Dedos apontados

            Já perceberam a quantidade de dedos apontados para todos nós o tempo todo? É como se vivêssemos em um mundo onde todos são juízes e, nós, os únicos culpados. Porém, o mais curioso disso é que, como quase tudo na vida, migramos de um lado para o outro dessa moeda com uma tranquilidade que vem sempre acompanhada de uma certa cara de pau. Apesar dessa ambiguidade, temos a nossa posição preferida nesse jogo e, certamente, não é aquela de onde enxergamos os dedos apontados para nós.

            Adoramos meter o dedo onde não somos chamados, adoramos. Por mais que muitos digam o contrário, somos enxeridos por natureza. E isso nem sempre é legal. O papel do acusador é o nosso preferido e isso não é à toa, afinal, dizer o que o outro deve fazer, sentir, pensar ou agir é muito confortável e nos dá uma deliciosa sensação de poder. Mesmo que isso não passe de uma tola ilusão. Ser curioso não é algo que nos torna malignos, ao contrário. O que seria de nós sem a curiosidade que nos presenteou com tantas maravilhas ao longo dos tempos?

            Não se trata de ser ou não curioso e, sim, o que fazemos da nossa curiosidade. Muitos preferem deixar de lado a delícia de uma descoberta boa, pela imaginação contaminada de suposições rasas. Chega um momento em que escolhemos, mesmo sem perceber, se queremos o caminho mais fácil ou o mais complexo, se queremos descobertas árduas ou se preferimos invenções convenientes. É bom ficar atento, pois, essa escolha, tem mais a ver conosco do que com o outro.

            Mas há um bom termômetro para perceber quando começamos a apurar demais o nosso julgamento raso – ter opinião formada sobre tudo e todos. É nesse instante que assumimos, permanentemente, o papel de julgadores sem culpa. Quem se leva a sério demais, não aceita a ideia do erro, logo, jamais poderá ser julgado. Muitas pessoas, seja por ingenuidade, circunstância ou desvio de caráter, aprendem que a melhor forma de não expor seus erros, é escancarar o erro do outro. Simples assim. Será?

            Não sei se há uma receita mágica que nos faça perceber que não é possível ser só pedra ou só vidraça. Seremos apontados, acusados e julgados muitas e muitas vezes. Algumas poucas com uma certa justiça, mas, na maioria das vezes, estaremos expostos a altíssimos níveis de maledicência e perversidade. Tudo certo, isso não é o fim do mundo, apesar de ser lamentável. Leva tempo para criar uma casca grossa que nos proteja destes dedos em riste voltados para nós.

           Mas, suportar tudo isso pode ser mais simples do que se imagina. Basta praticar um exercício relativamente simples: trocar os papéis. Se a posição do acusado injustiçado lhe incomodar, pense duas vezes se vale a pena se manter na pele do acusador leviano, afinal, nesta vida não podemos duvidar que a empatia pode nos salvar e que, assim como, jamais devemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. Sempre.

3 comentários em “Dedos apontados”

  1. Estou de saco cheio de tantos dedos apontados pra mim. Chega!!! Eu, hein? Gente de quem mais gosto, pessoas de quem tenho verdadeira estima, essas são as que mais me julgam e me reprovam. Saco cheio!!!!

  2. Um dos aspectos que mais amo aqui é essa escrita em terceira pessoa. “Katiau!” kkkkkkkkkkkkkkk

    Se a gente passasse a se preocupar e cuidar mais da nossa vida, das nossas demandas, sobraria menos tempo pra julgar o outro. Mas talvez essa mania venha de uma profunda e bem ocultada fragilidade. Inseguranças e incertezas fazem a gente traçar comparações o tempo inteiro. A grama do vizinho é sempre mais verde. Mas o vizinho da esquina tem uma grama maior e na rua de trás tem uma grama de outra cor… Como fazem isso? Pq a minha não fica dessa forma? E os devaneios começam daí… A gente compara os outros com outros e os outros com a gente. E ainda impõe a nossa paranoia comparativa na cabeça do coleguinha. E muitas vezes a gente nem queria ter grama nenhuma, na verdade. E talvez o vizinho nem goste da própria grama… Ou de repente é sintética e a gente nem percebeu pq a insegurança de talvez ser a pior grama da rua, mesmo sem querer grama nenhuma, é uma afronta.

    Mesmo quando esses dedos são reais, importar-se demais também é um indicador de fragilidade por inseguranças e incertezas. E todos os dedos somem quando a gente liga o foda-se. Eles até estão lá, mas a gente não vê.

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