Cortinas de fumaça

O que não querem que vejamos? O que está por trás daquilo que é dito apenas para confundir? Nos fazemos estas perguntas o tempo todo, o que é um claro sinal de que sofremos tentativas de engano tão frequentes, que já incorporamos ao nosso dia a dia a ideia de termos um algoz a nossa espreita. Criaturas prontas para criar cortinas de fumaça que desviam a nossa atenção para o que de fato importa. Um truque quase perfeito. Quase…

O que ouvimos hoje, de pessoas que jamais deveriam prestar desserviços sociais, não nasceu agora. Aprendemos desde muito cedo a ludibriar a verdade, transformando caminhos retos, em curvas confusas que irão, supostamente, suavizar a caminhada. Com essa primeira lição, fica claro que a verdade é algo direto, duro e, por vezes, doloroso demais para encarar. Talvez isso explique a nossa predileção por mentirinhas suaves, utilizadas sempre que for preciso amortecer o peso da verdade.

Entramos em contato com um mundo encoberto por uma névoa densa ainda na infância. Sob o pretexto de desviar dos olhares infantis, tudo aquilo que acreditamos ser mal e, dessa forma, assegurar a pureza das crianças. Exemplos clássicos podem ajudar a entender isso. Quando arrumamos nossos filhos, criando neles a esperança de um passeio agradável quando, na verdade, é uma dolorosa vacina que os espera. Ou, quando juramos a eles que compraremos aquele brinquedo na volta. Isso, sem falar dos medos que plantamos em seus corações, com o pretexto de protege-los das maldades do mundo. Desvios de atenção nascidos na boa fé, que podem se transformar em grandes armadilhas.

Por que a verdade é tão temida, a ponto de criarmos tantas artimanhas para alterar a sua verdadeira forma? Podemos fingir que não, mas, lá no fundo, todos sabemos a resposta. Fomos criados sob a ilusão de que caminhos tortuosos, apesar de longos e confusos, trazem algum conforto. Já, a verdade, só conhece retas duras, que não se dobram a nossa vontade. Talvez por isso seja atribuída a ela, adjetivos que rimam mais com dor do que com amor. Afinal, algo nu e cru, com pernas curtas e que provoca dor quando se apresenta, não deve ser uma coisa tão boa assim…

E, com base neste julgamento para lá de equivocado, nos habituamos a confundir verdades incontestáveis com mentiras sinceras. Criando, assim, um híbrido entre o certo e o errado que se fortalece continuamente, até tornar-se um só. É neste ponto onde névoas suaves transformam-se em densas cortinas de fumaça que tem como missão principal, fazer com que acreditemos nas distorções que mostram partes de um todo, mas, jamais, a imagem original. Atenção redobrada, pois, a negação da verdade, seja intencional ou não, nos leva a criar atalhos que, ao invés de facilitar trajetórias, nos empurram, de forma irreversível, para abismos repletos de mentiras.

3 comentários em “Cortinas de fumaça”

  1. É muito bizarra a dinâmica do sistema… Pq de fato cria uns hábitos bobos e pontuais a princípio mas com repercussões a médio e longo prazo bem catastróficas. Cria mecanismos mentais e associações deturpadas na infância difíceis de serem refeitas anos depois. O show de ilusionismo já começa aí. Na verdade, vai se perpetuando a partir daí. O início disso é muito mais antigo que irrisórios anos de infância.

    Porém, hoje vejo um cenário paralelo muito contrário a isso tudo e que me motiva a crer que esse circo de horrores está com os dias contados. Como já disse num outro momento, hoje os marcadores da sombra estão expondo tudo aquilo que tinha o costume de se esconder nessa fumaça. Em verdade, atualmente, a fumaça tem exposto mais que camuflado. Sei que é um processo lento a reciclagem social, política e moral. Mas isso já começou.

    Não se engane com outro falso discurso feito para desmotivar e desarticular quem consegue ver além da fumaça. Acreditar do retrocesso é assumir passivamente exatamente aquilo que recriminamos e lutamos diariamente contra. A cortina de fumaça hj age como a corda que se dá àqueles que caem em seu próprio jogo sórdido de mentiras para eles mesmo se enforcarem. Os palhaços estão aí agonizando no centro do picadeiro e só tem uma meia dúzia de expectadores descontentes e arrependidos na platéia. O restante abandonou o “espetáculo” há horas. O fato de não baixarmos mais a cabeça pra regras idiotas é prova disso. Os movimentos coletivos são prova disso. Consciências empoderadas e críticas são prova disso. Reciclagem em andamento…

    Mais uma vez deixo aqui a referência de Vida de Inseto. Condiz totalmente com a nossa realidade política e social! Uma massa de formigas controladas por uma gangue de gafanhotos em troca de uma pseudo segurança. Até que essas formigas se tocam que não é bem assim que as coisas funcionam. Quem já viu, veja de novo com olhar crítico! Atenção aos detalhes e mensagens subliminares e outras bem diretas! Assistam mil vezes, é maravilhoso!

  2. Eu confesso que, lendo esse texto duas semanas depois que ele foi publicado, estou meio perdida na motivação que levou a escrevê-lo. Se é que foi algo público.
    Mas tirando esse texto de algum conceito específico, me fez lembrar um podcast que eu estava ouvindo hj de manhã, que falava que não existem duas pessoas no mundo com a mesma versão da realidade. Não adianta. Todos enxergam diferente, e tem tudo a ver com experiências passadas, momento, e tal. Quantas vezes vemos alguém contando uma história totalmente não verdadeira, de um acontecimento que presenciamos, sendo que a pessoa realmente acredita naquilo. Sei lá que espécie de truques nosso cérebro faz.

    1. Por outras vias essa informação também chegou até mim, mas em outras palavras… “7 bilhões de pessoas no mundo… 7 bilhões de verdades”. Me fez muito sentido na época e vem fazendo cada vez mais. Talvez por isso eu tenha tanta preguiça de certos debates… Ninguém muda a verdade de ninguém… No máximo podemos servir de gatilhos para reflexões posteriores.

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