Influências à parte

            Quem disser que nunca foi influenciado por alguém, em algum momento da vida, deve fazer um exame rápido de consciência. Esse fenômeno é tão poderoso que, mesmo quando não percebemos, lá estamos nós seguindo, assistindo, comentando e replicando informações que nos foram passadas por aqueles que falam com as massas. Sim, fazemos parte dessa multidão ávida por saber mais sobre o que fulano acha, veste ou diz. Influências à parte, o que queremos mesmo é um influenciador para chamar de nosso.

            Mas, o que é intrigante de fato, não é somente a forma como moldamos a nossa maneira de ver o mundo e, sim, quem conduz a construção desse olhar. Se pensarmos em personalidades que fazem ou fizeram a diferença na nossa forma de interagir com a realidade, não daremos conta do número de nomes dessa lista. O que significa dizer que, apesar das discordâncias, passamos pelas mãos de muitos influenciadores vida afora.

            Não acredita? Então faça uma busca em suas fotos e memórias. Lá você irá encontrar várias referências, que vão desde a sua forma de vestir, até as suas músicas preferidas. É curioso perceber que, independente da época, continuamos sendo como telas prontas para receberem tintas com diferentes nuances e que são capazes de criar formas que podem ser alteradas o tempo todo. Renovando, com frequência, a forma como nos mostramos ao mundo.

            Uma vez que, as influências são nossas parceiras constantes desde que esse mundo é mundo, por qual razão passamos a reclamar da influência daqueles quem nos influenciam? Resposta nada fácil. As coisas mudaram e ressignificaram o poder dos influenciadores. Os livros, os líderes políticos ou religiosos, o rádio, o cinema, a televisão, a internet… Todos são responsáveis por escreverem a história e o comportamento. O que nos leva a crer que não seríamos quem somos, não fosse a forma como somos influenciados através dos tempos.

        Mas, é claro que, apesar do apelo, é necessário que exista um filtro individual que nos diga até onde podemos ser influenciados, sem que nos tornemos rascunhos mal feitos de influenciadores. A internet renomeou os ídolos. Muitos são conhecidos nos dias de hoje como blogueiros ou digital influencers… Mais do mesmo. De fato, continuamos a mirar figuras populares em seus nichos e que continuam sendo capazes de reunir milhões de fãs, que agora chamamos de seguidores.

      As mídias sociais acolheram esses influenciadores modernos, que seguem nos entretendo, passando a falsa impressão de que ali, tudo é assombrosamente espontâneo. Não, não é. E tudo bem se continuarmos a seguir as nossas deliciosas ilusões, desde que jamais nos esqueçamos que, apesar das influências, somos responsáveis pela manutenção da nossa preciosa originalidade.

O horror se faz presente

O horror está no ar e não se sente envergonhado de se fazer presente. Para onde quer que olhemos, lá está ele, dando as caras. Vivemos, há meses, sem conhecer um dia sequer, com as bençãos da paz. É como se estivéssemos obrigados a renunciar ao básico necessário para viver. Aquilo que acreditamos ser fundamental e que costumávamos chamar de amor. A frequência com que somos golpeados, cotidianamente, por toda sorte de maldades e absurdos é tão grande, que nos anestesia tão intensamente, que não conseguimos mais diferenciar a impotência, da apatia.

As informações sobre esse mundo bizarro, chegam em tempo real, carregadas de um desassossego que não nos permite tomar fôlego. Estamos, há tempos, soterrados por péssimas notícias que, é claro, não gostaríamos de ver ou ouvir. Mas, vivemos em um tempo onde a informação, por mais dolorosa que seja, é necessária. Nunca foi tão importante sabermos o tamanho do buraco onde fomos colocados. Nunca foi tão urgente conhecermos aquilo que nos fragiliza. Nunca foi tão necessário identificar quem nos faz mal, para que, enfim, sejamos capazes de reagir contra esse mal que teima em nos dominar.

É como se o pesadelo provocado por uma pandemia, não fosse suficientemente doloroso e, a ele, fossem agregados novos elementos igualmente terríveis. O que acaba por criar uma fonte interminável de dor e desespero. O que, talvez, cause mais espanto em toda essa situação inominável, é a nossa incapacidade de lidar com ela. Não fazemos a menor ideia de quando ou como esse horror, e seus efeitos colaterais, chegarão ao fim. Caminhamos um dia após o outro, de olhos vendados sem saber muito bem para onde ir e, muito menos, como chegaremos lá.

É bem difícil pensar em mensagens otimistas que possam suavizar essa escrita. Na verdade, não é difícil, é impossível criar mensagens repletas de uma felicidade fluida e falsa. E, a última coisa que precisamos agora, é de falsas verdades. Está difícil? Muito. É nauseante viver em uma realidade onde dados sobre a morte de milhares são manipulados, onde um homem negro é asfixiado pelo joelho de um policial branco, é aterrador viver em um mundo onde uma criança negra, de cinco anos, é sentenciada à morte pela perversidade da patroa de sua mãe, apenas por ter sentido falta daquela a quem ele mais amava.

Essas são, apenas algumas amostras de um horror que parece não encontrar limites. Um horror que só vai encontrar seu fim, no instante em que transformarmos a nossa apatia e o nosso cansaço em força. Não é possível viver sob a lâmina do medo por tanto tempo. É hora de gritar a plenos pulmões que viver com medo não é viver, é estar aprisionado. E, isso, ninguém tolera mais.

P. S.: Esse texto é dedicado ao menino Miguel e sua mãe, Mirtes Renata. Meus sentimentos…