Chega de saudade?

Chega de saudade, já dizia a canção. Mas como seria a vida se não sentíssemos que algo nos falta? Difícil até imaginar uma situação como essa. Sentir falta é um hábito que nos acompanha desde sempre. Quando crianças, choramos se não desfrutamos o colo dos nossos pais demonstrando, de forma instintiva, que precisamos ter por perto aquilo que nos é caro.

À medida que crescemos, ampliamos a dimensão que temos do mundo e das pessoas que nos cercam. Quando percebemos os diferentes níveis de importância daquilo que temos a nossa volta, começamos a dar significado ao que era, até então, apenas uma ausência . O que antes era sentir falta, passa a ser considerado um dos sentimentos mais intensos, frequentes e interessantes que conhecemos: a saudade.

E, como toda sensação poderosa, podemos senti-la em diferentes intensidades. Ao contrário de outros sentimentos que começam brandos e ficam mais encorpados com o tempo, a saudade não se preocupa com ordens crescentes e pode ser sentida em sua plenitude, de forma quase imediata, basta que algo ou alguém preciosos sejam retirados de nós , sem aviso ou consentimento prévios.

A ausência pode assumir diversas dimensões, que podem durar o tempo de um pensamento ou se tornar uma companheira incômoda por anos a fio. Nesse caso, a ausência adquire uma personalidade muito particular, que varia de acordo com aquilo que nos falta.

Sentimos falta do que vimos poucas vezes, das brincadeiras de rua durante a infância, de amigos de adolescência que perdemos de vista e somos capazes, até, de sentir saudades de lugares e situações que nunca vivemos de fato. Somos preenchidos por saudades.

Muitos momentos são responsáveis por reacender memórias que aquecem o nosso peito, trazendo saudades que se assemelham à visitas queridas, mas que raramente recebemos. De todo modo, só sentimos falta daquilo que não temos mais ou do que nunca vivemos.

Saudade. A simples menção dessa palavra nos tranporta para muitas épocas e lugares, proporcionando encontros impossíveis ou improváveis. Reler uma carta ou sentir o perfume de alguém que não podemos ver mais, abre canais tão íntimos que, muitas vezes, preferimos mantê-los fechados e bem protegidos e, assim, preservar memórias inestimáveis.

Perdas podem provocar dor. Perdas podem promover saudade. Isso é inegável, porém, a saudade nem sempre significa dor e sofrimento, ao contrário. Sentir falta de casa, de alguém ou de algum lugar especial, causa sensações agradáveis que nos fazem pensar em como será único o momento em que, finalmente, iremos rever ou reencontrar a razão da nossa saudade.

Infelizmente, nem sempre é possível revisitar o que nos faz falta. À medida que o tempo passa e envelhecemos, somos apresentados à perdas permanentes e isso nos força  conviver com a dor em qualquer circunstância. E o que nos resta? Nada além de administrar essa saudade com paciência para que ela, um dia, se transforme em força.

Viver não é, de forma alguma, ter tudo o que se quer. Viver é um grande aprendizado que nos mostra o tempo todo que, só levamos da vida, aquilo que sentimos a partir de experiências diárias, boas ou ruins e, sentir falta, faz parte desse processo.

A saudade é a personificação da ausência. Talvez seja por isso que saudade tem forma, nome, endereço e é sentida em ondas com diferentes intensidades. Ela pode aparecer eventualmente ou ser presença frequente, tanto faz… Não importa quando a saudade nos visita e sim, de que maneira ela nos toca.

3 pensamentos em “Chega de saudade?”

  1. Ah, meu amigo. Seus textos são tão sensíveis. Esse me tocou mais profundamente, porque há uma saudade em mim que as vezes é força e as vezes é dor. E vc a explicou com muito cuidado. Lindo texto…. beijo

  2. Achei interessante vc ter escrito isso: “Somos preenchidos por saudades.”
    E ao mesmo tempo, qdo a saudade aperta, tudo o que sentimos é um imenso vazio.
    Esse texto me deu saudade de tanta coisa…

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