Dane-se!

O mundo tem se tornado um lugar complicado, para dizer o mínimo. Quantos de nós está realmente interessado com o que se passa à nossa volta? Chegamos a um ponto onde nem as nossas próprias questões chamam a atenção como deveriam. Não estamos indiferentes as questões do outro apenas, nos tornamos negligentes conosco também. Saber mais sobre a dor e a delícia de ser quem somos, tornou-se algo trabalhoso demais. Logo, dane-se o seu problema, não dou conta de mim, imagina de você… Quem nunca ouviu ou pensou algo parecido?

Nestes momentos em que medimos tudo por uma régua muito rasa, ligamos um farol interno que aponta para todos os lados sinalizando, para quem puder enxergar, que estamos nos lixando para toda e qualquer situação que possa, minimamente, trazer algum desgaste. Estamos todos em modo avião. Mantemos os sinais vitais com energia suficiente apenas para seguir em frente e, qualquer coisa que fuja a isso, irá demandar um esforço adicional que não interessa a ninguém.

Apesar das semelhanças, não podemos confundir esse estado de desinteresse coletivo, com apatia. Não é. Estamos, deliberadamente, nos importando menos com o que interessa de fato. Seguimos criando realidades paralelas onde elegemos algo para chamar de nosso e que se dane o mundo. Essa seletividade leviana, cria bolsões recheados de desinteresse, que não exclui apenas os problemas alheios. Fazemos parte desse pacote esquisito na mesma medida.

Valorizamos bobagens e deixamos de olhar com mais cuidado para o que pode nos transformar, melhorar e evoluir. Ignoramos talentos naturais, deixamos de lado novas possibilidades, criamos aversão pela novidade… Por que? A resposta não é tão difícil. Por medo ou preguiça de ter que colocar a mão nessa massa heterogênea e difícil de moldar que, não por acaso, chamamos de vida. Mudar de rota é trabalhoso, e como trabalho é algo fora de questão, é melhor dar de ombros, fazer cara de nada e pensar – dane-se – isso não daria em nada mesmo…

A primeira Lei de Newton nunca fez tanto sentido como agora. Estamos divididos entre corpos que se mantém em movimento, seguindo sabe-se lá para onde, e criaturas que se mantém em um repouso assustador, sem sinais de alteração. O que não seria um problema, uma vez que alternar movimento e repouso faz parte do nosso desenvolvimento. Mas, pelo que tudo indica, resolvemos deixar de lado essa alternância. Fazer isso é assumir que, não importa o que aconteça, movimentos aleatórios ou repousos irresponsáveis permanecerão inalterados. Em que momento perdemos a capacidade de reação?

A única escolha que me parece clara neste momento, é a decisão coletiva pela omissão. Não quero saber! Problema seu! Isso não me afeta! Foda-se! Dê seu jeito! Faça de novo! Dane-se… Não importa qual é a expressão utilizada e, sim, o que ela significa. Pensar no próprio umbigo o tempo todo, exclui a beleza da partilha e a importância da coletividade. E isso pode ser um caminho sem volta…

É bom ficar atento, pois, não se interessar pelo o que acontece a um semelhante, pode desenvolver uma insensibilidade crônica, um descompromisso leviano e um cinismo insuportável que deixam uma mensagem muito clara: toda forma de indiferença que aplicamos ao outro, será devidamente retribuída na mesma velha e conhecida moeda.

6 pensamentos em “Dane-se!”

    1. O jeito é seguir em frente e estar preparado para lidar com um universo de possibilidades que habita em si mesmo. Sacudir a própria poeria para ver o que está escondido ali debaixo, é um desafio dos mais dignos.

