É preciso ser outro para ser feliz?

            Ser livre ou agradar aos outros? Ser original ou buscar formas alheias para chamar de sua? Ser feliz do jeito que se é, ou viver para agradar? Outro diz, me peguei mudando de canal e comecei a ver as mesmas pessoas apresentando programas diferentes, em emissoras diferentes. Me dei conta de que estava admirando clones. Apresentadoras brancas, quase todas loiras, falando no mesmo tom, rindo das mesmas piadas e falando para o mesmo público. Apresentadores brancos, falastrões, voz impostada e uma gaiatice disfarçada de seriedade. E, daí me veio uma questão: é preciso ser outro para ser feliz?

            E, quando ampliamos o campo de visão, percebemos que essa repetição dos mesmos tipos se repete em muitos lugares. Basta uma celebridade cortar o cabelo, para que milhares de outros o façam também, mesmo que não lhes caia muito bem. Mudamos o nosso comportamento para que seja possível se aproximar dos trejeitos de estranhos, simplesmente porque são famosos ou ocupam um lugar de admiração. Aliás, admirar o outro assumiu, nos últimos tempos, um lugar de devoção. Não basta admirar alguém, é preciso ser igual a ele.

            É bom esclarecer que não há nada de errado em transformar um perfil em objeto de admiração. Mas, daí a tentar, a todo custo, transformar-se em outra pessoa para encontrar a felicidade, nos leva a crer que muitas pessoas não estão confortáveis sob suas próprias peles. O que é absolutamente contraditório, uma vez que vivemos em uma época onde nunca foi tão comum ser quem se é. Parece que, diante de tantas possibilidades, muitos deixaram de se auto admirar para enquadrarem-se em formatos, supostamente, mais interessantes.

            Muitas pessoas decidiram pautar suas vidas, a partir da existência do seu ídolo. Renunciando a uma felicidade autêntica, apenas para seguir padrões ditados por outros, como se a escolha por si mesmo, não fosse tão legal assim. A grama do vizinho sempre será mais verde. A boca quimicamente alterada, sempre será mais bonita. Os dentes encapados e absurdamente brancos, serão sempre mais perfeitos. Os corpos talhados na academia e em procedimentos estéticos, transformam-se em obsessões difíceis de entender. Em que momento deixamos de nos enxergar, para admirar, somente, a beleza que há no outro?

            O antídoto para esse mal é muito simples, apesar de não ser fácil. Olhar-se fixamente no espelho e contemplar aqueles traços que, num primeiro olhar podem parecer estranhos, mas que, em pouco tempo, voltam a ser uma imagem intimamente familiar. Admirar personalidades ou se encantar pelo jeito de agir de alguém é maravilhosamente normal, além de nos ajudar a tecer essa complexa trama que nos forma. Mas, diante destes perfis plenos de irrealidade, talvez seja a hora de começar a admirar aquela boa e velha imagem que se reflete, todos os dias, diante de nós. Sejamos nós, também, os exemplos de quem queremos ser.

4 comentários em “É preciso ser outro para ser feliz?”

  1. A felicidade, então, é (ou pode ser) mais simples do que comumente projetamos. Talvez, longe das muitas telas e mais perto de um espelho, nítido e afetuoso. Lá podemos experimentar essa dose nada homeopática de (querer) “se ver e estar feliz”.
    Repetindo a citação/inspiração, lembro de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido”

    Texto bonito

  2. Não. Não é preciso ser outro pra ser feliz. No entanto, quando não existe autoconhecimento, tudo fica muito vazio. É fácil cair na armadilha de que se pode ser outra pessoa e, portanto, muito melhor, mais bonita, mais esperta… Quase um avatar de si mesmo… É aí que se abre espaço pra infelicidade e problemas de auto estima. É como crer (especialmente em relação a mulheres) que só se pode ser feliz dentro de um relacionamento. Em ambas as situações é preciso olhar pra dentro primeiro. Se admirar no espelho não surte efeito a menos que haja um olhar mais profundo. Analisando minúcias, se abraçando, sorrindo de e para si mesmo, se auto declarando e elogiando. Ou fica aquele mais do mesmo de “nossa, quanta celulite, espinha, cicatriz, cabelo branco, ruga, etc.”

    Agora, é muito complicado simplificar demais sem relativizar certas coisas. A gente já começa a vida sendo comparados com os primos, irmãos, coleguinhas e até famiares que já partiram e nunca chegaremos a conhecer. Um bombardeio de comparações tanto físicas quanto de personalidade. Como semear a autenticidade dessa forma? Uns e outros mais rebeldes são chamados de petulantes desde cedo por não se adequarem a essa regra. Mas lá no fundo se deixam enlouquecer por não se encaixarem, não se acharem bons o suficiente.

    Essas dinâmicas psicológicas são muito loucas. Pq no fim ficamos nos procurando no outro e, não nos encontrando, tentamos nos transformar no outro.

  3. Não é preciso ser outro pra ser feliz. Aliás, apesar de não existir receita pra felicidade, essa certamente seria uma das receitas da infelicidade!
    Estamos tão preocupados em julgar as moças muçulmanas e a sociedade que coloca nelas uma burca e não olhamos pro nosso próprio umbigo, pra nossa burca tb. A nossa “burca” pelo corpo perfeito, não importa os riscos que isso pode impor a nossa saúde. A nossa “burca” por ser quem não somos, só pq dá mais likes nas redes sociais. E é difícil, sendo parte dessa sociedade doente, não se deixar levar às vezes por esses instintos. O absurdo passa a ser normal, e precisamos parar e questionar. Quem somos? Por que (ou quem) estou fazendo isso??

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