E no meio de tanta gente

Falar sobre solidão pode ser uma cilada que nos leva ao lugar comum onde, estar só, é estar abandonado. Longe disso. Solidão pode ser a dois, em grupo ou no meio da multidão. A sua presença não se mede pelo número de pessoas que temos a nossa volta e, sim, pelo quanto estamos disponíveis para elas e vice-versa.

Mas este não é um texto sobre solidão e, sim, sobre escolhas. Estar só ou acompanhado, é algo que escolhemos com base nas conexões que fazemos com os nossos universos particulares.

Ouvimos, desde que nascemos, conselhos sobre quem era boa ou má companhia, com base nos padrões da tradicional família e com as variações do mundo de tempos em tempos. Crescemos e continuamos a classificar as companhias, agora por nossa conta e risco. Tentamos criar o nosso próprio padrão de escolha, por mais que digamos que não.

Isso, muitas vezes, determina de que forma iremos disponibilizar nosso tempo e atenção entre aqueles que estarão perto de nós. Amigos, conhecidos, os indispensáveis ou nem tanto… O elenco será montado de acordo com o grau de importância que as pessoas terão e isso dirá por quanto tempo irão permanecer em nossas vidas.

A grande questão é o quão seletivo ficaremos a partir disso. Desenvolvemos filtros que variam em eficiência, o que significa dizer que, sem notar, escolhemos estar mais solitários ou mais soltos no meio de tanta gente. O que nem sempre será sinônimo de boas escolhas…

Reparem que não fazemos uma programação prévia que diz o momento em que estaremos circundados de atenção ou agradecendo por não ter recebido nenhuma ligação, combinando para sair. Este é um jogo onde, estar só ou acompanhado, depende da disponibilidade e o interesse de outros participantes. Logo, o controle sobre o fluxo de pessoas em nossas vidas está longe de ser unilateral.

Talvez, o culto à felicidade desmedida confunda um pouco a nossa percepção sobre quando é bom estar rodeado de amigos e quando os momentos solitários são para lá de preciosos. E assim, vamos criando molduras lindas que abrigam momentos de sorrisos ultra felizes, festas incríveis  e repletas de pessoas igualmente encantadoras. É isso que escolhemos mostrar, mesmo que ocorra esporadicamente. Mostrar-se em bandos animados tornou-se quase obrigatório.

É importante ter em mente que há uma dinâmica que rege as relações e que, ora estaremos mais felizes em grupo, ora seremos pessoas melhores se desfrutarmos da nossa própria companhia. Não há nada de mal nisso, ao contrário. O grande problema é que estamos caminhando a passos largos na direção de universos paralelos, onde a realidade e o mundo virtual não são equivalentes.

Como isso é possível? Simples. Decidimos demonstrar o brilho de nossa coletividade em plataformas virtuais, enquanto restringimos as nossas relações no mundo real e sem filtros.

Estar indisponível para novas experiências reduz as chances de estabelecer novas relações com infinitas possibilidades. E, dessa forma, não demonstramos ao outro que estamos prontos para começar um novo jogo. Ser incríveis e cheios de amigos nas telas frias é divertido, porém perigoso. Na vida, é preciso criar conexões. Ficar restrito a poucos e bons pode ser a escolha que nos fará andar de mãos dadas com a solidão.

 

2 pensamentos em “E no meio de tanta gente”

  1. Faltou lembrar das vezes que a gente se sente tão sozinho que parece que perdeu a conexão com a gente mesmo. Talvez esse seja o extremo do sentimento de solidão. Ou talvez seja outra coisa. Mas a verdade é que solidão é também um sentimento importante. Nos ensina muito!

  2. Vivi fatos que me tornaram indisponível e me interiorizei tanto que foi difícil voltar pro mundo. E ainda está sendo. Como vc disse, tudo depende de escolhas. Podemos escolher estar abertos a renovar relações, estabelecer novas ou mesmo desfazer ou enfraquecer as não muito agradáveis. Acima de tudo é preciso escolher estar presente e ativo nas que permanecerem. Ainda que seja consigo.

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