  1. Finalmente, aproveitando o trânsito, consegui vir aqui sem me acabar de chorar. Pq desde domingo é só o que tenho feito se racionalizar demais dentro dessa temática. A indignação e o ranço vêm primeiro. Depois, meio atrasadas, como eu, chegam as lágrimas. Nunca pensei passar por um momento como esse. E ao mesmo tempo que me assusta, me choca e me devasta.
    A minha ideia primeira era voltar aqui quando eu estivesse bem o suficiente para inundar esse post com positividade, esperança e boas energias. Perdão. Falhei (e elas já querem chegar de novo…).
    Desde domingo meu pensamento é invadido a todo instante com coisas correlatas. Uma lembrança de uma discussão, uma situação absurda que chega a mim, um comportamento doentio… É inevitável. Lamentável. E comentar a respeito me é difícil pq minhas ideias tão só “um móbile solto no furacão”.
    Ainda assim, vou deixar aqui um pedaço do que escrevi para meus primos e sobrinhos num grupo no WhatsApp. Na conversa, domingo, oq me machucou profundamente foi a falta de coletividade que infelizmente não está lá fora. Está inserida em todos os espaços e agora se revela um monstro social e moral que nem sei como fazer para combater… Diante de todo esse cenário, essa falta de coletividade “…me fere como mulher. Me fere como mulher negra! Me fere como brasileira negra iniciando carreira como educadora. Me fere ainda como negra, feminista e umbandista. Além disso, fere os meus antepassados e toda a história de luta à base de sangue e suor por direitos mínimos e óbvios como liberdade e respeito. Espero de verdade que vcs estejam certos e que nós estejamos cegos. Espero de verdade que os tempos de pseudomelhorias não sejam às custas novamente de sangue, suor e lágrimas. E se assim for, espero que todos nós estejamos muito bem protegidos por nossos Anjos de Guarda.”
    Além disso, também me sinto ferida como ser humano. Por toda essa falta de bom senso, falta de amor ao próximo, falta de coerência, falta de tolerância… Falta de amor próprio também, se conhecimento das próprias origens, das histórias da própria família…
    Oq tem me mantido esperançosa é ver que estou cercada de pessoas as quais compartilham da mesma linha de raciocínio que eu. E fim, ou acabo chorando em público de novo.

  2. Tati Regina, queria ter lido isso antes de ter saído do meu grupo dos parentes no WhatsApp. Não soube me expressar dessa maneira tão bonita, nem um pouco agressiva, crua… até tentei usar o amor e a razão. Mas nenhum dos dois funcionou. Antes que o deboche e a raiva me consumissem e me fizessem ter atitudes que fossem somente tão rasas e inconsequentes como as dos parentes-zumbis, resolvi apenas sair do grupo. Dói mesmo ver que tanta gente está tomando decisões tão importantes se uma forma tão leviana, e revelando um lado tão sombrio em pessoas que construímos laços e lembranças tão bonitas. Que conflito! Te dou a mão, amiga mulher brasileira. Não posso sentir a sua dor como negra, mas me entristece saber que vc a sinta, e que tantas outras sentem, e que meninas negras que estão chegando a esse mundo hj vão sentir tb, pq estamos destruindo qualquer progresso.
    Como nos ensinou aquele belo filme “Divertida Mente”, a dor traz uma união que nenhum outro sentimento é capaz. E talvez essa seja a “linha prateada dessa nuvem carregada” (em inglês existe um ditado lindo: every cloud has a silver lining).

    1. Que lindo Luiza! Muito obrigada pelas palavras que confortaram meu coração. É dessa compaixão e solidariedade que nossa sociedade precisa. Escrevi outro dia pra irmã de uma amiga minha, também chocada com tudo que vem acontecendo… É muito estranho que sejamos conhecidos como “povo hospitaleiro” se não usamos esse mecanismo social para nós mesmos. E nesse momento, sendo bem racional, tô até achando bom, agora. As máscaras caem. O circo se desarma. Tudo está às claras. Ao menos pra quem tem olhos pra ver…
      Não precisei sair do grupo. Depois do meu texto completo lá, quase ninguém se manifestou. Ficou um clima meio estranho por uns dias, mas como tem muitas crianças na família, as fotos e os vídeos dos pequenos amenizaram os ânimos e não falamos tão abertamente a respeito. Mas achei muito importante naquele dia, já que houve uma manifestação geral, eu me posicionar também. Pode ser que eu não mude a opinião de ninguém, mas eu precisava daquele desabafo… Talvez mais cedo ou mais tarde funcione como um gatilho pra reflexões.

  3. Vc disse tudo, Tati. As máscaras estão caindo e estamos vendo (com muita decepção) quem é quem.
    E a máscara de povo hospitaleiro tb cai. É hospitaleiro se vc tem cabelo naturalmente loiro e olhos azuis. Se tiver um sotaque então, melhor ainda. Agora vai ter pele mais escura, vai, pra vc ver quem é hospitaleiro!

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