamos a passos largos em busca de uma atmosfera autocentrada, onde nada mais importa, a não ser aquilo que queremos. Crianças estabelecem desde muito cedo, suas listas de exigências e são atendidas por seus pais. Adolescentes ditam seus códigos de conduta tiranos e são atendidos. Jovens adultos pegam carona nestas facilidades e tentam criar um ambiente onde todas as suas vontades podem ser realizadas. Ou pelo menos tentam. Mas, chega a hora em que a vida toma as rédeas da situação e se encarrega de mostrar a todos quem manda e quem obedece…

É aí que os conflitos internos se expandem, ganham corpo e rompem barreiras. E, sem saber como controlar essas frustrações, passamos a compartilhar toda a sorte de intolerâncias e preconceitos irrelevantes em sua origem, mas que assumem status de indispensáveis de acordo com a ótica mesquinha da qual fazemos uso com frequência. E assim, criamos uma soma de desvios que deságuam nesse caos em que vivemos, onde ganhar sempre é o que interessa e perder está absolutamente fora de questão.

O que causa espanto nesse panorama, é perceber que estamos, sistematicamente, deixando de lado o interesse, o cuidado e o afeto pelo outro. Esse comportamento quase padronizado, é capaz de promover encontros ou causar afastamentos na mesma medida. Estabelecendo, assim, relações difusas onde nos habituamos a cobrar presença e disponibilidade do outro, mas, em contrapartida, nos limitamos a oferecer, apenas, a melhor das nossas ausências. Essa escassez de cuidados abre espaço para o desaparecimento de um dos nossos hábitos mais adoráveis: a gentileza.

Ser gentil vai muito além das óbvias boas maneiras. Ser gentil é estar disponível para si, para os outros e para todas as situações que a vida oferecer. Mas, parece que a nossa necessidade de atenção sem limites, não deixa muito espaço para que outros, também possam ser agradados. Esse erro de avaliação tem, seguramente, nos tomado experiências preciosas.

Então, o que é preciso ser feito para recuperar as formas daquilo que sempre reconhecemos como nosso? Como fazer para eliminar os filtros que alteram a nossa percepção para que acreditemos que ser egocentrado é melhor que ser coletivo? O que fazer para recuperar pequenos hábitos que mostram que ser gentil nos torna mais fortes e não o contrário? As perguntas são muitas, mas, neste caso, não há uma cartilha a seguir. Basta um sorriso, um olho no olho e um pouco de calma para observar os detalhes que só podem ser vistos a partir do olhar disponível da gentileza.

9 pensamentos em “Gentileza ainda gera gentileza”

  1. Talvez a pessoa que recebe “parabéns, docinho de limão” não seja a mais indicada para falar de gentileza. Vejamos…
    Muito do que foi dito nesse texto me remete a algo “um pouco” maior: AMOR. Não o amor romântico, o amor idealizado, o amor ilógico (não é amor, mas vendem como tal)… Mas amor de verdade. Um amor que poucas pessoas conseguem sentir e praticar. Amor pelas pessoas, por estar vivo, pelo trabalho, por contemplar um momento se me apresenta meio mágico, pela natureza, etc. Esse amor (que nada tem a ver com permissividade ou hipocrisia) nos faz ser gratos. Nesse instante de gratidão bate uma leveza, o nosso coração se abre e brota uma alegria gratuita. Esse estado pleno faz com que fique muito fácil surgir “um sorriso, um olho no olho e um pouco de calma para observar os detalhes que só podem ser vistos a partir do olhar disponível da gentileza”. Acaba sendo um efeito dominó interno que se propaga até atingir o exterior. Externamente, a nível macro, esse efeito vai fazendo a gentileza se espalhar. Feliz ou infelizmente, me parece que hoje é necessário haver um gatilho. Alguém precisa iniciar este comportamento para que outros a volta se contagiem ou tragam a tona uma longa reflexão e auto-análise.
    Talvez, na verdade, em uma sociedade que cada vez mais se enfurna em seus celulares (me incluo aqui), as pessoas estão desaprendendo a lidar com outras. Existe uma massa de gente temerosa e desconfiada da própria sombra andando nas ruas que acho esquisito demais. Nesse cenário de medo constante, a falta de gentileza me parece ser uma espécie de fuga para manter o outro distante ou tentar sequer ser notado no meio da multidão.

  2. Eu li esse texto há alguns dias e estava pensando em como descrever a sensação que eu tenho quando sou gentil. Hj eu li o comentário da Tati Regina. Brilhante, como sempre. Eu simplesmente A-D-O-R-E-I como ela descreve todo o gatilho que leva da gratidão por pequenas coisas até a manifestação da gentileza. O dominó interno que, qdo de exterioriza, tem o poder de transformar. Menina, como pode ter esse talento de descrever algo tão nobre e tão sútil com palavras? Amei! Sou grata por ter lido esse texto e esse comentário! <3

  3. Luiza Lessa, e se eu te disser que minha criatividade pra escrever, em geral, necessita de algum fator estimulante? Até escrevo uma coisa aqui, outra alí… Mas não tenho essa coragem de me expor. Tudo bem que venho me expondo bastante aqui, mas tem um peso psicológico diferente. Vai entender kkkkkkkkkk. É gratificante saber que não sou maluca e que de alguma forma acabo causando sensibilizações positivas por aí. O blog não é meu, mas obrigada pelo carinho. Essa massageada no ego e a revisitação do meu lado mais zen e sutil me fez bem nesse meu agora kkkkkkkk.
    E o Marco só observando… kkkkkkkkk

    1. Eu me sinto muito feliz por ser o agente provocador de reflexões tão maravilhosas!!!! Muito obrigado, meninas!!!

  4. Eu só queria que eu recebesse msg qdo vcs respondem a algum comentário meu. Podia ser algo automático. Pq às vezes esqueço de checar se vcs responderam a algum comentário meu.
    Mas a verdade é que acho super legal essa coisa do TioProf pegar um assunto e botar pra jogo. Tati toca de um lado, eu recebo de outro. Rsrs (pra ficar temático de copa do mundo).
    Mas é muito gostoso ver essas outras percepções. Muitas vezes se alinham com as minhas, mas eu nunca as observei de um ponto de vista tão analítico. E teorizar sobre essas coisas ajuda a consolidar tendências positivas de um comportamento que eu já tinha, ou reforçar algo que eu quero melhorar.
    O mais incrível é que muitas vezes que leio essas coisas aqui, estou passando por alguma situação, e aquilo era tudo o que eu precisava ler. Meio que abre umas janelas, sabe? Lindo demais!

    1. Tenho esse mesmo querer, Luiza. Eu só vim prestar atenção nas respostas de vcs há pouco tempo. kkkkkkkkkk. E esse lance de “a vida imitando a arte” e vice-versa também acontece comigo. E quando eu dou minhas sumidas, pode saber que o título já mexeu bem muito comigo e ou to ocupada e não quero nem me atrever a correr o risco de precisar digerir o texto por dias, ou não consegui ter tempo pra organizar meu pensamento pra escrever. Por isso acabo escrevendo tanto, acho. E já que meus textões são bem-vindos, não preciso me preocupar em me conter. E viva a terapia de grupo! kkkkkkkkk

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