Colcha de retalhos

Das muitas perguntas que me faço o tempo todo, nenhuma consegue ser tão recorrente e incômoda quanto “Quem sou eu?” Pode parecer um tanto doido mas, tentar saber quem somos, ajuda a viver melhor não só com os outros mas com nós mesmos.

Mas por que essa pergunta é importante se temos tanto a fazer diariamente e não sobra tempo nem para lembrar qual foi a última refeição? É aí que está o “xis” da questão. Tudo passa tão rápido a nossa volta que percebemos muito pouco do que está diante dos nossos olhos. Estamos sempre seguindo em frente com tanta convicção de que o melhor ainda está por vir, que deixamos de sentir as marcas que o cotidiano nos imprime.

Saber o que melhor nos define é um desafio. Normalmente, temos um monte de respostas prontas sobre tudo e todos, mas quando se trata de apontar o dedo para a própria cara, a conversa muda de figura… Para buscar respostas que expliquem melhor quem somos é preciso se despir das várias camadas de pele que acumulamos ao longo da caminhada. E um bom começo para isso é mergulhar em uma viagem ao seu universo particular.

Nascemos em meio a um conflito familiar. Nossos pais, na árdua missão de nos educar, projetam suas expectativas sobre nós dando início, mesmo que sem querer, as muitas pessoas que seremos ao longo da vida.

À medida que crescemos, começa o bombardeio de influências. Do popstar do momento, àquela querida professora de português. Sem contar que, dependendo do amor da vez, podemos ser maratonistas, amantes de cinema iraniano, mochileiros sem destino ou obcecados por dietas sem glúten. Tudo bem! Novas experiências são sempre bem vindas.

É óbvio que uma resposta rasa não contempla a diversidade que nos forja, mas ajuda a elaborar mais e melhor uma opinião sobre quem fomos e sobre quem queremos ser. De cara, isso permite constatar que somos muitos em um só. E isso é ótimo!

A combinação entre nosso eu verdadeiro e quem gostaríamos de ser funciona, ao mesmo tempo, como partida e chegada. A nossa realidade, por vezes rígida e engessada, é sempre por onde começamos. É a partir dela que projetamos quem poderíamos ser, onde gostaríamos de estar…

E isso só é possível porque aprendemos desde muito cedo, que para sobreviver precisamos ser muitos. Alguns reais, outros nem tanto… Quem nunca, em um momento de dureza, se imaginou como o mais novo milionário da loteria e se pegou fazendo mil planos? Ou ainda, quem de nós, durante os encontros de família, ouvindo estórias da nossa velha infância nunca sentiu o coração pular de felicidade ao relembrar da criança que fomos? Maravilhosos momentos de encontro com quem fomos e com quem poderíamos ser.

E como estaremos daqui a 15 anos? Você pode perguntar em uma roda de amigos, mas para essa pergunta não há resposta, só possibilidades. Sabemos que há uma década tínhamos sonhos, um grupo de amigos, um gato ou um cachorro, freqüentávamos uma boate, ouvíamos o mesmo estilo musical e sempre batíamos ponto no mesmo boteco… E hoje? Onde estão nossos grandes amigos? O bar de sempre fechou 5 anos atrás. A boate virou um shopping e aquelas músicas que amávamos se tornaram os hits mais bregas da história. Parece triste? Mas não é! O tempo passou e nos transformou, só isso.

A única certeza é que daqui a 5, 10 ou 15 anos, seremos outros. Mais diversos e com novas estórias pra contar. Cheios de novas capas e camadas que vão vestir a nova pessoa que seremos, e ajudarão a trilhar novos caminhos, repletos de diferentes perfumes, sabores, sorrisos, cores e amores, adicionando mais detalhes a nossa linda e surpreendente colcha de retalhos.

7 pensamentos em “Colcha de retalhos”

  1. Atualmente busco me despir das camadas acumuladas. Acho que é pra dar espaço pra outras novas, desde que mais leves ..

  2. “Colcha de retalhos” me lembra a casa da minha vó materna e um trabalho que literalmente criei e proporcionei para alguns executivos… Pois é, boas lembranças.
    Essas são algumas das minhas facetas. Alguns “eus” que fazem de mim quem sou… E quem sou?
    Excelente pergunta, primo!!!!
    Viajei nas suas frases reflexivas e conclusivas.
    Delicioso o texto!

    1. Paulinha, minha prima irmã. Tenha a certeza que eu compartilho muitas dessas lembranças da casa dos nossos avós e esse caldeirão de memórias é a fonte que eu sempre busco pra transformar meus pensamentos em textos. Bjo!!

  3. Identificação total! Tenho revisitado, reconhecido e preenchido vários pedacinhos da minha colcha de retalhos nos últimos tempos, tentando desvendar esse misterioso “quem sou eu”. Por falar em colcha, já leu “A invenção das asas”? Me lembrei na hora lendo seum texto. Bjs e mto sucesso!

  4. Excelente reflexão! No meu caso, a pergunta “O que é que eu estou fazendo aqui?” é ainda mais incômoda rsrsrsrsrsrsrs

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