Correspondências do amor – Parte I

Todo mundo já amou e também foi amado em alguma medida. Sei que não há novidade alguma nisso, mas, então, porque algo tão corriqueiro, transformou-se na mais cobiçada das sensações? Meu palpite é que o amor tem o boca a boca, literal ou não, como seu maior trunfo de marketing. Um poderoso canal de comunicação absolutamente livre para dizer o que quer, na intensidade que desejar. O que nos traz a certeza de que sempre haverá alguém dizendo ou recebendo declarações que formam as tão esperadas correspondências do amor.

Nenhum problema, não fosse a curiosidade que esse contato com o amor, desperta em dez entre dez mortais. Logo, para cada um que explode de amores, há uma horda de espectadores ansiosos para experimentar um pouco desse ópio. E, assim, uma rede imaginária vai ligando pessoas a partir da relação entre amar e ser amado. O que em novelas e contos de fada funciona muito bem, mas, na vida real, sabemos que ligar esses pontos invisíveis pode ser uma das tarefas mais difíceis da vida.

E é neste instante que percebemos que essa comunicação não é tão clara quanto imaginávamos. Ruídos aparecem aqui e ali, até que se transformam em estrondos que impedem que os versos repletos de amor, alcancem o seu destino final. Pessoas que amam, não conseguem fazer com que sua mensagem chegue a quem interessa, interrompendo, assim, o fluxo das correspondências amorosas. Qual é o resultado disso? A chegada de um velho conhecido de muitos de nós: O amor não correspondido.

Antes de falarmos desse visitante inesperado e culpa-lo por todas as nossas frustrações, é bom voltar algumas casas deste jogo. Amar é, antes de tudo, uma condição individual, por mais que seja estimulada por outros olhares. Escolhemos amar de forma unilateral. Negamos isso com todas as forças, mas basta parar para refletir por alguns segundos para constatar que o amor não se submete a força bruta. Ele só se estabelece dentro de nós quando o aceitamos, sem pressão ou imposições. O que quer dizer que, amores não têm parcerias pré-estabelecidas, como somos levados a crer. O amor é um nômade solitário que não depende do outro para existir. Agora, se for para ser devidamente desfrutado, o amor precisa, sim, ser compartilhado.

No meio do furacão, temos a certeza do amor que carregamos individualmente e o anseio por dividir esse sentimento com outro para que possamos, enfim, gritar para todos que o amor é a melhor coisa do mundo. Essa disputa é o que nos confunde, uma vez que perdemos a medida do que é real e passamos a vislumbrar cenários irreais onde todos os amores serão correspondidos. Fazendo nascer a ideia equivocada de que amor, só presta se for a dois. E assim, esquecemos que é a nossa capacidade de amar unilateralmente, o que nos permite dividir amor quando bem desejarmos para que, só então, possamos espalhar ruidosamente, toda a felicidade que só o amor nos proporciona.

O amor é um troca-troca onde, nem sempre, encontraremos as peças corretas. Sofremos com a ideia de amores sem correspondência, porque gostamos de acreditar que não existe felicidade na ausência do idealizado amor a dois. Talvez tenha sido esta a forma encontrada para culparmos outros, que não nós, pelos possíveis desencontros que teremos com o amor por aí afora. Amar nos dá a chance de seguir amando de forma plural. O que não significa que seremos correspondidos por quem quer que seja. A capacidade de amar é pessoal e intransferível. Já, o desejo de divulgar o amor como único, para quem quiser ouvir, é um mal coletivo. Compreender esta diferença, nos permite aceitar que amores não correspondidos não são vilões que nos farão sofrer e, sim, percalços normais em um caminho onde, nem sempre, será possível enxergar os correspondentes para o nosso amor.

                                            Continua…

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