A difícil arte da despedida

Que encontraremos muitas dificuldades pela vida afora, ninguém duvida, mas algumas são particularmente indigestas. É o caso das despedidas. Estas estão, certamente, no topo da lista, até por conta da sua natureza. Dizer adeus não é uma simples fala, é uma atitude que, dependendo da ocasião, pode ser algo difícil de entender e aceitar.

Não é fácil precisar quantas vezes nos vimos obrigados a dizer até logo, tchau ou adeus. Afinal, como é possível que algo que fazemos todos os dias, possa ser tão complicado? Simples. Despedidas são pessoais, intransferíveis e não dependem apenas do nosso consentimento. Dessa forma, seja para dizer ou ouvir os sinais de afastamento, sempre precisaremos da participação e da vontade de outros atores, talvez por isso seja tão complicado vivenciá-los.

Visto dessa forma, a despedida parece algo ruim e que sempre nos trará dor e sofrimento. Em alguns momentos sim, é verdade, mas sempre há um quê de renovação por trás de um simples até logo. Despedir-se dos amigos do trabalho após um dia exaustivo, pode significar um retorno feliz pra casa, uma ida ao cinema ou um encontro com amigos. Dizer tchau aos seus pais, depois de um bom domingo em família, nos permite retornar as nossas vidas particulares, repletos de amor e boas energias. Essas despedidas são quase uma forma de carinho, pois sabemos que são temporárias e que, todas as vezes em que for preciso dizer esse tipo de adeus, é porque voltaremos a viver aqueles bons momentos novamente.

Sair de casa, mudar de profissão, ver os filhos voando para fora do seu ninho ou terminar um relacionamento abusivo. Todas essas situações estão impregnadas de sentimentos como a saudade, rancor, amor, frustração e ansiedade. Despedir-se do que quer que seja, pressupõe um afastamento, o que irá provocar uma distância, maior ou menor, daquilo que estávamos tão acostumados a chamar de nosso.

Mas, dentre todas as formas de dizer adeus, nada supera a dificuldade que temos em aceitar as despedidas definitivas e inevitáveis. Aquelas em que nenhuma vontade é respeitada e nenhum desejo é levado em conta, pois elas irão acontecer independente do nosso querer e sem dar qualquer explicação. Deixando para trás uma estrada devastada por vazios preenchidos de silêncios e perguntas sem respostas…

Perder. Já repararam que as perdas, seja lá quais forem, são quase sempre precedidas por despedidas? Quando viajamos sem destino e sem data de retorno, significa que perderemos, por tempo indeterminado, aquilo que nos era garantido. Mas, nesta situação, houve a possibilidade de dizer até breve, mesmo que a despedida do que deixamos para trás, fosse definitiva. O grande problema é quando, por um capricho das circunstâncias, somos privados do direito de dizer adeus. É nesse ponto onde somos tomados pela impotência diante de coisas completamente fora do alcance na nossa compreensão. E isso incomoda.

Dizer adeus é como dar o último passo de dança ou pôr um ponto final de uma história. Quando isso não acontece, nos perdemos em passos aleatórios e textos desconectados que não nos levam a lugar algum. Então, apesar de todo o peso que algumas despedidas podem ter, é preciso dizer adeus para que novas etapas possam, enfim, começar. É difícil perceber quando, de uma hora para outra, aquilo que era nosso por direito, passa a ser algo deslocado e menos importante.

Nesses momentos, despedir-se é o melhor a ser feito. A sensação de posse pode, muitas vezes, mascarar a importância das coisas. Deixar para trás o que não precisamos, não significa que não sentiremos falta, mas sim, que é necessário buscar novos caminhos e experiências. Despedir-se é dizer adeus a ilusória sensação de pertencimento.

4 pensamentos em “A difícil arte da despedida”

  1. É, mas o momento seguinte é sempre incerto. Quando nos despedimos dos colegas de trabalho após um dia cheio, não há nada que garanta que vamos nos tornar a ver de novo. Quando dizemos tchau pra família ou um “até-o-próximo-fds”, quem disse, né?
    O amanhã é uma ilusão que nós precisamos pra continuar vivendo e fazendo planos! Mas seria bom se a gente lembrasse que não é certeza.

  2. Luiza Lessa, tu também arrasa nos comentário, mulher! Só acho melhor que “lembrar que não é certeza”, talvez fosse entender que não existe certeza ou incerteza e sim um fluxo natural e contínuo. Assim como a perda também me parece relativa. Por exemplo, não vejo a morte como um momento ruim ou um ponto final. Encaro como uma oportunidade de renovação que faz parte de um processo, de um caminhar…
    Às vezes é preciso deixar ir o que não quer ou não é para, supostamente, nos pertencer. Ainda que precisemos. Ainda que queiramos. Ainda que criemos uma falsa necessidade em nossa mente… Certas danças não dependem de nós ou da nossa música favorita pra acontecer. O distanciamento de ilusões e paradigmas permite que consigamos perceber isso tudo e ainda assim não atrapalhar o tal fluxo e ver a beleza dessa dança. Deixem ir o que precisa ir. Abram espaço para o novo. Sem culpe e sem pesar.
    Let’s dance!

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