A nova arena dos leões

A História nos mostra que a escravização de seus pares e a exposição a riscos de vida para o entretenimento da massa, fazem parte do DNA da espécie humana. Povos diferentes, ao longo do tempo, apresentam fartos registros de desumanidade em que homens e mulheres foram utilizados como coisas para satisfazerem os piores desejos daqueles que deveriam ser seus iguais.
A dor de carne humana sendo dilacerada sempre despertou o sadismo e o horror. Arenas com animais e gladiadores, jogos medievais, campos de concentração, a escravização… são apenas poucos exemplos que ilustram muito bem o desejo coletivo, consciente ou não, em personificar juízes e executores. A simples possibilidade de estar no comando sobre quem vive e quem morre, confere a algumas pessoas a sensação de ocupar o lugar de uma divindade perversa que decide os rumos da existência alheia.
Modernamente, as arenas dos leões migraram para dentro para aparelhos de TV, mas continuam servindo aos mesmos propósitos: o entretenimento sádico da massa ávida pelo dilaceramento de seu igual.
A modernidade disfarça, cinicamente, a maneira com a qual seres humanos são degradados diante de nossos olhos. As arenas agora são chamadas de reality shows. Programas que alcançam milhões e que mobilizam a opinião de bilhões de pessoas via internet. Uma inacreditável audiência que escancara, em tempo real, uma nova forma de dilaceramento humano, pautado no abuso, na manipulação, na exposição e na destruição psicológica das pessoas. Tudo isso diante dos nossos olhos.
O tempo passa, conquistas científicas, políticas e sociais impactam positivamente as nossas vidas, porém, a humanidade não abre mão do sadismo que nos acompanha desde o nosso início. O prazer em decidir sobre o sofrimento do outro mudou, tornou-se legal e hoje entra em nossas casas através de programas transmitidos pela TV aberta, em horário nobre e atende pelo nome de entretenimento.
Críticas à parte, as arenas modernas, impulsionadas pela internet, criam uma plateia monumental, repleta de inquisidores e carrascos que substituíram as cordas e espadas, por smartphones e redes sociais que sentenciam seus pares com a mesma crueldade e a uma velocidade espantosa.
Sentenças que agora são as principais ferramentas de um fenômeno nascido nas redes: a cultura do cancelamento.
Independente do período histórico, a humanidade segue com seu voyeurismo indecente e sádico, apesar de toda a evolução que tivemos como sociedade.
É realmente necessário seguir consumindo esses espetáculos de horror? É realmente necessário observar esses laboratórios humanos roteirizados e editados para saciarem o sadismo coletivo?
É preciso reconhecer que a dor do outro em horário nobre não é entretenimento, é dor, é tristeza, é tortura.

Marco Rocha.