Batalha íntima

Hoje é um daqueles dias que entrará para os livros de história. E não estou falando apenas da eleição. Vinte e oito de outubro de dois mil e dezoito, o dia em que foi travada a batalha íntima que desnudou o que desde sempre era velado e escancarou a maldade como nunca visto antes. Discursos de ódio, atos de covardia, ameaças reais e virtuais, desprezo e indiferença por aqueles que têm menos.

Essa é uma afirmativa, claramente perigosa, uma vez que faz uma generalização irresponsável sobre tantas pessoas. Mas, de todo modo, o que se percebe é que, a despeito da bondade que mora em cada um, muitas máscaras de contenção foram arrancadas de pessoas que, felizmente, passaram a vida controlando o que havia de pior em seus corações. O que encaro como qualidade, já que, todos nós temos lados sombrios que devem ser, sim, mantidos sob controle.

A confusão mental que vivemos agora, vem da dificuldade de reconhecer as pessoas que sempre estiveram ao nosso lado. Será que esse cara foi sempre assim? Como não percebi antes? Essas são, possivelmente, as perguntas mais recorrentes que todos temos feito. Percebemos que a realidade nos impôs uma tarefa muito árdua onde, além de decidir qual é o melhor caminho a seguir coletivamente, somos obrigados a lidar com os inimigos íntimos que sempre estiveram ao nosso lado, mas que jamais notamos a sua presença.

Porém, uma dúvida se destaca nesse mar de incertezas. Qual foi o momento exato onde o ódio arrebentou as correntes e a intolerância se fez presente? Essa pergunta leva a uma triste constatação – não houve um momento exato, nós é que preferimos não enxergar. E não é porque somos levianos e, sim, porque fomos habituados a ver com naturalidade, gestos de exclusão disfarçados de piada. Atitudes odiosas que se protegiam atrás de sorrisos despretensiosos. O grande erro foi não acreditar que, em algum momento, o ódio não precisaria mais disfarçar a sua presença.

Se não é possível determinar, com exatidão, a partir de quando a intolerância passou a dominar as relações, é fácil perceber quando muitos resolveram revelar sua face oculta: No instante em que ganharam voz, no instante em que ganharam representatividade. Essa é uma receita simples. Basta que alguém propague ideias absurdas e abjetas com naturalidade e isenção, para começar a ganhar seguidores que sempre compartilharam dessas opiniões, mas não tinham coragem para expressar o seu ideal de exclusão particular. Agora encontraram.

O diálogo é, em sua origem, muito simples de entender e muito fácil de executar. Mas é, também, uma pedra no sapato de quem não tem o que dizer, por não ter argumentos. Dialogar virou sinônimo de fraqueza em tempos de certezas absolutas. Chamar para uma conversa provoca medo e desconfiança. Sentimentos que causam um desconforto que se transforma, facilmente, em contra-ataque carregado de irracionalidade.

Voltar ao tempo onde acreditávamos que éramos todos amigos cordiais e inofensivos, não é mais possível, uma vez que nos enxergamos sem filtros, máscaras ou disfarces. O que fazer agora? Não sei ao certo, mas essa turbulência nos coloca diante de um momento único. A partir de agora, poderemos construir novas relações sem o peso da falsidade e da dissimulação. Cada um mostra aquilo que é, independente se seu ódio tende a ser destro ou canhoto. Mostrar uma face sem truques nos dará a chance de fazer escolhas mais assertivas. É difícil afirmar se isso será bom ou ruim. A única certeza que temos nesse momento, é que não dá mais para fingir ser quem jamais fomos. Essa é a hora, diante de tanto desalento, de transformar a desconfiança em verdade.

Um comentário em “Batalha íntima”

  1. É como a Eliane Brum falou no texto dela dessa semana: ainda que o coiso não vença essas eleições, já perdemos muito…
    To tão triste que to sem animo até pra comentar 🙁

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *