É permitido resistir

Resistência. Que sensação é essa que se estabelece em nós e que é capaz de nos forçar a seguir em frente, mesmo quando não temos forças para dar um passo sequer? Que sensação é essa que nos faz ignorar todas as adversidades, continuar caminhado e acreditando em mudanças, novas possibilidades e vitórias? Não sei dizer, mas uma coisa é certa, sempre será permitido resistir.

Resistir é, possivelmente, uma daquelas ações sobre as quais temos pouco ou nenhum controle, a partir do momento em que sucumbimos a ela. Sim, a resistência é tão arrebatadora quanto um tsunami que chega sem aviso e sem limites. E por uma razão muito simples. Resistir é o efeito colateral da insatisfação. Uma vez que conseguimos perceber que algo nos incomoda, reagimos. Com intensidades diferentes, é claro, mas é difícil se manter alheio a algo que nos perturba.

Seguindo as leis da física, toda ação gera uma reação contrária e na mesma intensidade… Porém, isso nem sempre se aplica ao nosso dia a dia. Amadurecemos e com isso, criamos uma certa tolerância as ações que sofremos ao longo da vida. Há aqueles que respondem prontamente a todo e qualquer sinal de incômodo e que não guardam desaforos para depois. Mas também existem os que não respondem prontamente e que guardam seus incômodos para outra hora. E  há, ainda, aqueles que simplesmente não reagem quando confrontados por algo que os desestabiliza. O que é uma pena…

A natureza nos forjou para reagir a tudo que nos cerca. Reagimos ao medo, ao prazer, a dor, a fome ou a sede. Mas a vida moderna nos bombardeia com uma quantidade tão grande de desafios, sufocando a todos de tal forma, que torna-se difícil estar pronto para a guerra o tempo todo. Dessa forma, vamos priorizando as batalhas que podem ser vencidas e acumulamos, sem perceber, espinhos que incomodam pouco inicialmente, mas que, com o tempo, tornam-se grandes fontes de dor.

É obvio que não é nada fácil reagir a tudo e a todo instante, mas não podemos abrir mão da nossa capacidade de reação. É ela que nos dá a real medida de onde podemos chegar. É ela que nos diz que não devemos desistir do que se quer, ao primeiro sinal de dificuldade. A resistência sempre abre novas passagens por caminhos bastante estreitos e difíceis. Mas vale o sacrifício, apesar dos contratempos.

Mesmo tendo a certeza de que na prática, resistir nem sempre é tão simples, é preciso estar disposto. Situações estabelecidas só podem ser mudadas a partir da nossa vontade, ou seja, para transformar, é preciso resistir. Mas, infelizmente, a nossa capacidade de reação vai se diluindo à medida que o tempo passa e nos torna mais tolerantes a toda sorte de incômodos. Criando uma razão inversa e proporcional onde, quanto maior a nossa tolerância, menor o nosso instinto de resistência.

Isso cria uma atmosfera de acomodação que impede a tomada de decisões que podem transformar os nossos rumos. E, para além disso, esta inércia cria uma casta de pessoas que perdem, progressivamente, a sua capacidade de escolha. Não expressar descontentamento com aquilo que nos lesa, nos torna cúmplices da nossa própria infelicidade. É bom ter em mente que, todas as vezes que nos calamos, outro irá falar por nós.

Resistência é algo que se constrói ao longo da vida, a partir das experiências que nos põem à prova, seja de forma coletiva ou particular. Resistir é um exercício que melhoramos com a prática. Por isso, todas as vezes em que for preciso escolher entre seu bem estar e algo que lhe incomoda, apenas para não se indispor, resista. A nossa capacidade de resistir é o que nos representa no mundo. A nossa capacidade de resistir é o que nos faz chegar mais longe. Sobreviver sempre foi e sempre será, um ato de resistência.

 

7 pensamentos em “É permitido resistir”

  1. Resistir sempre! Se indignar é importante!
    Mas deve-se estar preparado para a chuva de preguiçosos reclamando do seu “mimimi”, como chamam.
    E tudo bem… se a sua resistência é um incômodo para eles, que eles reajam à ela.
    Só não vale desistir 😉

  2. Parabéns! Texto leve e profundo ao mesmo tempo. Hj, não que nunca, precisamos sair do lugar de conforto e resistir.

  3. Concordo discordando (adoro essa minha habilidade kkkk).
    Há mais de uma forma de resistência. Em se tratando do ser humano, nada é muito estático. Raramente há só uma possibilidade. A pacividade é uma forma de resistir também e mostrar ao outro um novo caminho. Resistir pacificamente pode quebrar ciclos de agressividade de qualquer ordem. Ao passo que, “dar o troco na mesma moeda” pode gerar conflitos sem, necessariamente, impor resistência, gerando um momento infinito onde nada é resolvido.
    O legal nisso tudo é ter um bom poder de análise para agir de maneira adequada de acordo com o momento. Isso envolve outro aspecto que nos representa no mundo, a capacidade de adaptação.
    Outra questão a se pensar é: é realmente necessário resistir ou estou investindo energia e tempo num barco naufragado? Tem uma linha tênue aí entre a verdadeira resistência e a teimosia. Às vezes “dar a volta na folha” nos faz avistar de novo o caminho e tornamos a seguir em frente por sairmos do ciclo de estagnação imposto por algo ou alguém. Ao meu ver, essa também é uma forma de resistir, de mostrar que é possível vencer barreiras e crescer e ganhar respeito e um lugar ao sol, ainda que de uma forma pouco óbvia e particular.

  4. Alguns trechos desse texto eram tudo o que eu precisava ouvir pra hj! 🙂
    E mais uma vez, Tati Regina, mara!!!!!!

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