Essa culpa eu não carrego

          Estamos diante de uma sequência de eventos que, de tão estranhos, beiram a insanidade. Eventos que acontecem em uma velocidade tão impressionante, que nos impede de acompanha-los com alguma clareza. Vivemos um momento de tanta estranheza, em que, até o nosso cotidiano perde, pouco a pouco, o próprio sentido. Isso nos leva ao perigoso caminho da isenção. E, uma vez que não temos mais a responsabilidade por nossas ações, sejam elas diretas ou não, passamos a usar com muita frequência, o jargão mais infame dos últimos tempos: Essa culpa eu não carrego!

         Esta é a grande muleta que utilizamos sempre que precisamos pular fora de uma questão. Não quero. Não sei. Não vi. Não fui… Assim, se nada tenho com o que quer que seja, me isento de tudo. Mas, até que ponto, podemos ficar à margem de decisões, sejam elas pessoais ou coletivas? É possível passar a vida sem se envolver? Sim e sim. Essa é a resposta de muitos e cada vez mais.

          O mundo está recheado de pequenas questões e de grandes polêmicas que caem em nossos colos muitas vezes ao dia, o que quase torna possível uma justificativa para a isenção nossa de cada dia. Quase. Sabemos que não é possível estar a par de tudo e, muito menos, interferir em todas as questões que nos cercam, mas, não há como fugir de todas o tempo todo. Afinal, o que nos constrói como sociedade é, definitivamente, a capacidade de fazer conexões e agir de acordo com o comportamento do outro.

         O que se vê agora é o oposto disso. Como se, de uma hora para outra, passássemos a negar todos os estímulos e provocações inerentes a qualquer relação, em prol de uma neutralidade repleta de um cinismo quase covarde. Sabemos que é possível ver a miséria e não se importar, assim como ver as vítimas da violência aumentarem progressivamente e, ainda assim, fazer de conta que nada disso é capaz de conquistar a nossa atenção.

     Não há, por trás destas palavras, a pretensão em ditar regras de comportamento sobre como cada um deve conduzir suas relações com a vida que os cerca. Mas servem de alerta para esse movimento coletivo onde tudo acontece, mas nada é da nossa conta. Relativizar a importância das coisas é uma bola de neve que começa com pequenas insensibilidades, que começam com um bom dia não respondido e um sono fingido no assento preferencial, e vão até a não aceitação da responsabilidade pela escolha de demônios como representantes do povo. Afinal, essa culpa, eu não carrego, não é mesmo?

         Meus amigos, não há como ser isento em um mundo feito de escolhas. Não há como ser isento em uma vida que implora por posicionamentos. Não há como ser isento nesta realidade sem ser cínico. Não há como ser isento quando se vive coletivamente. Não há como ser isento. Não há.

2 comentários em “Essa culpa eu não carrego”

  1. A lei de liberdade é uma lei natural que nos traz o livre arbítrio e com ele a consequência das nossas escolhas. Não há como fugir e não podemos alegar que ” essa culpa eu não carrego…” Simples assim!

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