É tão bom ter alguém

Não é bom estar sozinho. A vida é tão melhor quando temos alguém para dividir felicidades e tristezas. Busque alguém para passar os seus dias. Ficar só é sintoma de que algo vai mal. Tenha filhos para não se sentir solitário na velhice… Essas são algumas das máximas que são disparadas de forma indiscriminada, por uma patrulha de criaturas sempre prontas para apontar caminhos a seguir. Sem pensar nos efeitos colaterais de suas, ditas, boas intenções ou, ainda, se o outro está interessado em ouvi-las. O que achamos sobre isso? Pouco importa, afinal, é tão bom ter alguém.

Essas afirmativas que soam, ora como conselhos, ora como maldições, fazem com quem aprendamos a acreditar que estar só é uma espécie de castigo e, por isso, iniciamos uma busca incessante por parcerias que nos salvem deste triste destino. Como se o ideal de felicidade estivesse, visceralmente, ligado ao fato de estar conectado a alguém. E não é apenas isso. É necessário que essa ligação faça parte do ideal das parcerias românticas, onde só o amor é capaz de nos transformar em seres plenamente felizes.

Não se pode negar que partilhar nossos momentos é sempre algo prazeroso, reconfortante e necessário. Porém, estabelecer que isso só é possível, a partir do instante em que formos atingidos por flechas de cupidos desorientados, é de um romantismo que não corresponde a realidade. Dessa forma, cria-se, desde muito cedo, uma responsabilidade injusta, que estabelece que, se não for a dois e por amor, suas chances de alcançar a felicidade se aproximarão do zero. Deixando de lado, uma das coisas mais importantes para a vida de todos nós, que é, sem dúvidas, a capacidade de auto amar-se.

Essa dificuldade em perceber que não somos apenas uma casca e, sim, uma excelente companhia para nós mesmos, pode acarretar dificuldades em perceber quem somos e o que, de fato, nos agrada. Tudo isso por conta desta pressão irracional que nos diz que a nossa felicidade repousa sobre mãos desconhecidas e que, como num passe de mágica, surgirão a nossa frente, trazendo a solução para todos os problemas, uma vez que nada é capaz de superar a dádiva que é ter alguém para chamar de seu.

Com isso, deixamos de aprender como é fascinante sentir-se confortável quando vestimos a nossa própria pele e nos tornamos capazes de enxergar quem somos por inteiro. Algo tão simples de acontecer, não fosse a tirania social que impõe, seja de forma velada ou ostensiva, que é impossível ser feliz sozinho. É obvio que é maravilhoso compartilhar experiências onde há amor, mas esqueceram de nos contar que o amor assume várias formas, tem várias cores e muitas possibilidades. E por essas e outras, não seria justo eleger apenas o amor romântico como o passaporte para a felicidade.

Dizem que somos capazes de oferecer ao outro, apenas aquilo que trazemos conosco. Pode parecer clichê, mas é uma verdade. É difícil estabelecer afeto, quando depositamos no outro, a responsabilidade pela nossa felicidade. Precisamos parar diante do espelho e compreender que aquela pessoa que vemos refletida, tem o direito de se reconhecer inteira e amar-se incondicionalmente. Só assim será possível resistir a dura cobrança que nos diz as mesmas bobagens, todos os dias e de muitas formas, insistindo que para ser feliz é preciso ter alguém. Concordo, desde que sejamos nós os principais responsáveis pelo nosso próprio jeito de ser feliz.

13 comentários em “É tão bom ter alguém”

  1. Amei! Estou nesse exercício atualmente. Tentando não fazer tantas cobranças a mim mesma. Buscando me compreender e ter paciência comigo. Tudo a ver o texto de hoje com o meu momento!

    1. Acho que o tempo traz essa capacidade de se enxergar melhor e, por essa razão, passamos a nos querer bem de um jeito mais positivo.

  2. Elegante, coerente e extremamente necessário.

    E pra não ficar tão estranho eu comentando apenas uma frase, recomendo o filme Nasce Uma Estrela. Um filme lindo e impactante. Me surpreendeu por fugir do óbvio. Vários links com este texto que gostei bem muito (pra mim, um respiro em relação a densidade da última leva). Talvez o principal seja a possibilidade de se chegar a consequências extremas por levar em consideração palavras tóxicas proferidas pra atender a interesses alheios ridículos, também tóxicos. E isso pode ser extrapolado para vários setores da vida.

    1. É preciso ficar atendo para nunca deixar a ternura desaparecer e, principalmente, não deixar que isso desmanche o apreço que temos por nós mesmos.

  3. Que texto lindo!
    Diz tudo o que venho vivendo a algum tempo. Sempre somos ensinadas que só seremos verdadeiramente mulher quando encontrarmos a nossa cara metade, quando formos mãe, que nós podemos e devemos mudar o parceiro que escolhemos e etc.
    E esse texto vem dizendo a verdade, a gente tem que se amar primeiro. Como eu aprendi “do que adianta termos alguém pra nos amar se a gente mesmo não sabe como é esse sentimento, se a gente não sabe ficar bem com nós mesmo?”
    Justamente por a gente não se bastar pra gente mesmo acabamos aceitando qualquer coisa (Sentimentos tóxicos) como um verdadeiro amor. Só pra complementar eu digo: ” Não procure alguém que te complete, pois você já é completo, encontre alguém que esteja disposto a se transbordar junto com você.”

  4. Que texto maravilhoso. Saber ficar sozinho e aproveitar a si mesmo é uma virtude. Ter um par, filhos, amigos precisa ser visto pela sociedade como uma forma de somar a sua felicidade e não preencher a ausência dela. Quando você sabe se amar por completo, amando tudo, até mesmo as suas falhas, você começa a perceber que todos nós somos completos sozinhos e nosso amor por nós mesmos é pleno e sem necessidade de ser preenchido.

  5. Muito bom texto, tio Prof.
    E tb acredito que mesmo a pessoa mais desapegada tem seus dias. Seria muito bom se um dia conseguíssemos desconstruir essa necessidade de se depositar a expectativa da nossa felicidade em outro ser (amor romântico, filhos, amigos, familiares). Eis o problema do mundo, desde o início dos tempos até o dia em que o último humano morrer: expectativas!

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