A dor em ver o outro partir

A vida passa rápido demais. Sempre ouvimos isso, especialmente daqueles com mais tempo de estrada. Porém, o que temos percebido é que, a velocidade deixou de ser, há tempos, a responsável por encurtar vidas e impedir a realização de sonhos. Parece que o mundo adotou um giro tão alucinado, que pôs tudo de ponta a cabeça. Tirando do lugar, coisas que jamais poderiam ser movidas, como a dor em ver o outro partir.

Esse estado confuso, nos impõe uma realidade tão absurda quanto desumana, que nos empurra para a beira de um abismo de onde só é possível enxergar indiferença e dor. Não sei se é possível dizer o ponto exato onde adotamos a insensibilidade como bandeira. Só sei que nada, nada, se compara ao poder destruidor da falta de comprometimento com as necessidades do outro, sejam elas quais forem. A partir do momento em que nos tornamos imunes as dores alheias, nos transformamos, também, em vítimas da nossa própria indiferença. O que significa dizer que estamos todos à deriva, buscando por alguém que nos resgate desse mar de intolerância.

É difícil perceber os efeitos desse mal que aflige a todos, uma vez que ele não tem uma rotina definida. Pode ter muitos nomes, muitas formas e diferentes intensidades. O que se sabe, concretamente, é que, a falta de cuidado com o outro só precisa de uma única chance para tornar-se um hábito. Que começa discreto e faz com que deixemos de lado uma coisa aqui, outra ali, até que em um dado momento, passamos a ignorar praticamente tudo aquilo que, aparentemente, não é importante. É nesse ponto, em que nos tornamos peças de um jogo onde, sem exceção, todos os participantes saem perdendo.

Tornar-se indiferente a tudo que, aparentemente, não lhe afeta, abre portas para uma série de efeitos colaterais deletérios, como a intolerância, o medo, o ódio e o desprezo por seu semelhante. E, para aumentar ainda mais esse caldeirão, o cotidiano nos brinda, a cada instante, com cenas injustas e desumanas, que beiram a primitividade a barbárie. Cenas que nos agridem com tanta frequência que, impressionantemente, acabam relegadas a banalidade. Compartilhar a dor e ser afetado por ela, só é possível quando ainda somos capazes de senti-la.

Crianças se perdem. Jovens são dizimados. Enterram-se desejos. Famílias são destroçadas. Sociedades entram em colapso. Perdemos nossa humanidade. Renegamos a empatia. Negamos direitos. Usurpamos poderes. Matamos sonhos que ainda não nasceram. Morremos um pouco a cada dia.

Até quando ficaremos indiferentes a isso?… Até quando?

3 comentários em “A dor em ver o outro partir”

  1. Eu fiquei um pouco confusa com esse texto. Qdo li o título e o primeiro parágrafo, eu esperava o oposto.
    Talvez eu não tenha captado a mensagem. Eu esperava que é no momento em que vemos o outro parti que a gente para um pouco, é sacudido pela brevidade e vulnerabilidade da vida, e por algumas horas/dias, tem um olhar com maior compaixão e atenção para com os que nos rodeiam…

  2. Luiza, o texto trata de um grupo e vc se refere a outro. Vejo que estamos atualmente divididos, enquanto sociedade, entre esses dois grupos. Eu tento manter a minha positividade e esperança elevadas ao máximo pq acredito num propósito para todas as questões que estão emergindo… Na prática, vez ou outra me sinto profundamente triste e esgotada. Ainda que haja esse propósito, escolhas mais justas e iluminadas poderiam ser tomadas, mas não são… Meu olhar positivo sobrevive para não me deixar obscurecer e conseguir ajudar outros no mesmo processo. Minha esperança segue apostando que, apesar dos pesares, dias melhores estão próximos. Ainda que “próximo” não esteja necessariamente ligado as minhas expectativas de tempo. Enquanto humanidade já passamos por muita irracionalidade pra chegar agora e nossa evolução estagnar ou sucumbir… É simplesmente inadmissível!
    Positividade e esperança me mantêm atenta às maravilhas que estão por aí em paralelo com tanta coisa estranha.

  3. Esse texto é um pouco dolorido para mim que visto uma armadura para não poder me destruir emocionalmente toda vez que essas perdas acontecem. O ruim é que cria uma apatia muito grande e não gosto disso, e não faço isso por mal, faço isso por medo de alimentar a genética de depressão, ansiedade e suicídio da minha familia, afinal de contas genética a gente não escolhe né? São muitas perdas que no mundo a nossa volta, isso me faz querer andar com uma venda nos olhos, as vezes até mesmo com tampões de ouvidos porque as perdas também são noticiadas verbalmente. Enfim, não podemos ficar frios em relação as perdas alheias e nossas, mas não ter escolhas de ter uma pausa dessas perdas é ruim demais.

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