Fragmentos irreais

Os últimos tempos tem sido pródigos em novidades. Até aí nada de novo. A grande diferença de tudo o que foi vivido antes para o que temos agora é, sem dúvida, a velocidade com que as experiências nos alcançam. A pressa é tamanha, que quase tudo nos escapa, e não queremos mais perder nenhum detalhe. Assim, abrimos mão de sermos únicos e criamos fragmentos irreais de nós mesmos, na tola tentativa de dominar a velocidade dos novos tempos.

O tempo deixou de ser o moderador de nossas existências, para assumir o posto de observador desse grande jogo no qual vivemos onde, o ganhador, será aquele que fingir melhor ser quem jamais foi, ter estado onde sequer imaginou estar ou parecer ter aquilo que nunca teve. A ansiedade em estar em todos os lugares e com todas as pessoas, faz nascer criaturas fragmentadas que não sabem ao certo de onde partir ou aonde querem chegar. A falta de percepção sobre o que é real, nos fazem acreditar nas irrelevâncias de uma vida cada vez mais editada.

O que parece estar muito claro, mesmo que não seja percebido por todos, é a batalha interna que travamos onde, o indivíduo que somos de fato, tenta conter os cacos que insistem em se espalhar por todos os lados. E, pelo que podemos ver, os nossos pedaços tão pequenos parecem vencer essa briga com folga. Afinal, quem nunca viveu o terrível dilema que nos leva a escolher, dentre milhares de opções, as partes de nós que julgamos próximas da perfeição? Queremos oferecer o melhor de nós sempre. Mesmo que seja uma fantasia.

O volume de possibilidades de interação mudou tanto, e em tão pouco tempo, que não é mais possível saber se os novos meios de comunicação nos fragmentaram ou se nos pulverizamos para poder atingir um número maior de conexões. É uma busca quase filosófica por respostas que, de fato, pouco importam. Estamos vivendo o delírio de uma vida editada por aplicativos e filtros que prometem, além da felicidade plena, a conquista de uma perfeição, concretamente, irreal.

De fato, nos habituamos a enxergar a vida por ângulos específicos. Vemos frações de paisagens. Rostos divididos, pratos de comida, corpos moldados sob a luz correta e sorrisos constrangedoramente felizes… Todos vistos por lentes especiais cuja a finalidade é criar o imaginário da perfeição. O que, obviamente, não é possível, uma vez que o ser perfeito não passa de uma peça publicitária bem elaborada, que diz que somos capazes de alcançar esse objetivo, apesar de sabe-lo inatingível… Assim sempre que chegarmos perto do que acreditamos ser perfeito, uma nova meta é criada. O que nos obriga a construir uma nova face o tempo todo, pois, só assim, conseguiremos estar, ingenuamente, a um passo de um lugar que jamais existirá.

Essa receita foi feita para dar errado, claro. Escolher ser muitos para agradar as demandas de um mundo tão diluído, provoca um efeito dominó onde todos dizem tudo para agradar a todos e, assim, conquistam a admiração de uma plateia sempre crescente. É aí que me vem a seguinte dúvida: será que vale perder o direito as próprias escolhas, a capacidade de dizer não ou a vontade de fazer apenas o que lhe agrada, somente para viver a ilusão de que podemos ser múltiplos na arte de fingir ser quem jamais seremos? Desconfio que, encontrar essa resposta, será o nosso grande desafio, diante desse acelerado novo tempo.

4 comentários em “Fragmentos irreais”

  1. Engraçado me deparar com esse texto agora, no fim de um ciclo de reflexões dentro deste mesmo tema. Tudo começou com meia dúzia de girassóis. Lindos. Imponentes. Cheios de significados pessoais e místicos/religiosos/ritualísticos. Eu não poderia deixar que eles morressem sem fazer o registro do esplendor visual e energético alí, a minha disposição… Posição perfeita. Luz perfeita. Umas 20 fotos pra garantir. E quando fui dividir uma delas nas minhas redes, não tive coragem de filtrar. Tentei mas me pareceu tudo tão improvável quanto forçado… A natureza é fluida, orgânica e bastante provável, a sua maneira. Me senti quase que profanando algo divino ao tentar impor uma falsa melhoria ao que já é verdadeiramente perfeito.

    Paralelamente, em outro momento, me deparo com uma amiga contando um fato de uma amiga dela… Que estava tão arrasada que sequer estava tingindo seus fios brancos… E os meus fios brancos? Meus lindos fios brancos! Não tenho a menor vontade de tingi-los. Se o fizesse, tascaria logo um verde, um magenta ou lilás. Sei lá, algo menos naturalmente possível mas muito mais coerente com minha essência de cores vibrantes. Porém, o tempo e a disposição pra manutenção dessas cores não está na minha lista de prioridades no meu agora. E a minha pergunta é: qual o problema dos fios brancos? Os meus contam uma história, me lembram todos os dias que algumas etapas já se foram, GRAÇAS A DEUS! Algumas estão em curso e outras tantas nem faço muita ideia ainda. E considero isso meio mágico… E vejo beleza nisso. Não pretendo filtrar meus cabelos.

    Talvez essa preocupação excessiva com a auto-imagem venha por conta do peso da opinião alheia. Pode ser também por uma busca descabida e cega por perfeição. E eu trago outra pergunta: perfeição de que? Na maior parte das vezes, estamos sendo pouco gentis conosco e/ou com os outros e/ou com o ambiente a nossa volta. Direcionando nossa atenção para essa suposta perfeição, sem nos darmos conta de sinais subjetivos que gritam conosco o tempo todo.

    Outro fato engraçado é eu falar tudo isso sendo eu tão perfeccionista e detalhista. Vai ver é o efeito dos meus fios brancos… Kkkkkkkk

  2. Cara, chegamos a um ponto que outro dia eu estava ouvindo no rádio que as pessoas estão indo aos cirurgiões plásticos e levando suas fotos filtradas de Instagram, e pedindo pro médico fazer plástica nela pra ficar igual à foto. Oi????
    Eu to achando muito difícil de acompanhar esse mundo. Já tenho alguns cabelos brancos na frente. Sei lá, devo estar velha então.
    Tati Regina, bora fazer nosso grupo (de WhatsApp) das senhorinhas do croché. 😛

    1. Kkkkkkkkkkkkkk
      Ao pé da letra? Pq eu não tenho dom pra trabalhos manuais. Dá pra mudar o tema pra receitas? Kkkkkkkkkkk

      Agora, sobre esse lance aí das plásticas… Não sei oq é pior… Se a pessoa querer ficar com a cara de outra pessoa/um boneco ou querer ficar com a aparência filtrada pra sempre… Acho que aqui dá pra fazer um link com o texto de hoje. Falta amor próprio. Infelizmente isso geralmente é um conflito natural que TD mundo passa. Mas com a venda da ideia da auto-imagem perfeita, pode ser difícil pra muitos lutar contra essa corrente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *