Crises particulares

Muito se fala sobre crises, de todos os tipos e proporções. Sejam elas em relações de trabalho, amor ou políticas, mas independente da situação em si, o que chama a atenção é a sua origem e não o seu efeito. Qual é a origem de uma crise? É uma pergunta desafiadora, uma vez que nos impõe uma análise sobre os reflexos de decisões tomadas no passado e isto é bem difícil. Mas, dentre tantas opções, é melhor escolher apenas um motivo que seja responsável por alterar a maioria das pessoas, a crise provocada pelo avanço do tempo… Um clássico!

Para cada fase da vida, uma crise. Talvez a grande questão desse tema esteja relacionada com a forma de absorver o que se passa a nossa volta. Já repararam que, quase todo mundo costuma classificar a própria juventude como a melhor época de suas vidas? Ou ainda, que as crianças de hoje jamais saberão como a vida era boa em outros tempos… Será verdade ou puro romantismo? Uma coisa é certa, esse ponto de vista será repetido por muitas e muitas gerações.

Se atribuirmos velocidades às diferentes fases da vida, talvez seja mais fácil  entender algumas certezas. Na infância e adolescência pegamos carona em um jato supersônico, uma vez que a quantidade de coisas para ver, sentir, descobrir e aprender é tão descomunal que não há como registrar tudo. Isso explica, em parte, nossas memórias um tanto borradas e confusas desse período. Tínhamos muito a fazer em pouquíssimo tempo, o que nos forçou a filtrar, de alguma forma, as experiências que deram certo e que no presente, são usadas para justificar o quão fomos únicos e especiais no passado.

À medida que envelhecemos, conseguimos desacelerar um pouco. O que nos permite interagir com o mundo de forma mais organizada, mas ainda assim, temos muita coisa a fazer. Muito para amar, chorar, beber, sorrir e conquistar… Só que o tempo continua em seu ritmo acelerado, nos obrigando a fazer escolhas difíceis que, muitas vezes, provocam consequências por décadas.

Porém, chega a um ponto da nossa trajetória em que fazemos as pazes com o tempo e, enfim, conseguimos ver as coisas como elas realmente são. Enxergamos nossas vidas em alta definição, com imagens que expõem detalhes até então invisíveis. E é neste ponto que percebemos como nossas decisões pregressas, conscientes ou não, foram fundamentais na nossa construção pessoal.

Talvez isso aconteça aos 30, 40, 50 anos… tanto faz. O que realmente importa é perceber o momento em que nos tornamos capazes de contemplar a vida em suas cores reais, sem distorções. Isso, certamente, traz algum desconforto. Obrigando que um novo movimento seja feito na busca por novas escolhas, provavelmente mais serenas, que irão ditar as próximas etapas da nossa jornada.

Esta é a hora em que colocamos em xeque tudo aquilo que fizemos. Se o preço pago foi justo, se queremos continuar trilhando a mesma estrada ou não… Perceberam como estas questões são incômodas? Acho que isso nos ajuda a entender o que chamamos de crise, seja ela existencial, de meia idade ou outra qualquer. Crise ensina que lugar comum ou zona de conforto não são eternos. Crise nos permite revirar nossos baús até encontrar peças de reposição que acumulamos ao longo do tempo, sem perceber.

Explorar a nossa capacidade de renovação nos possibilita encontrar saídas onde antes existiam muros de pedra e resgatar velhos sonhos abandonados pela estrada. Por esse motivo, a necessidade de renascimento talvez seja a melhor resposta quando nos perguntarmos qual é a origem de nossas crises. Dessa forma teremos sempre a certeza que, em algum momento, seremos sempre capazes de seguir em frente, mesmo sem saber aonde ir.

6 pensamentos em “Crises particulares”

  1. Excelente texto! Crise é ruim, é zona de esforço total. Mas quem é que aprende, evolui ou muda em zona de conforto? Zona de conforto é maravilhoso, mas não nos permite conhecermos nosso potencial.

  2. Muito bom! O que seríamos sem crise? Sem insatisfações? Provavelmente estagnaríamos. O poder da transformação surge com o inconformismo…não aquele infantil, mas o que cresce com a maturidade.

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