Correspondências do amor – Parte II

Outro dia desses, falávamos sobre a nossa dificuldade em compreender que o amor é um sentimento caprichoso que, para existir, precisa apenas do nosso consentimento. Amar é uma capacidade que nasce conosco e cresce à medida em que o mundo se agiganta diante de nós. Ou não. De todo modo, o que estabelece a nossa capacidade de amar, é a forma como apresentamos esse sentimento aos que se aproximam de nós pela vida afora. E, vou além. Saber amar é, também, compreender que as correspondências do amor, não tem destinatários. Estão aí para serem lidas por quem desejar.

Para amar, basta querer. Sobre isso não há discordância, o problema nasce quando acreditamos que isso só é possível, no momento em que recebemos um sinal verde, de alguém que está na outra margem de um rio desconhecido. Ou seja, o amor que vive escondido em nós, a espera de um sinal luminoso que nos autoriza a compartilha-lo, sempre que o outro demonstrar alguma iniciativa… Reparem que essa é a regra que aprendemos, repetimos e ensinamos uns aos outros desde sempre, o que não significa que esteja correta. Enganos repetidos não transformam-se em certezas.

A vida segue e nós seguimos, aguardando pelo sinal verde do outro lado da linha. E, como crianças chegando em um parque de diversões, nos perdemos em meio a sinais com diferentes intensidades. O que acontece em seguida? Nos confundimos e escolhemos os sinais errados, claro. O que não é ruim, pois ajuda a criar uma palheta de cores de alerta, que pode fazer a diferença para quando a urgência nos dominar e nos fizer correr rápido demais e não perceber que, o sinal era, na verdade, para parar e não para seguir em frente…

E, nessa dúvida entre parar ou seguir, é que nos apegamos aos sinais errados e ignoramos que o saber amar vem de nós e não dos outros. Que amar é uma condição particular que decidimos dividir com alguém por escolha e não por desespero. Acreditar que a salvação está no amor do outro, nos obriga a entrar em formas fabricadas para outras medidas. Sei que é difícil perceber tudo isso, quando estamos engajados na busca pelo fantástico amor perfeito que não existe. Mas, não esquecer que o amar é algo que parte de nós para os outros, já evitaria um bocado de equívocos por aí.

O grande desafio de saber amar é que não há um caminho pavimentado previamente, que nos dê segurança para caminhar sem sobressaltos. E, todas as vezes em que vislumbramos o sinal que indica o amor da nossa vida, não importa quantas tenham sido as tentativas, seguiremos o mesmo padrão repleto de atitudes aleatórias, que irão nos conduzir por caminhos completamente diferentes daqueles que passamos muito tempo planejando. Falta de juízo, como dizem…  O amor é sobre isso também, não é?

Independente dos tropeços que essa corrida em busca do amor nos impõe, não se pode perder de vista que, como diz a música, o nosso amor a gente inventa. Deixar na mão de quem quer que seja, a escolha de como, quando e por quanto tempo iremos compartilhar a nossa capacidade de amar é, além de um erro, uma injustiça. Duvidar dos sinais talvez seja uma boa saída. Duvide das cores e aproveite cada uma delas. Algumas serão facilmente esquecidas, outras brilharão tão forte que irão provocar cegueira instantânea. Mas, no fim dessa montanha russa de cores e formas, seremos sim, capazes de perceber quando será o momento certo de dividir, para aumentar, a intensidade dos nossos luminosos sinais de amor.

2 pensamentos em “Correspondências do amor – Parte II”

  1. Olha, esse assunto eu acho tão complexo que não sei nem como comentar… só me parece não existir receita mesmo… e mesmo quando a intenção é boa as coisas podem descarrilhar…

  2. Acho que Você está falando sobre amor incondicional. Ao menos o meu entendimento dessa forma de amar cabe muito bem aqui. Porque é “apenas” amar. E as aspas aparecem aí pra deixar claro a real comexidade nisso. Não é fácil amar sem almejar reciprocidade. Também não é fácil amar de todo o coração deixando vazar pelo ladrão e inundar tudo a nossa volta. Nada fácil. É preciso retirar um monte de filtros pra lidar com isso. E não me refiro exclusivamente a amor de casal.

    O fantástico amor perfeito existe sim. Você está errado. O problema é: defina perfeito. Cada pessoa no mundo terá sua própria resposta. E nenhuma estará errada já que pra cada um essa é a sua verdade. É aí que começa a confusão. Por exemplo, depois de uns tapas na cara da vida, a perfeição do amor pra mim começa sendo leve. Com direito a pausas bipolares, normal, mas no geral, leve.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *