Doses diárias de empatia

Vivemos em tempos onde expressar opiniões pode ser perigoso. Não que haja, pelo menos não por ora, controle formal sobre o que se diz. Mas há, sem dúvidas, uma patrulha ao que se fala, como se fala e sobre quem falamos. É a batalha entre o EU versus ELES, onde cada um dá o peso máximo ao que pensa e o descrédito absoluto ao que o outro tem a dizer. São muitas vozes para poucos ouvidos. São muitos dedos apontados para o outro, porém, isentos de qualquer indício de autocrítica. É chegada a hora de entender que precisamos de doses diárias de empatia.

Pessoas dizem o que bem entendem e a todo instante. Isso jamais seria um problema, se as opiniões proferidas aos quatro ventos, fossem opiniões de fato e não repetições tortas de argumentos alheios, sem o menor compromisso com a verdade. Não seria exagero dizer que os tempos atuais, além de líquidos, estão se tornando perigosos para quem se dá ao trabalho de ouvir e refletir para, só então, falar.

Essa corrida por um pódio que premia aquele que fala, fala mas não tem nada a dizer, parece ter como objetivo principal, satisfazer uma incontrolável vontade de muitos em se fazer notar. Passar despercebido tornou-se o maior pecado do mundo dito moderno, onde as barreiras físicas não importam mais, onde o compromisso de ser alguém de carne e osso e responsável por suas posições, também não. Talvez isso ajude a entender essa fuidez nas relações. Fale, replique, aumente, invente o que quiser, mas jamais se comprometa. Esse parece ser a grande bandeira da atualidade.

Essa maluquice coletiva produz muitos efeitos colaterais. Mas um deles, em particular, tem sido responsável por grandes estragos nas relações: a intolerância. Hoje, se qualquer um de nós ousar expressar uma opinião, surgirá, quase imediatamente, alguém para desqualificar, muitas vezes de forma violenta, aquilo que foi dito.

Pela velocidade que se observa na virtualidade, fica patente que não houve tempo para, sequer, ler o conteúdo da mensagem. Entendê-la, muito menos. Logo, uma onda descontrolada de comentários desconexos, abafa a verdadeira intenção de uma opinião que nem ao menos foi assimilada. Com isso, desavenças se formam, amizades se partem e ódios se controem, por muito pouco ou por quase nada. Estamos nos encaminhando a passos largos para a insustentabilidade das relações. Infelizmente…

Essa postura geral tem promovido, quase sempre, uma polarização na forma de pensar e agir. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de ponderar. Nos comportamos como se estivéssemos em um ringue onde, de um lado, estamos nós, prontos pro combate e, do outro, está um adversário que pode ser qualquer um,  que esteja disposto a brigar por coisa nenhuma. Enquanto isso, negligenciamos questões valiosas e que realmente merecem ser defendidas. Este é, claramente, um mundo de prioridades invertidas.

Me parece que perdemos o atalho que leva ao caminho do meio, a rota do diálogo e a capacidade de discutir ideias. Se faço parte de um grupo, jamais poderei romper essas fronteiras irreais pois, uma vez que se escolhe um lado, não há mais chance de retorno. Isso, além de grotesco, é um sinal claro de alienação, que leva a exclusão em todos os níveis. É necessário ter urgência na mudança de olhar para o mundo. Caminhamos para a autoexclusão, onde o diferente deve ser descartado pelo simples fato de ser divergente. Esse modo de agir tem nome, passado, consequências e um final trágico. Isto se chama barbárie.

Entendo que nossa trajetória é cíclica e que, de tempos em tempos, recuperamos comportamentos antigos e questionáveis. Mas é preciso fazer uso das ferramentas sociais que criamos ao longo do tempo. É necessário aprender com erros passados para que não se tornem recorrentes. É urgente desenvolver a empatia e, assim, resgatar aquilo nos torna essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar.

2 pensamentos em “Doses diárias de empatia”

  1. Nossa, esse texto me lembrou muito uma palestra do Leandro Karnal que minha mãe me mandou outro dia. Com essa coisa sobre Lula ser preso, varias pessoas postando coisas totalmente opostas, exageros dos dois lados, quem é que ganha com isso, né? E qual é a posição mais inteligente a se tomar?
    O link é esse aqui, caso se interesse em assistir: https://youtu.be/FO3JVE4QgSI

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