Reticências…

Que tempos são esses em que precisamos defender o óbvio? Nem Bertold Brecht conseguiria responder a essa pergunta se ainda estivesse entre nós. Estamos criando um hábito muito perigoso, nesses dias em que não encontramos respostas para tudo isso que vivemos. Por conta disso, nomeamos como loucura o que, na verdade, é desvio de caráter. E isso não é justo. Essa aparente insanidade coletiva nos impede de bater o martelo sobre muitas coisas. É como se, de uma hora para outra, as urgências perdessem o lugar na nossa escala de importância, as certezas dessem espaço para o imprevisível e as reticências assumissem o protagonismo em nossas vidas.

Esse estado de apatia compartilhada, certamente não é algo desejado por nenhum de nós. É algo muito bem pensado por aqueles que se favorecem da nossa falta de reação diante de um sem número de estímulos que, em sua maioria, só servem para minar a nossa compreensão sobre os fatos que nos cercam. Os efeitos dessa letargia são vários e nos afetam de formas distintas, mas, quase sempre, conseguem promover uma grande confusão mental, que nos impede de compreender, de fato, os absurdos que confundem a nossa percepção sobre o certo e errado. O que nos paralisa entre a dúvida e a decisão. Como saber para onde ir, se não conhecemos o nosso ponto de partida?

Essa percepção toma corpo em momentos em que a verdade é ameaçada pela incerteza de forma tão sútil e sorrateira, que impede posicionamentos que assumiríamos facilmente, em um passado não tão distante. Não conseguir deliberar sobre o que antes era simples, é fruto desse caos que nos governa, onde pouca coisa está clara, exceto o desejo de alguns em nos manter alheios, sem a nossa fundamental capacidade de tomar as nossas próximas decisões.

É estranho abordar as reticências sob este contexto. Essas longas pausas, por quem tenho enorme apreço, ajudam a organizar pensamentos e traçar estratégias para continuar uma caminhada. Em condições normais, temos o controle sobre quando e de que forma, devemos parar, respirar, entender para, então, seguir em frente. Porém, a realidade nos roubou, momentaneamente, o domínio sobre algumas de nossas escolhas.

Mas, o que parece uma derrota é, na verdade, uma grande oportunidade. Usar esse tempo em suspensão, para enxergar além das aparências, pode nos ajudar a ressignificar valores, amizades, posicionamentos e prioridades. Isso talvez facilite a nossa caminhada em direção a esse novo mundo, que se apresenta misterioso e cheio de reticências inesperadas.

E daí?

            Os dias avançam de um jeito incomum, como se tivessem rompido o contrato do com tempo. Ora, avançam numa velocidade espantosa, ora arrastam-se perturbadoramente lentos. E, no meio desse limbo temporal, estamos todos nós, alternando momentos de euforia com tristeza, otimismo com desesperança e ingenuidade com dureza. É um período tão denso que nos impede, até, de perceber a passagem do tempo. Nossa, que forma triste de começar um texto. E daí que muitos morrem? E daí que há um vírus? E daí que o mundo mudou? E daí?… – Triste realidade onde há coragem para essas perguntas.

            Fomos capturados por um redemoinho de emoções, onde passamos os nossos dias entre a superfície e as profundezas, calejando os nossos corações diante de uma realidade insana que se abateu sobre todos nós. Fomos atingidos por um meteoro desconstruído, que abandonou o formato colossal e assumiu uma forma microscópica invisível, mas, com a mesma capacidade de deixar um rastro de destruição por onde passa. Mas, e daí? Pandemias que provocam mortes não chegam a ser uma novidade. – Outros tantos podem se perguntar, mas, eu me pergunto, quantas dessas catástrofes, você já viveu?

            É curioso ver muitas pessoas, quando confrontadas com dados frios e contundentes, negarem os fatos. Entendo que, para algumas, essa é uma forma de autoproteção, afinal, não é fácil absorver tantas desgraças em tão pouco tempo. Mas, para muitos outros, negar fatos incontestáveis, nada tem a ver com a dificuldade de assimilar a dor. Se, negam, minimizam ou desqualificam os dados, o fazem por puro cinismo e desrespeito com aqueles que, infelizmente, foram atingidos em cheio por essa catástrofe. Mas, esses números não param de crescer, muitos vão morrer. E daí, fazer o que? – …

        Esse tipo de depoimento nos insulta da forma mais odiosa possível. Essas expressões de desumanidade, pensadas friamente para nos adoecer a alma, devem ser combatidas com indignação, sim, mas, sobretudo, devem ser alvo do nosso desprezo e horror. Alguns portadores da indiferença e do ódio, destilam o seu rancor pelo próximo, pedindo que deixemos de ser essa minoria barulhenta que adora reclamar de tudo, que paremos de carregar mortos nas costas, que voltemos a sorrir e, a despeito de todo o sofrimento que nos devora, que sejamos leves… Até quando falaremos – e daí? – para todo esse horror?

            Os nossos tempos, certamente serão objeto de estudo nos anos que estão por vir. É difícil saber qual será o olhar que as futuras gerações terão sobre o que vivemos neste tempo presente. É complicado imaginar seus pensamentos sobre como fomos capazes de lidar com toda essa dor. Mas, mesmo que seja apenas um exercício de futurologia, sem nenhuma efetividade, há comportamentos que ficarão registrados para sempre. A história se encarregará de marcar os cínicos e perversos com uma legenda que expressará toda a sua desimportância. Assim, quando nossos descendentes se perguntarem quem foram, a resposta será simples – E daí? Esses insignificantes não merecem atenção.”