A fábula do valentão

Tenho certeza que muitos de vocês, são capazes de identificar aquela figura que fez parte de vários momentos importantes de suas vidas e que, quase sempre, foi responsável por memórias um tanto incômodas? Essa pessoa é tão constante, que já tem lugar cativo no inconsciente coletivo, como se fosse uma personagem de fábulas. Tá aí um bom exemplo para dar nome a esse texto: a fábula do valentão.

Nas ruas onde costumávamos brincar, dentre todas as crianças, havia sempre aquelas que se destacavam por algum talento. Mas nada chamava mais atenção do que aquela criança que despontava como liderança e que já exercia um certo fascínio sobre todas as outras. Este suposto líder se destacava, geralmente, por sua força, habilidades físicas ou por ser considerado mais bonito que os demais. Características que são superestimadas em todas as faixas etárias, mas que, na infância, se expressam em estado bruto, sem filtros e com requintes de crueldade.

Crianças que conseguiam uma legião de admiradores, que davam suporte a todas as suas decisões, inflando seu ego infantil e colocando-os no centro de seu universo. Isso nos ajuda a entender que, quando muito jovens, achamos que divergências devem ser resolvidas no braço, sem articulações ou ponderações. E, por conta disso, quantas vezes não testemunhamos o fim prematuro de uma brincadeira, simplesmente porque o dono da bola estava perdendo para outra criança mais fraca e menos popular que ele?

Esse é um clássico infantil e que, infelizmente, pode acompanhar algumas pessoas vida afora, caso não seja contido. Limites, respeito ao outro e educação são princípios importantes nesse momento. Ainda bem que a família e a escola entram nesse circuito para nos ensinar que não vivemos mais em cavernas, logo, as divergências devem ser resolvidas através do diálogo. Pelo menos, é o que esperamos…

Ao chegarem na adolescência, os valentões infantis transformam-se, quase sempre, em meninos e meninas populares, cheios de aptidões físicas e pouco apresso as questões do intelecto. Parece preconceito, mas é apenas a constatação de um fato. É nessa época onde as diferenças se acirram e permitem a criação de grupos, assustadoramente, heterogêneos. Os rapazes fortes e esportivos, as meninas mais gatas do colégio, os meninos que brincavam com meninas e vice-versa, os descolados, os nerds e por aí vai. Arranjos sociais que rompem os muros escolares e se espalham por todos os lados.

Mas, o que de fato importa aqui, é de que maneira conseguimos lidar com a figura do chefe da turma, da mais bela do grupo ou do mais popular da rua, sem sucumbir à dominação do outro, apenas por ser considerado inferior a ele? A resposta não é tão difícil como parece, basta usar algo que é inerente a todos nós – a inteligência.

Exaltar a dominação pela força e reprimir o diálogo inteligente, são reflexos sociais que resolvem aparecer de tempos em tempos. E esse fenômeno só é possível quando muitos decidem ignorar toda a forma de pensar que seja contrária à sua. Voltando a ser como aquelas crianças birrentas, que sempre acabam com a brincadeira, todas as vezes em que o resultado as desfavorecer. Um péssimo caminho a seguir quando o objetivo é resolver conflitos e não, cria-los.

À medida que crescemos, nos tornamos mais conscientes sobre as pessoas e as coisas que nos cercam, percebemos que, manter os valentões populares em seus lugares de destaque, é uma escolha nossa e não deles. Nos tornamos homens e mulheres feitos quando, enfim, constatamos que é a soma da inteligência, empatia e o respeito pelas diferenças, a grande força que carregamos conosco o tempo todo. Esse é o grande poder capaz de subverter a ordem estabelecida e transformar pessoas comuns e sem perspectiva, em criaturas fortes e, genuinamente, valentes.

2 pensamentos em “A fábula do valentão”

  1. Continuando na inspiração da Disney por conta do comentário da Luiza que acabei de ler… Me lembrei de Vida de Inseto. Amo esse filme! É de uma saca social muito boa. No final, o Flick (uma formiga tida pelos outros da colônia como atrapalhada, mas na verdade se revela revolucionária), personagem principal, enfrenta o Hopper (chefe dos gafanhotos). O Flick, depois de levar uma surra dos gafanhotos, se enche de coragem e diz pro Hopper que na verdade as formigas é que são fortes, já que elas conseguem pegar comida para elas e para os gafanhotos todos os anos, elas estão em maior número, elas não dependem de ninguém, são os gafanhotos que precisam das formigas mas os gafanhotos não deixam as formigas perceberem isso. Todas as formigas, que estavam morrendo de medo, se tocam do que o Flick está falando, percebem a verdade, se unem e colocam os gafanhotos pra correr. ISSO É APENAS GENIAAAAAALLLLLLLL!
    Quando é que a gente vai deixar de ser um bando de formigas assustadas e desarticuladas e perceber que nessa guerra de ideologias a gente continua carregando comida para os gafanhotos, eles ficam com a maioria, controlam nossas vidas e a gente acha que a vida é bela e está tudo em equilíbrio? Até quando essa palhaçada?

  2. Digo mais, Tati: quando é que deixaremos de ser formigas-zumbis?
    Adorei a comparação com o filme. Eu não sei se assisti. Se assisti, não lembro. Mas agora quero ver de novo 😊

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